O mundo vertiginoso de Kiarostami

No cinema

22.04.16

Quando o cine­as­ta ira­ni­a­no Abbas Kiarostami sur­giu aos olhos do mun­do com fil­mes como Onde fica a casa do meu ami­go? (1987) e Close-up (1990), hou­ve quem se apres­sas­se em dizer que seu suces­so no cir­cui­to dos fes­ti­vais se devia a uma curi­o­si­da­de pelo exo­tis­mo. O tem­po pro­vou que esses crí­ti­cos esta­vam erra­dos. Nas déca­das que se segui­ram Kiarostami cons­truiu uma das fil­mo­gra­fi­as mais sóli­das e ori­gi­nais de nos­sa épo­ca.

Os ciné­fi­los de São Paulo e do Rio [link da pro­gra­ma­ção:  ] têm ago­ra, até 9 de maio, a opor­tu­ni­da­de de conhe­cer essa obra pra­ti­ca­men­te em sua tota­li­da­de, na vas­ta retros­pec­ti­va “Um fil­me, cem his­tó­ri­as”, apre­sen­ta­da nas uni­da­des pau­lis­ta­na e cari­o­ca do Centro Cultural Banco do Brasil.

No pri­mei­ro fil­me rea­li­za­do por Kiarostami, o cur­ta O pão e o beco (1970), um meni­no está vol­tan­do para casa com um pão quan­do, numa rue­la, depa­ra-se com um cachor­ro hos­til e fica com medo de pas­sar por ele. Dessa situ­a­ção míni­ma o dire­tor cons­trói um mun­do. Medo, ima­gi­na­ção, saga­ci­da­de, tudo pul­sa naque­les pou­cos minu­tos, naque­les pou­cos metros qua­dra­dos.

Talvez soas­se inte­res­san­te dizer que todo o cine­ma de Kiarostami está con­ti­do em embrião nes­se cur­ta, mas seria fal­so. Se é ver­da­de que esses dile­mas miú­dos, essas minús­cu­las aven­tu­ras envol­ven­do cri­an­ças, repe­tem-se em fil­mes como Onde fica a casa do meu ami­go? e no rotei­ro de Kiarostami para o lon­ga O balão bran­co (1995), de Jafar Panahi, o fato é que a obra do dire­tor se expan­diu para outros temas, cami­nhos, cená­ri­os e lati­tu­des.

Um eixo temá­ti­co cons­tan­te, a par­tir de Close-up (que reen­ce­na a incrí­vel his­tó­ria do homem pre­so ao se pas­sar pelo cine­as­ta Mohsen Makhmalbaf para extor­quir uma famí­lia), é do emba­ra­lha­men­to entre rea­li­da­de e repre­sen­ta­ção.

Em Através das oli­vei­ras (1994), duran­te a rea­li­za­ção de um fil­me numa região devas­ta­da por um ter­re­mo­to, um ator não pro­fis­si­o­nal se apai­xo­na por uma atriz e entre­meia suas falas fic­ci­o­nais com decla­ra­ções de amor à moça.

Em E a vida con­ti­nua (1992), um cine­as­ta e seu filho ten­tam encon­trar, tam­bém numa região des­truí­da, os mora­do­res locais que par­ti­ci­pa­ram, anos antes, de uma fil­ma­gem – e fica evi­den­te que a pro­du­ção em ques­tão era Onde fica a casa do meu ami­go?, do pró­prio Kiarostami, fechan­do assim um cir­cui­to sub­ter­râ­neo de refe­rên­ci­as.

Ficção e iden­ti­da­de

O jogo realidade/ficção se des­do­bra e se refi­na em outro tópi­co, o da cons­tru­ção (e esfa­ce­la­men­to) da iden­ti­da­de pes­so­al, explo­ra­do ver­ti­gi­no­sa­men­te na fase inter­na­ci­o­nal do cine­as­ta: Cópia fiel (2010), roda­do na Itália, e Um alguém apai­xo­na­do (2012), no Japão.

A cla­re­za de pro­pó­si­tos, o talen­to cri­a­ti­vo e o domí­nio abso­lu­to de seus mei­os per­mi­te a Kiarostami cri­ar obras mar­can­tes tan­to num con­tex­to de gran­de pro­du­ção como nas situ­a­ções mais pre­cá­ri­as. Um exem­plo de des­po­ja­men­to mate­ri­al e esté­ti­co é o extra­or­di­ná­rio Dez (2002), que se resu­me a dez via­gens de car­ro pela cida­de de Teerã, nas quais a câme­ra, sem­pre den­tro do auto­mó­vel, regis­tra os diá­lo­gos entre a mulher ao volan­te e seu filho, ou entre ela e outras mulhe­res. A famí­lia, a con­di­ção femi­ni­na, as trans­for­ma­ções do Irã e do mun­do, tudo tra­fe­ga por essas con­ver­sas. O dis­po­si­ti­vo nar­ra­ti­vo é seme­lhan­te ao de Gosto de cere­ja, rea­li­za­do cin­co anos antes, no qual um homem, tam­bém den­tro de um car­ro, pro­cu­ra alguém que acei­te matá-lo e enter­rá-lo em tro­ca de dinhei­ro.

Kiarostami, que veio algu­mas vezes ao Brasil, tinha um pro­je­to (refe­ri­do por Leon Cakoff e Renata Almeida no lon­ga de epi­só­di­os Bem-vin­do a São Paulo): acom­pa­nhar com sua câme­ra uma meni­na de rua que ele viu uma vez na ave­ni­da Paulista, fuçan­do lixei­ras, abor­dan­do tran­seun­tes, toman­do sor­ve­te, can­tan­do, dan­çan­do. O fil­me seria ape­nas isso: um lon­go tra­vel­ling do iní­cio ao fim da ave­ni­da, obser­van­do essa vida à mar­gem, des­po­ja­da, sol­ta, impre­vi­sí­vel. Mesmo que não venha a rea­li­zá-lo, o pro­je­to per­ma­ne­ce como uma sín­te­se pos­sí­vel de sua gran­de arte.

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