O Oscar e os filmes “sobre”

No cinema

04.03.16

De quan­do em quan­do, a Academia (isto é, seu cor­po de votan­tes) deci­de pre­mi­ar um fil­me mais pela rele­vân­cia ou con­tun­dên­cia de seu “assun­to” do que pro­pri­a­men­te por seu valor cine­ma­to­grá­fi­co. É o caso evi­den­te de Spotlight: segre­dos reve­la­dos, de Tom McCarthy, assim como foi o de Doze anos de escra­vi­dão.

São os fil­mes “sobre”: sobre o Holocausto, sobre a escra­vi­dão, sobre a indús­tria do taba­co, sobre a ame­a­ça nucle­ar. Em Spotlight, como todos sabem, o assun­to é o abu­so sexu­al de cri­an­ças e ado­les­cen­tes por padres cató­li­cos, espe­ci­al­men­te em Boston, mas não só.

Pois bem. O que tor­na o fil­me mais inte­res­san­te, a meu ver, é o entre­la­ça­men­to des­se núcleo temá­ti­co com outro, o do fun­ci­o­na­men­to de um gran­de jor­nal, o do emba­te diá­rio entre a bus­ca da infor­ma­ção escon­di­da e as injun­ções de inte­res­ses exter­nos (polí­ti­cos, econô­mi­cos, reli­gi­o­sos). Num momen­to em que a impren­sa, em espe­ci­al no Brasil, pare­ce deso­ri­en­ta­da, para não dizer mori­bun­da, é revi­go­ran­te lem­brar que ela já cum­priu um papel civi­li­za­tó­rio, e não faz mui­to tem­po.

O pre­sen­te nar­ra­ti­vo de Spotlight são os anos 2001–2002, mas a inves­ti­ga­ção dos repór­te­res amplia o leque de acon­te­ci­men­tos para as três déca­das ante­ri­o­res, bem como um letrei­ro expli­ca­ti­vo ao final avan­ça até os dias de hoje.

Eficiência nar­ra­ti­va

Do pon­to de vis­ta da cons­tru­ção nar­ra­ti­va, o fil­me é de uma obje­ti­vi­da­de e uma efi­ci­ên­cia impe­cá­veis, den­tro dos padrões do cine­ma rea­lis­ta con­ven­ci­o­nal. Em face de tan­tos pon­tos nevrál­gi­cos – os abu­sos dos padres, a saga dos jor­na­lis­tas, as rela­ções entre poder, igre­ja e mídia, o dra­ma das víti­mas, as cri­ses de cons­ci­ên­cia dos reli­gi­o­sos –, Tom McCarthy optou pela pru­dên­cia. Sua mise-en-scè­ne dis­cre­ta, “invi­sí­vel”, con­tras­ta com o que um crí­ti­co cha­mou de “dire­ção osten­ta­ção” de Alejandro Iñárritu.

O foco está nos qua­tro ou cin­co jor­na­lis­tas da equi­pe Spotlight do jor­nal Boston Globe, espe­ci­a­li­za­da em gran­des repor­ta­gens rea­li­za­das ao lon­go de mui­tos meses e man­ti­das em sigi­lo até serem publi­ca­das. Sob o coman­do do edi­tor Walter Robinson (Michael Keaton, feliz­men­te con­ti­do, sem care­tas), eles ata­cam em vári­as fren­tes: as víti­mas, os advo­ga­dos, os padres, a hie­rar­quia ecle­siás­ti­ca, a pró­pria impren­sa.

É uma saga acom­pa­nha­da com vibra­ção, mas sem ape­la­ção osten­si­va: não vemos os dra­mas fami­li­a­res dos pro­ta­go­nis­tas que cos­tu­mam infes­tar esse tipo de fil­me para for­çar uma iden­ti­fi­ca­ção emo­ci­o­nal com os per­so­na­gens e sus­ci­tar peque­nas e gran­des catar­ses: o mari­do que não dá aten­ção à espo­sa frus­tra­da, a mãe que não tem tem­po para cui­dar do filho autis­ta, o filho que está com o pai ago­ni­zan­do na UTI, essas coi­sas. Mesmo quan­do abor­da casos dila­ce­ran­tes de víti­mas de abu­so, é um melo­dra­ma enxu­to, que se man­tém nos limi­tes da decên­cia.

Num mun­do ide­al, Spotlight pode­ria ganhar o Oscar de melhor rotei­ro, enquan­to o prê­mio prin­ci­pal fica­ria para um fil­me de mai­or bri­lho pro­pri­a­men­te cine­ma­to­grá­fi­co, como Mad Maxou Os oito odi­a­dos. Mas o mun­do ide­al só exis­te na nos­sa cabe­ça (e em cada cabe­ça ele é dife­ren­te).

Sobre o ven­ce­dor do Oscar de fil­me estran­gei­ro, O filho de Saul, escre­vi bre­ve­men­te aqui quan­do foi exi­bi­do na Mostra de São Paulo.

Nossa irmã mais nova

O mais novo lon­ga-metra­gem do japo­nês Hirokazu Kore-eda, Nossa irmã mais nova, é o que se cos­tu­ma cha­mar de “fil­me encan­ta­dor” e deve­rá cair nas gra­ças dos espec­ta­do­res sen­sí­veis aos dra­mas fami­li­a­res tra­ta­dos com deli­ca­de­za e doçu­ra.

Doçura demais, tal­vez. Na his­tó­ria de três irmãs da cida­de lito­râ­nea de Kamaruka que, após a mor­te do pai dis­tan­te, des­co­brem a exis­tên­cia de uma meia-irmã mais nova, Koreeda vol­ta ao tema das rela­ções fami­li­a­res no Japão con­tem­po­râ­neo, que ele já abor­da­ra em obras mar­can­tes como Ninguém pode saber (2004) e Pais e filhos (2013), mas aqui o dra­ma de cer­ta for­ma per­de o gume, as ten­sões são amor­te­ci­das, as ares­tas apa­ra­das de modo um tan­to fácil.

Todo mun­do é bom no fil­me, que ganhou o fes­ti­val de San Sebastián, na Espanha. Até o exe­cu­ti­vo de um ban­co é um huma­nis­ta sen­ti­men­tal. Koreeda, dis­cí­pu­lo de Ozu mais nos assun­tos do que na for­ma (está lon­ge do rigor e da pre­ci­são do mes­tre), tra­fe­ga no limi­te entre a acei­ta­ção sere­na, meio zen, das agru­ras da vida e o mero con­for­mis­mo, o oti­mis­mo bobo.

Mas é mui­to agra­dá­vel acom­pa­nhar as ações boni­tas des­sas moças boni­tas em cená­ri­os boni­tos: o mar, a mon­ta­nha, as cere­jei­ras em flor. Os sen­ti­men­tos des­ti­la­dos em ati­vi­da­des sim­ples (colher amei­xas, fazer um licor, comer um boli­nho, fazer um gol no fute­bol), em har­mo­nia com o tem­po cícli­co das esta­ções, das colhei­tas, das marés. Um res­pi­ro salu­tar no meio do fre­ne­si e do sufo­co do dia a dia.

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