O olhar infantil

No cinema

04.06.12

Assistindo a O que eu mais dese­jo, do japo­nês Hirokazu Kore-eda, me dei con­ta do óbvio: fil­mar cri­an­ças não deve ser nada fácil. Narrar um fil­me todo sem aban­do­nar o pon­to de vis­ta infan­til é um tour de for­ce que pou­cos rea­li­zam a con­ten­to. Alguns exem­plos extra­or­di­ná­ri­os me vêm a men­te.

Em Bom dia (1959), de Yasijiro Ozu, dois irmãos fazem gre­ve de silên­cio para pres­si­o­nar seus pais a com­prar um tele­vi­sor.

O peque­no fugi­ti­vo (1953), de Ray Ashley, Morris Engel e Ruth Orkin, des­cre­ve a saga de um meni­no de seis anos que pas­sa um dia e uma noi­te se viran­do sozi­nho no gran­de par­que de diver­sões de Coney Island. Aqui, uma sequên­cia espe­ci­al­men­te bela des­se fil­me úni­co, tido como pio­nei­ro do cine­ma inde­pen­den­te nor­te-ame­ri­ca­no:

A guer­ra dos botões (Yves Robert, 1962) mar­cou épo­ca ao mos­trar as bata­lhas entre garo­tos de dois vila­re­jos fran­ce­ses rivais.

Isso sem falar de clás­si­cos como Los olvi­da­dos (Buñuel, 1950), Os incom­pre­en­di­dos (Truffaut, 1958) e Pixote (Babenco, 1980), cujos pro­ta­go­nis­tas, a bem da ver­da­de, são mais ado­les­cen­tes do que pro­pri­a­men­te cri­an­ças.

Realismo e fan­ta­sia

O que eu mais dese­jo não está à altu­ra des­sas obras, é pre­ci­so que se diga. Talvez nem seja um gran­de fil­me. Mas é, no míni­mo, encan­ta­dor. Seu segre­do, a meu ver, resi­de no fato de par­tir de um rea­lis­mo banal para ingres­sar pou­co a pou­co no ter­re­no da fan­ta­sia, da fábu­la, qua­se do con­to de fadas — e depois retor­nar ao coti­di­a­no, mas em novas bases, com um apren­di­za­do incor­po­ra­do. É, de cer­to modo, um roman­ce de ini­ci­a­ção.

A nar­ra­ti­va é cen­tra­da — ou melhor, bifur­ca­da — em dois peque­nos irmãos, Koichi (Koki Maeda) e Ryunosuke (Ohshirô Maeda), que vivem em cida­des dife­ren­tes des­de que seus pais se sepa­ra­ram, meses atrás. O mais velho, Koichi, de doze anos, ouve alguém dizer que quan­do dois trens-bala se cru­zam em alta velo­ci­da­de acon­te­ce um mila­gre, e quem pre­sen­cia o even­to tem seu dese­jo mais ínti­mo aten­di­do. Ora, o que ele mais dese­ja é ver a famí­lia reu­ni­da.

Não vou entrar em deta­lhes do entre­cho para não estra­gar o pra­zer de quem ain­da não viu o fil­me. Basta dizer que os dois irmãos deci­dem ir ao local da fer­ro­via em que tal cru­za­men­to de trens acon­te­ce. Junto com eles vão outras cri­an­ças, cada uma com seu dese­jo supre­mo: uma quer ser atriz, outro quer res­sus­ci­tar o cão­zi­nho que aca­bou de mor­rer, outro quer casar com a pro­fes­so­ra.

Leveza qua­se oní­ri­ca

O boni­to é o seguin­te: enquan­to estão sepa­ra­das, cada uma em sua casa, as cri­an­ças se sujei­tam às injun­ções prá­ti­cas, pro­sai­cas, do mun­do dos adul­tos. Ao se uni­rem, elas pare­cem dobrar as qui­nas duras da rea­li­da­de e cons­truir um espa­ço novo, ple­no de expec­ta­ti­vas e pos­si­bi­li­da­des.

Se há algo de frou­xo e dis­per­so na nar­ra­ti­va de Kore-Eda, sobre­tu­do na pri­mei­ra par­te, isso é com­pen­sa­do pela leve­za qua­se oní­ri­ca com que ele con­duz a segun­da meta­de, abrin­do mão da veros­si­mi­lhan­ça e mer­gu­lhan­do no rei­no da fan­ta­sia infan­til.

Alguns acha­dos são par­ti­cu­lar­men­te feli­zes. A cer­ta altu­ra, os meni­nos e meni­nas escre­vem seus dese­jos num pano bran­co, cada um com um pin­cel atô­mi­co de uma cor. Quando vão ao local do cru­za­men­to dos trens, des­fral­dam o pano, con­ver­ti­do numa mul­ti­co­lo­ri­da ban­dei­ra da espe­ran­ça. Realizem-se ou não os dese­jos, essa é uma ima­gem que fica­rá.

http://www.youtube.com/watch?v=-HAKKq-LHic

Na ima­gem que ilus­tra o post: cena do fil­me O que eu mais dese­jo.

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