O nazismo entre nós

No cinema

08.07.16

Já hou­ve fil­mes que abor­da­ram a pre­sen­ça nazis­ta no Brasil, espe­ci­al­men­te no sul, como Aleluia Gretchen (1976), de Sylvio Back, e Outra memó­ria (2004), de Chico Faganello. Mas nenhum até ago­ra tinha con­ta­do uma his­tó­ria tão hor­ri­pi­lan­te e reve­la­do­ra de nos­sas maze­las como a mos­tra­da no docu­men­tá­rio Menino 23, de Belisário Franca.

Com base numa pes­qui­sa do his­to­ri­a­dor Sidney Aguilar Filho, o fil­me recons­ti­tui um even­to ocor­ri­do em mea­dos dos anos 1930, quan­do o nazi­fas­cis­mo avan­ça­va na Europa e as teo­ri­as euge­nis­tas (leia-se racis­tas) con­ta­vam com sim­pa­ti­zan­tes na eli­te polí­ti­ca e inte­lec­tu­al do Brasil.

Meninos nume­ra­dos

Foi nes­se con­tex­to que mem­bros da famí­lia Rocha Miranda, oli­gar­cas bem rela­ci­o­na­dos com o poder des­de a épo­ca do Império, recru­ta­ram num orfa­na­to cató­li­co do Rio de Janeiro cin­quen­ta meni­nos negros e os leva­ram para tra­ba­lhar como escra­vos na pro­pri­e­da­de da famí­lia em Campina do Monte Alegre, no inte­ri­or de São Paulo. Esses meni­nos eram iden­ti­fi­ca­dos por núme­ros. O de núme­ro 23 foi um dos sobre­vi­ven­tes encon­tra­dos pelos rea­li­za­do­res do docu­men­tá­rio. Chamava-se Aloisio e mor­reu aos 93 anos, pou­co tem­po depois de dar seu con­tun­den­te depoi­men­to para a câme­ra.

Um dos mui­tos acer­tos do fil­me é repro­du­zir em sua estru­tu­ra o cami­nho da inves­ti­ga­ção do his­to­ri­a­dor Sidney Aguilar (que ser­ve como con­du­tor da nar­ra­ti­va). A des­co­ber­ta, na ruí­na de uma fazen­da, de tijo­los com a suás­ti­ca impres­sa em rele­vo leva a um agri­cul­tor meio mar­gi­na­li­za­do da região, que por sua vez leva a Aloisio, que depois de cer­ta relu­tân­cia abre as com­por­tas da memó­ria e pro­pi­cia o aces­so a outros per­so­na­gens e rela­tos. Paralelamente a isso, mos­tram-se os pas­sos da pes­qui­sa em arqui­vos, os docu­men­tos de épo­ca (fil­mes, fotos, recor­tes de jor­nal etc.), oca­si­o­nan­do a ampli­a­ção do qua­dro his­tó­ri­co geral.

Se há um repa­ro a ser fei­to a esse docu­men­tá­rio notá­vel é à recons­ti­tui­ção fic­ci­o­nal de cer­tas cenas reme­mo­ra­das pelos entre­vis­ta­dos. Rodadas em câme­ra len­ta num pre­to e bran­co gra­nu­la­do, ao som de um insis­ten­te pia­ni­nho, elas sen­ti­men­ta­li­zam de manei­ra a meu ver supér­flua aqui­lo que já se expres­sa­va com uma for­ça tre­men­da nas pala­vras, no cor­po, nos olhos e nos ges­tos dos sobre­vi­ven­tes e seus des­cen­den­tes. São tal­vez o tri­bu­to que se paga à nos­sa épo­ca em que tudo se expõe e pou­co é dei­xa­do para a ima­gi­na­ção. Penso, em con­tras­te, no mag­ní­fi­co docu­men­tá­rio Eu fui a secre­tá­ria de Hitler (2002), de André Heller e Othmar Schmiderer, que con­sis­te uni­ca­men­te do depoi­men­to de uma mulher (a secre­tá­ria do títu­lo) dian­te da câme­ra.

Emoção e dida­tis­mo

Essa indu­ção emo­ti­va e esse cui­da­do didá­ti­co indi­cam que o des­ti­no mais ade­qua­do de Menino 23 é a tele­vi­são. Não por aca­so, ele é copro­du­zi­do pela Globo News e pelo Canal Brasil. Pode ser que essas mule­tas nar­ra­ti­vas se jus­ti­fi­quem pela inten­ção de atin­gir um públi­co mais amplo, dis­per­so, desa­ten­to. Afinal a tele­vi­são, como dis­se Godard, não com­por­ta o silên­cio.

Seja como for, há no docu­men­tá­rio ima­gens de gran­de impac­to, como as de vacas e cava­los mar­ca­dos a fer­ro com a suás­ti­ca. Ou a sequên­cia de fotos de um per­so­na­gem conhe­ci­do como “Dois”, um meni­no negro que foi sepa­ra­do dos outros e leva­do para tra­ba­lhar no ser­vi­ço domés­ti­co da casa-gran­de. Criado como “da casa”, fez ami­za­de com o filho boê­mio da famí­lia e aca­bou acre­di­tan­do que fazia par­te do clã. Morreu pobre, amar­gu­ra­do e alcoó­la­tra. É a gran­de figu­ra trá­gi­ca do fil­me.

Há um momen­to cru­ci­al des­sa his­tó­ria que ser­ve para ilus­trar toda a tra­gé­dia de nos­sa heran­ça escra­vis­ta. Quando o gover­no Getúlio Vargas, pres­si­o­na­do pelos Estados Unidos, deci­de final­men­te entrar na guer­ra ao lado dos Aliados, depois de ter fler­ta­do com o Eixo, os nazis­tas bra­si­lei­ros e seus sim­pa­ti­zan­tes inte­gra­lis­tas pas­sam a ser inves­ti­ga­dos e per­se­gui­dos. A famí­lia Rocha Miranda sim­ples­men­te abre os por­tões da fazen­da e “liber­ta” aque­les meni­nos, ago­ra ado­les­cen­tes. Isto é, sol­ta-os no mun­do, sem eira nem bei­ra. A mai­o­ria aca­bou na sar­je­ta, na doen­ça e no alco­o­lis­mo.

Pode-se ver aí, em pon­to menor, o que acon­te­ceu com os ex-escra­vos depois da abo­li­ção, joga­dos às mar­gens de uma soci­e­da­de que não esta­va dis­pos­ta a inte­grá-los como cida­dãos.

São feri­das des­se tipo, hoje rea­vi­va­das com o recru­des­ci­men­to assus­ta­dor de ide­o­lo­gi­as de extre­ma direi­ta entre nós, que Menino 23 cutu­ca e ilu­mi­na.

Os cam­pos vol­ta­rão

Está em car­taz no CineSesc, em São Paulo, uma peque­na obra-pri­ma, Os cam­pos vol­ta­rão, fil­me mais recen­te do vete­ra­no Ermanno Olmi, rea­li­za­dor de O pos­to, A árvo­re dos taman­cos e tan­tos outros títu­los memo­rá­veis. Toda a ação se pas­sa num trin­chei­ra cober­ta de neve duran­te a Primeira Guerra Mundial, entre um gru­po de sol­da­dos que espe­ram a mor­te cer­ta e con­ver­sam sobre o sen­ti­do da vida.

Baseado em his­tó­ri­as que o cine­as­ta ouviu de seu pai, esse dra­ma melan­có­li­co em que as cores des­sa­tu­ra­das ten­dem ao pre­to e bran­co é uma daque­las obras de arte que têm o dom de subli­mar as des­gra­ças huma­nas sem edul­co­rá-las, de res­ga­tar o que res­ta de huma­no no homem. Num espa­ço res­tri­to, com pouquís­si­mos ele­men­tos, Olmi cons­trói um mun­do com­ple­xo e como­ven­te, mos­tran­do que a bele­za pode ser dolo­ro­sa e a dor, bela.

, , , , , , , , , , , ,