O pianista mineiro

Música

09.10.14

* Nelson Freire com­ple­ta 70 anos no dia 18 de outu­bro. Homenageando o pia­nis­ta, o cine­ma do IMS-RJ exi­bi­rá, entre os dias 12 e 19 de outu­bro, em 35mm, o docu­men­tá­rio Nelson Freire, diri­gi­do por João Moreira Salles, com argu­men­to de Flávio Pinheiro e rotei­ro de João, Flávio e Felipe Lacerda, como par­te da mos­tra Nelson Freire 70 anos. O tex­to abai­xo foi escri­to por João Moreira Salles em 2002 para o lan­ça­men­to do fil­me.

Como a mai­o­ria dos bra­si­lei­ros que gos­ta de músi­ca, já conhe­ço Nelson Freire há mui­to tem­po. Só que ele não sabia. Ainda garo­to eu fre­quen­ta­va os seus con­cer­tos no Teatro Municipal do Rio, ouvin­do com espan­to aque­le que foi des­cri­to recen­te­men­te pelo prin­ci­pal crí­ti­co de músi­ca do jor­nal Le Monde como um dos mai­o­res pia­nis­tas da atu­a­li­da­de: “É pos­sí­vel encon­trar três ou qua­tro pia­nis­tas tão excep­ci­o­nais quan­to Nelson Freire, mas nin­guém encon­tra­rá um melhor”, foram as pala­vras exa­tas de Alain Lompech.

Durante os anos 80 e 90, toda vez que Nelson pas­sa­va pelo Rio eu ten­ta­va con­se­guir um ingres­so para ouvi-lo. De todas as coi­sas extra­or­di­ná­ri­as que acon­te­ci­am no pal­co naque­las oca­siões, uma das que mais me cha­ma­vam a aten­ção era a ele­gân­cia con­ti­da dos seus ges­tos. Isso pode pare­cer estra­nho, dado que de um músi­co se espe­ra músi­ca e não mími­ca. Mas sem­pre achei que a músi­ca de Nelson se pare­cia com seus ges­tos – todos eles pre­ci­sos, sem der­ra­mes des­ne­ces­sá­ri­os, sem nenhu­ma retó­ri­ca.

Porém, esse rigor sem­pre foi um pou­co con­tra a cor­ren­te. Uma boa par­te do públi­co de músi­ca eru­di­ta gos­ta de ver o seu pia­nis­ta dan­do gol­pes de bra­ço à direi­ta e à esquer­da, como se o tecla­do fos­se um mar, e ele, um afo­ga­do. O pro­ble­ma des­se des­tem­pe­ro é que qua­se sem­pre a músi­ca aca­ba desa­pa­re­cen­do por trás da ginás­ti­ca. Com Nelson isso nun­ca acon­te­ce. O seu pia­no é um mar cal­mís­si­mo. Acredito que essa ele­gân­cia seja uma deci­são esté­ti­ca; é como se ele dis­ses­se: “Prestem aten­ção na músi­ca e não se dei­xem ludi­bri­ar pela per­for­man­ce”. E sus­pei­to tam­bém que se tra­te de uma ques­tão de reca­to: “Primeiro Schubert, Chopin ou Brahms, e só depois Nelson Freire”, é dis­so que Nelson pare­ce ten­tar nos con­ven­cer. É cla­ro que isso é uma ilu­são: o Chopin que Nelson toca nin­guém toca igual, mas a sen­sa­ção que a pla­teia tem ao ouvi-lo é a de um aces­so dire­to à músi­ca, sem esca­las. Num mun­do cada vez mais exi­bi­do, esse reca­to é o tra­ço mais belo de Nelson e, na minha opi­nião, a razão da extra­or­di­ná­ria pure­za da sua músi­ca.

No Brasil exis­te toda uma mito­lo­gia em tor­no da figu­ra do escri­tor minei­ro, do polí­ti­co minei­ro, do ban­quei­ro minei­ro – homens dis­cre­tos, mais pri­va­dos do que públi­cos, que pre­fe­rem falar de suas obras a exi­bir suas bio­gra­fi­as. Pois bem, mes­mo que Nelson não tives­se nas­ci­do em Minas Gerais (mas nas­ceu), ele teria inven­ta­do mais um per­so­na­gem para a cate­go­ria: a do pia­nis­ta minei­ro.

Em mar­ço de 1999, eu me apre­sen­tei a ele. Fazia algum tem­po, o jor­na­lis­ta Flávio Pinheiro e eu vínha­mos con­ver­san­do sobre nos­sa von­ta­de de fazer um docu­men­tá­rio sobre Nelson Freire. Gentilmente, Nelson topou. Filmamos de maio de 2000 a agos­to de 2001. Conseguimos regis­trar momen­tos mara­vi­lho­sos: Nelson tocan­do o Segundo con­cer­to de Brahms no Municipal do Rio, tocan­do o mes­mo con­cer­to no Sul da França com a Filarmônica de São Petersburgo, tocan­do a qua­tro mãos e a dois pia­nos com sua gran­de ami­ga Martha Argerich, tocan­do a Fantasia de Schumann em pelo menos três oca­siões dife­ren­tes (todas elas de tirar o fôle­go), tocan­do Villa-Lobos den­tro de uma igre­ja bar­ro­ca com vis­ta para o Mediterrâneo. Porém, não há como negar. Nelson Freire tam­bém é fei­to de lacu­nas.

Documentaristas têm a estra­nha mania de achar que tudo, ou qua­se tudo, deve ser fil­ma­do. Foi pre­ci­so um pia­nis­ta minei­ro para me mos­trar que não pre­ci­sa ser neces­sa­ri­a­men­te assim. Se enten­do bem a psi­co­lo­gia do minei­ro, deter­mi­na­das coi­sas exis­tem ape­nas para os ami­gos, em sinal de res­pei­to e de ami­za­de, como quem diz: “Isso é só pra vocês”. É uma ideia boni­ta.

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