Camila e Antonio Pitanga, Beto Brant

Thiago Duran

Camila e Antonio Pitanga, Beto Brant

O país que poderia ter sido

No cinema

07.04.17

Antonio Pitanga é um ator intui­ti­vo, vigo­ro­so, des­ses aos quais se cos­tu­ma con­fe­rir o epí­te­to de “for­ça da natu­re­za”. No caso dele, o cli­chê se jus­ti­fi­ca. Em mais de cem fil­mes, tele­no­ve­las e minis­sé­ri­es, ele encar­nou, sem­pre com notá­vel ener­gia, escra­vos rebel­des, sam­bis­tas, ban­di­dos, pes­ca­do­res, fei­ran­tes, macum­bei­ros – e mui­to mais rara­men­te pro­fis­si­o­nais libe­rais e cida­dãos de clas­se média, o que não é de estra­nhar num país ain­da tão dila­ce­ra­do pela desi­gual­da­de raci­al.

Como retra­tar, num docu­men­tá­rio, as vári­as dimen­sões des­se sin­gu­lar artis­ta bai­a­no, que des­pon­tou no cine­ma novo e mar­cou pre­sen­ça em ter­re­nos tão dís­pa­res como o tea­tro de van­guar­da pau­lis­ta, as esco­las de sam­ba cari­o­cas, a mili­tân­cia polí­ti­ca, as rela­ções afro-bra­si­lei­ras e as nove­las de tele­vi­são?

Sujeito e obje­to

O cami­nho esco­lhi­do pelos dire­to­res Beto Brant e Camila Pitanga foi fazer um fil­me com Antonio Pitanga, mais do que sobre Antonio Pitanga. Em Pitanga, é o pró­prio ator que con­duz a nar­ra­ti­va, revi­si­tan­do os luga­res onde viveu, reen­con­tran­do as pes­so­as com quem se rela­ci­o­nou pro­fis­si­o­nal ou inti­ma­men­te, reme­mo­ran­do pas­sa­gens conhe­ci­das ou obs­cu­ras de sua tra­je­tó­ria. Em vez de entre­vis­ta­do, ele é entre­vis­ta­dor. Em vez de obje­to, sujei­to.

O resul­ta­do é um fil­me vívi­do, pul­san­te, que evi­ta a fri­e­za do regis­tro docu­men­tal, muse­o­ló­gi­co, e tam­bém o tom de home­na­gem, quan­do não de hagi­o­gra­fia, que cos­tu­ma per­me­ar os docu­men­tá­ri­os ali­cer­ça­dos em depoi­men­tos de “cabe­ças falan­tes” sobre o per­so­na­gem retra­ta­do.

Entremeando as memó­ri­as evo­ca­das por Pitanga e seus inter­lo­cu­to­res, vemos cenas de seus fil­mes, peças de tea­tro, tele­no­ve­las, inter­ven­ções públi­cas, num teci­do audi­o­vi­su­al tão envol­ven­te que nem per­ce­be­mos de ime­di­a­to que essa expo­si­ção está orga­ni­za­da em blo­cos temá­ti­cos nem um pou­co rígi­dos, antes nove­los que se inter­pe­ne­tram do que pro­pri­a­men­te blo­cos.

Amor e luta

Há, por­tan­to, uma cons­tru­ção orgâ­ni­ca, que poten­ci­a­li­za as vári­as face­tas do pro­ta­go­nis­ta em vez de apri­si­o­ná-las em com­par­ti­men­tos estan­ques. Da juven­tu­de em Salvador, com suas fei­ras, ter­rei­ros de can­dom­blé e aulas de tea­tro, pas­sa­mos sem per­ce­ber ao cau­da­lo­so capí­tu­lo das namo­ra­das, com­pa­nhei­ras e aman­tes, que vão de uma sur­pre­en­den­te Maria Bethânia até a mili­tan­te comu­ni­tá­ria e ex-gover­na­do­ra do Rio Benedita da Silva, pas­san­do pela atriz e mode­lo Vera Manhães, mãe de seus filhos Camila e Rocco.

Outro “nove­lo” dos mais den­sos é o da pre­sen­ça negra no cine­ma e na tele­vi­são, com Pitanga tro­can­do idei­as e rela­tos com seus cole­gas negros de vári­as gera­ções (Lea Garcia, Milton Gonçalves, Zezé Motta, Lázaro Ramos). Sem res­sen­ti­men­tos, mas tam­bém sem con­des­cen­dên­cia, essas con­ver­sas ame­nas aca­bam por tra­çar uma his­tó­ria de luta cons­tan­te con­tra a dis­cri­mi­na­ção.

Com a mes­ma sim­pa­tia irre­sis­tí­vel, o mes­mo afe­to e o mes­mo humor, Pitanga con­ver­sa com gran­des nomes da arte e da cul­tu­ra (Zé Celso, Caetano Veloso, Paulinho da Viola etc.) e com anô­ni­mos fei­ran­tes, pes­ca­do­res, mães de san­to. É a encar­na­ção viva de um sonho feliz de país, um país solar e dio­ni­sía­co, eró­ti­co e mis­ci­ge­na­do, livre e jus­to. Assistir a Pitanga é via­jar duran­te uma hora e meia por esse ter­ri­tó­rio ima­gi­ná­rio que pode­ria ter sido – e quem sabe um dia ain­da venha a ser – o Brasil.

Melhores do ano

Está em car­taz até 19 de abril no CineSesc, em São Paulo, o tra­di­ci­o­nal Festival Sesc Melhores Filmes, que exi­be deze­nas de pro­du­ções que se des­ta­ca­ram no ano ante­ri­or, com base numa ampla vota­ção da crí­ti­ca e do públi­co.

Nesta sua 43ª edi­ção (é o fes­ti­val mais anti­go de São Paulo), o gran­de pre­mi­a­do naci­o­nal foi Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, o mais vota­do tan­to pelos crí­ti­cos como pelos espec­ta­do­res nas cate­go­ri­as fil­me, dire­ção, rotei­ro e atriz (Sonia Braga). Na sea­ra inter­na­ci­o­nal, hou­ve uma frag­men­ta­ção mai­or. A crí­ti­ca esco­lheu O filho de Saul, do hún­ga­ro László Nemes, e o públi­co optou por A garo­ta dina­mar­que­sa, do bri­tâ­ni­co Tom Hooper. O melhor dire­tor, segun­do o públi­co, foi Alejandro Iñárritu, por O regres­so; para a crí­ti­ca, foi Denis Villeneuve, por A che­ga­da.

Mais impor­tan­te do que a pre­mi­a­ção, porém, é a nova opor­tu­ni­da­de de ver, numa das melho­res salas de exi­bi­ção pau­lis­ta­nas, fil­mes notá­veis que mui­ta gen­te dei­xou de ver por um moti­vo ou por outro, como O cava­lo de Turim, de Béla Tarr, O botão de péro­la, de Patricio Guzmán, e Ela vol­ta na quin­ta, de André Novais, entre mui­tos outros, ou rever clás­si­cos abso­lu­tos como Crepúsculo dos deu­ses, de Billy Wilder, O pode­ro­so che­fão, de Francis Coppola, e Lawrence da Arábia, de David Lean. São duas sema­nas de uma fes­ta inin­ter­rup­ta do cine­ma.

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