O mundo se divide…

Colunistas

18.05.16

 

O mun­do se divi­de entre aque­les que acre­di­tam que o mun­do se divi­de em duas par­tes e os que acre­di­tam que tudo é mui­to mais com­pli­ca­do do que isso. Ao dizer que sou das que pen­sam que “tudo é mui­to mais com­pli­ca­do do que isso”, já estou admi­tin­do uma pri­mei­ra divi­são, me colo­can­do de um cer­to lado, o daque­les que não acre­di­tam que o mun­do se divi­de em duas par­tes. Ou seja, uma con­tra­di­ção em ter­mos. Posto isso, se eu fos­se des­sas que acre­di­ta que o mun­do se divi­de em duas par­tes, diria que no momen­to há deba­te entre aque­les que acre­di­tam que devem se ende­re­çar ao gover­no inte­ri­no, rei­vin­di­can­do repre­sen­ta­ção de mulhe­res e negros nos minis­té­ri­os, e aque­les que acre­di­tam tra­tar-se de nem se diri­gir ao gover­no inte­ri­no, por­que qual­quer tipo de inter­pe­la­ção só pode ser fei­ta par­tin­do da pre­mis­sa da sua legi­ti­mi­da­de.

Esteja de que lado você esti­ver, é impos­sí­vel igno­rar o pro­ble­ma da repre­sen­ta­ção na não repre­sen­ta­ti­vi­da­de do minis­té­rio do gover­no inte­ri­no. O jogo com o ver­bo repre­sen­tar é neces­sá­rio e segue a mes­ma linha do argu­men­to ante­ri­or: o mun­do se divi­de entre os que acre­di­tam na pos­si­bi­li­da­de de repre­sen­ta­ção e os que não acre­di­tam. Para os segun­dos, sem­pre mais melan­có­li­cos e menos ingê­nu­os, uma ou duas mulhe­res sal­pi­ca­das ali naque­la foto reple­ta de homens bran­cos de ter­nos escu­ros não resol­ve­ria o pro­ble­ma da repre­sen­ta­ção. Entregar a pre­si­dên­cia do BNDES para uma mulher, a eco­no­mis­ta Maria Silva Camargo, não muda o pro­ble­ma da repre­sen­ta­ção, e vir a ter a exce­len­te advo­ga­da Flavia Piovesan na secre­ta­ria de Direitos Humanos tam­bém não.

A gri­ta­ria mun­di­al (ver links abai­xo) ouvi­da depois do anún­cio do minis­té­rio mas­cu­li­no ser­viu prin­ci­pal­men­te para refor­çar o que já se sabia: a cri­se polí­ti­ca era tam­bém e prin­ci­pal­men­te uma expres­são de miso­gi­nia, expli­ci­ta­da na ima­gem da feli­ci­da­de dos homens bran­cos na toma­da de poder. Um regi­me demo­crá­ti­co depen­de da repre­sen­ta­ção de infi­ni­tas sin­gu­la­ri­da­des, impos­sí­veis de estar con­ti­das em qual­quer estru­tu­ra repre­sen­ta­ti­va, mas pos­sí­veis de não serem total­men­te igno­ra­das como se não exis­tis­sem.

Deputados e sena­do­res elei­tos já esta­vam sob a mira da cri­se de repre­sen­ta­ção des­de que as mani­fes­ta­ções de rua de 2013 se ergue­ram com os car­ta­zes “Fulano não me repre­sen­ta”, sen­do fula­no qual­quer “X” cuja pre­ten­são seja falar em meu nome, mes­mo que “X” fos­se uma mulher, bran­ca, hete­ros­se­xu­al, pro­fes­so­ra uni­ver­si­tá­ria como eu. A cri­se é de repre­sen­ta­ção tam­bém se con­si­de­rar­mos a judi­ci­a­li­za­ção da polí­ti­ca, que leva ao poder Judiciário – não elei­to, mes­mo que elei­ção pudes­se garan­tir repre­sen­ta­ção – aqui­lo que seria da ordem do Legislativo ou do Executivo.

A outra gri­ta­ria tão alta quan­to a ausên­cia femi­ni­na foi con­tra  extin­ção do minis­té­rio da Cultura – pres­tes a virar um puxa­di­nho coman­da­do por uma mulher, numa ten­ta­ti­va vã de solu­ci­o­nar a tal cri­se de repre­sen­ta­ção. O fim do minis­té­rio da Cultura tal­vez seja cri­me ain­da mais gra­ve, agu­do e irre­ver­sí­vel. Cultura, vale repe­tir, não é ati­vi­da­de artís­ti­ca ou patro­cí­nio para shows; cul­tu­ra é, entre outras tan­tas coi­sas, aqui­lo que nos faz diver­sos, é jus­ta­men­te aqui­lo que não se repre­sen­ta­va na foto da pos­se do pre­si­den­te inte­ri­no. Trata-se, por­tan­to, de pen­sar além da cota iden­ti­tá­ria – uma mulher, um negro, um indí­ge­na – para refle­tir diver­si­da­des cul­tu­rais não com­pre­en­di­das sem mulhe­res, sem negros, sem indí­ge­nas ou, em uma pala­vra, sem cul­tu­ra.

Se, como argu­men­ta o psi­ca­na­lis­ta fran­cês Gérard Wajcman (2012), o sécu­lo XX é o sécu­lo dos obje­tos, e o obje­to que melhor repre­sen­ta o sécu­lo XX é a ruí­na – “um obje­to bem for­ma­do, con­for­me à com­pre­en­são comum que se tem do obje­to, que  ocu­pa um lugar no espa­ço, pode ser pro­du­zi­do, ser aces­sí­vel aos sen­ti­dos, ain­da que, na prá­ti­ca, este se apre­sen­te como ligei­ra­men­te deses­tru­tu­ra­do” – pos­so dizer que as ruí­nas do sécu­lo XX não apa­re­cem na foto por que são, de for­ma para­do­xal, o prin­ci­pal obje­to da ima­gem. As ruí­nas do gover­no inte­ri­no, no entan­to, estão ins­cri­tas e espa­lha­das pela rede:

 

New York Times: “Piorando a cri­se polí­ti­ca no Brasil

Los Angeles Times: “No Brasil pós-impe­a­ch­ment, o novo minis­té­rio con­ser­va­dor é com­pos­to de 100% de homens

Forbes: “Novo pre­si­den­te do Brasil, Michel Temer pre­en­che minis­té­rio ape­nas com homens

The Guardian: “O sis­te­ma polí­ti­co que tem de estar em jul­ga­men­to, não uma mulher

The Guardian: “Muita tes­tos­te­ro­na e pou­co pig­men­to: a velha eli­te bra­si­lei­ra dá um gol­pe na diver­si­da­de

Frankfurter Allgemeine: “O gabi­ne­te dos homens bran­cos

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