O poema se escreve, não se explica (a vida)

Literatura

12.04.16

Quem quan­do quei­ra e a sur­pre­sa dos avul­sos

Aos livros de poe­sia pedi­mos coi­sas demais ou mui­to pou­co. Alimentam tan­to o lamen­to quan­to o dis­cur­so de sal­va­ção, ser­vin­do even­tu­al­men­te como bodes expi­a­tó­ri­os da lite­ra­tu­ra de toda uma gera­ção, épo­ca, país. Quanto ao poe­ma, é bem pos­sí­vel que o mes­mo argu­men­to usa­do para des­tro­ná-lo seja reto­ma­do em outro con­tex­to para assi­na­lar sua potên­cia. O poe­ta tor­nou-se esse duplo res­pon­sá­vel pela reno­va­ção e pelo des­gas­te, pela impos­si­bi­li­da­de do novo, do outro e, ape­sar de tudo e de mui­tos, insis­te ain­da em exis­tir.

Jamais fomos moder­nos, mas de vez em quan­do ain­da pode­mos ser fla­gra­dos var­ren­do res­tos de uto­pia para debai­xo do tape­te. Com as van­guar­das apren­de­mos que ao poe­ma tudo pode ser con­ce­di­do, mas tam­bém que a poe­sia mor­re às vezes por exces­so de poe­sia. Redução de impos­sí­veis a pos­sí­veis min­gua­dos, ralos, jogos de aba­fa, dese­jos repri­mi­dos, tudo isso um dia aca­ba por refluir. O lei­tor que se cui­de e este­ja aten­to. De tão acos­tu­ma­dos a espe­rar tudo e qual­quer coi­sa do poe­ma, pas­sa­mos a não espe­rar nada ou mui­to pou­co. Nesse esta­do de espí­ri­to pou­co pro­pí­cio a sur­pre­sas, de vez em quan­do algu­ma coi­sa acon­te­ce, algu­ma coi­sa que não ocul­ta nem rega­teia seus pró­pri­os modos de tes­tar o poe­ma, mes­mo saben­do que tudo ou qua­se já foi tes­ta­do.

O novo livro de João Bandeira, Quem quan­do quei­ra, uma das últi­mas publi­ca­ções da Cosac Naify, sur­ge no cam­po mina­do da poe­sia con­tem­po­râ­nea desa­fi­an­do velhos víci­os de recep­ção já bas­tan­te natu­ra­li­za­dos entre nós. Não é uma anto­lo­gia (ain­da bem), embo­ra abar­que um gran­de arco de tem­po – os poe­mas mais anti­gos foram escri­tos há qua­se 20 anos e mui­tos deles já foram publi­ca­dos antes em revis­tas, anto­lo­gi­as e suple­men­tos de jor­nais.

A obra e o autor (foto: Ninil Gonçalves)

O livro se abre com um poe­ma míni­mo que inter­pe­la o lei­tor para des­lo­cá-lo da posi­ção de enten­di­men­to. Convida-o a per­cor­rer os emba­ra­ços da vida (e por exten­são da poe­sia) sem dela exi­gir expli­ca­ções. Talvez por isso seja pre­fe­rí­vel reve­lar um pro­ble­ma à bone­qui­nha viet­na­mi­ta, mes­mo sob o ris­co de sua pro­pa­ga­ção infi­ni­ta em sus­sur­ros inin­te­li­gí­veis. A pri­mei­ra par­te está mar­ca­da pelo luto e pelos modos de se atar à ausên­cia sem pre­ci­pi­tar-se no nada, são poe­mas de ver­sos níti­dos, cor­tan­tes, con­ti­dos. Neles res­sur­ge o nome Lúcia (Riedel), a quem o volu­me Rente (Ateliê Editorial, 1997) – últi­ma publi­ca­ção em livro antes de Quem quan­do quei­ra – havia sido dedi­ca­do. Nele, Bandeira expe­ri­men­ta­va uma for­ma (rara entre nós) de líri­ca con­cre­ta, em que o nome Lúcia com­pa­re­cia não ape­nas como foco de ende­re­ça­men­to e medi­ta­ção, mas sur­gia em sua espes­su­ra nomi­nal meta­mór­fi­ca, como se o poe­ta tocas­se e revi­ras­se o cor­po do nome pró­prio, trans­for­man­do-o lúdi­ca e amo­ro­sa­men­te em lucar­na, lucer­na, lucí­fe­ra, ludo e final­men­te lux.

Já nos poe­mas des­te novo livro, o nome Lúcia apa­re­ce como som­bra que insis­te e com a qual o poe­ta con­ti­nua a con­ver­sar, mas de lon­ge, sem poder efe­ti­va­men­te tocá-lo. O “Díptico da Lúcia” con­ju­ga dois cur­tos – “fal­ta” e “acer­to” –, arti­cu­lan­do o infi­ni­to da ausên­cia com uma pos­si­bi­li­da­de ver­ti­gi­no­sa de atar-se ao per­di­do à bei­ra do nada. A angús­tia da for­ma e a angús­tia da fal­ta se inter­pe­lam e se entre­la­çam. São ver­sos que nos reme­tem a outras expe­ri­ên­ci­as de con­ver­gên­cia entre a escri­ta poé­ti­ca e o luto, den­tre as quais eu reme­te­ria a Algo: pre­to, de Jacques Roubaud (bela­men­te tra­du­zi­do por Inês Oseki Depré), e Nous deux enco­re, de Henri Michaux.

Se o abis­mo de um luto é tam­bém sem­pre uma espé­cie de delí­rio, o retor­no ao real será que­da no coti­di­a­no, des­ci­da ao dia a dia, ao acon­che­go sim­pá­ti­co de um novo encon­tro amo­ro­so, exem­pli­fi­ca­do no poe­ma em que “a com­pre­en­são de todas as coi­sas” sur­ge no meio de uma noi­te de insô­nia, quan­do o amor des­ce as esca­das, des­ca­be­la­do, para fazer uma quei­xa que é tam­bém uma espé­cie de cui­da­do. É pre­ci­so dizer que esses poe­mas, sem cede­rem ao con­fes­si­o­nal, mobi­li­zam a inti­mi­da­de, como um bai­xo con­tí­nuo, mar­can­do bem a dife­ren­ça entre se exi­bir e se escre­ver.

Logo adi­an­te sur­gem veí­cu­los len­tos que nos con­du­zem em pas­sei­os maci­os por uma cida­de estran­gei­ra não nome­a­da, onde a moto­ris­ta “nun­ca mais tem pressa/ e vai per­gun­tan­do aos pas­sa­gei­ros como eles têm passado/ se estão bem aco­mo­da­dos, e todos con­cor­dam com ela/ que o melhor tra­je­to é o que for mais lon­go e mais boni­to”. Em con­tras­te com a voz sin­co­pa­da e rela­ci­o­nal do pri­mei­ro con­jun­to, sur­ge um anda­men­to mais mun­da­no em poe­mas tam­bém mais visu­ais, que se abrem sobre pai­sa­gens de coli­nas, vilas mili­ta­res, pal­mei­ras, coquei­ros, pra­ças, ruas toma­das por pas­se­a­tas, praia com trai­nei­ra, bar­co, areia, o can­to de uma lava­dei­ra e uma grin­ga fogo­sa. Aliás, nes­te “Suvenir”, o autor se uti­li­za de pro­ce­di­men­to for­mi­dá­vel, fazen­do que os itá­li­cos arti­cu­lem uma segun­da voz, que se des­co­la do poe­ma e retor­na como seu pró­prio eco ou fan­tas­ma dia­ló­gi­co.

A segun­da par­te do livro é mar­ca­da pelo trans­por­te rít­mi­co da fra­se, apro­vei­tan­do o seu impul­so pro­só­di­co – ain­da que ela, fra­se, não seja nun­ca toma­da como uni­da­de míni­ma e com­ple­ta de sen­ti­do, mas ver­so em expan­são meló­di­ca, dis­cre­ta­men­te envol­vi­do em um “halo nar­ra­ti­vo”, como tal­vez dis­ses­se o crí­ti­co João Barrento. Em uma nota à edi­ção de Flores do Mal, Baudelaire res­sal­ta­va a afi­ni­da­de entre a fra­se poé­ti­ca, a músi­ca e a mate­má­ti­ca, sus­ten­tan­do que os esfor­ços no cam­po da pro­só­dia eram cru­ci­ais para o poe­ta moder­no. Para ele a fra­se poé­ti­ca pode seguir uma hori­zon­tal, ou subir, depois des­cer, imi­tar uma espi­ral, cons­truir pará­bo­las e se par­tir em peda­ci­nhos. Além do élan musi­cal, os poe­mas des­se segun­do con­jun­to são mar­ca­da­men­te cine­ma­to­grá­fi­cos, cri­am sen­sa­ções de tra­vel­ling (anto­ni­o­nes­co?) e explo­ram o rit­mo inter­no das cenas. As apro­xi­ma­ções entre cine­ma e poe­sia cos­tu­mam res­sal­tar a influên­cia do cor­te cine­ma­to­grá­fi­co na escri­ta do poe­ma. Sempre que me depa­ro com afir­ma­ções des­se tipo me lem­bro de uma pales­tra sobre mon­ta­gem rea­li­za­da por Jean-Luc Godard, na qual ele dizia que a ideia e o pro­ce­di­men­to de mon­ta­gem no seu cine­ma vêm total­men­te do uso do ver­so na poe­sia moder­na. Desde quan­do pen­sar o con­ví­vio entre as artes tor­nou-se cru­ci­al para enten­der de que modo cada uma enca­ra a sua soli­dão e o seu des­gas­te, ou lida­mos mais cui­da­do­sa­men­te com o assun­to jogos de influên­cia, ou cor­re­re­mos bem de per­to o ris­co de apro­xi­ma­ções que cum­prem ape­nas papel deco­ra­ti­vo.

Mesmo uma lei­tu­ra rápi­da do livro já mos­tra que se tra­ta de fazer poe­sia expe­ri­men­tan­do diver­sas pos­si­bi­li­da­des for­mais, sem pro­se­li­tis­mo nem entro­ni­zan­do a angús­tia da influên­cia: há poe­mas em pro­sa, poe­mas em fili­gra­nas sec­ci­o­na­dos (cum­min­gui­a­nos), poe­mas-lis­tas, poe­mas-cola­gem, poe­mas-home­na­gem, poe­mas visu­ais, alfa­be­tos com coi­sas e poe­mas fei­tos com pala­vras acha­das no des­gas­te de out­do­ors. Em rela­ção ao livro ante­ri­or, nota-se o aban­do­no dos hai­cais (à exce­ção do poe­ma de aber­tu­ra e de “Desire”: “Like a missile/ I miss you”) e tam­bém de pro­ce­di­men­tos grá­fi­cos que depen­di­am dire­ta­men­te da tri­di­men­si­o­na­li­da­de do livro.

Apresentação do Poemix no SESC Pompeia, em São Paulo (2005)

Para quem se inte­res­sa pelas dis­cus­sões no cam­po da poe­sia con­tem­po­râ­nea, Quem quan­do quei­ra mos­tra que a anti­no­mia entre uma poe­sia visu­al de matriz concretista/construtivista e uma poe­sia “de ver­sos” dei­xou de ser um dile­ma lite­rá­rio. Se a pro­ble­ma­ti­za­ção e a recu­sa des­se bina­ris­mo podem ser obser­va­das na pró­pria tra­je­tó­ria dos poe­tas con­cre­tos, tal recor­te con­ti­nu­ou a estru­tu­rar o deba­te crí­ti­co bra­si­lei­ro tal­vez por mais tem­po que o neces­sá­rio. Esse mes­mo tipo de liber­da­de dian­te de tra­di­ções em geral enten­di­das como con­tra­di­tó­ri­as per­mi­ti­rá tam­bém que o poe­ta exer­ci­te a ver­sa­ti­li­da­de do ver­so em dire­ção à fra­se, e a musi­ca­li­da­de do fra­se­a­do em dire­ção ao ver­so.

Dizer que o autor “tran­si­ta entre vári­as lin­gua­gens” seria de cer­to modo sucum­bir ao cli­chê crí­ti­co. Como se a poe­sia e as outras artes tives­sem con­su­ma­do seu divór­cio liti­gi­o­so de manei­ra que seu con­ta­to só pudes­se se dar a par­tir de então como uma espé­cie de inces­to e/ou por meio de ter­mos não menos sus­pei­tos e vagos que a pró­pria pala­vra “poe­sia”: hibri­dis­mo, mul­ti­mí­dia, ines­pe­ci­fi­ci­da­de, atra­ves­sa­men­to, poro­si­da­de. O diver­ti­do aqui é que essas “ultra­pas­sa­gens de fron­tei­ras” são fei­tas de modo mui­to menos pro­se­li­tis­ta do que o que às vezes se vê. Essa insis­tên­cia no valor do trân­si­to pres­su­põe que a nor­ma­li­da­de do poe­ma enquan­to fenô­me­no seria des­de sem­pre a de cer­ta imper­me­a­bi­li­da­de em rela­ção às demais lin­gua­gens artís­ti­cas (e filo­só­fi­cas, crí­ti­cas, teó­ri­cas) que o rodei­am. Enquanto isso, a cul­tu­ra da poli­ga­mia artís­ti­ca cons­ti­tui­ria exce­ção – o atre­vi­men­to em um mun­do onde o atre­vi­men­to sem­pre peri­ga con­ver­ter-se em estra­té­gia e cál­cu­lo de suces­so.

Aqui vale mais res­sal­tar a atra­ção que as lin­gua­gens exer­cem e sem­pre exer­ce­ram umas sobre as outras do que uma supos­ta “ati­tu­de” cal­cu­la­da do poe­ta, que, aliás, pare­ce sim­ples­men­te estar dei­xan­do que o poe­ma se guie pela for­ça de “tudo o que vai indo por aí”, para usar um ver­so impor­tan­te na eco­no­mia do livro. Quem quan­do quei­ra não dei­xa de ser tam­bém um retor­no do autor ao livro pro­pri­a­men­te dito após qua­se 20 anos de tra­ba­lho mais vol­ta­do para as dimen­sões sono­ra, vocal e visu­al da lin­gua­gem poé­ti­ca.

A poe­sia assim como a pro­sa

Um dos inte­res­ses de Quem quan­do quei­ra resi­de no modo como res­pon­de a uma das ques­tões mais caras ao deba­te sobre poe­sia hoje: a rela­ção do poe­ma com a pro­sa, ou seja, do ver­so com a fra­se. O poe­ta fran­cês Batteux sus­ten­ta­va, ain­da no sécu­lo XVIII, que “tou­te pro­se bien fai­te est vers” (“toda pro­sa bem-fei­ta é ver­so”), cren­ça que res­soa ain­da hoje quan­do se pre­ten­de legi­ti­mar a for­ça da pro­sa poé­ti­ca em rela­ção à supos­ta frou­xi­dão da pro­sa em pro­sa. Mas não era bem isso que faz um escri­tor, como Mallarmé defen­dia quan­do afir­ma­va a sobe­ra­nia da fra­se como for­ma supre­ma. Há por outro lado gran­de difi­cul­da­de em nome­ar as expe­ri­ên­ci­as de con­ta­to entre poe­ma e pro­sa evi­tan­do a ide­o­lo­gia esté­ti­ca embu­ti­da na expres­são “pro­sa poé­ti­ca”. Narrativas escri­tas em ver­sos rima­dos já foram cha­ma­das em outros tem­pos de pro­sa escan­di­da, pro­sa ver­si­fi­ca­da, ver­so pro­sai­co e ver­so téc­ni­co. A com­pe­ti­ti­vi­da­de entre ver­so e pro­sa é um fenô­me­no bas­tan­te moder­no, mas que já tem tam­bém a sua his­tó­ria. Atualmente já não cabe sim­ples­men­te opor o pro­sai­co ao poé­ti­co para tra­çar uma linha de vul­ga­ri­da­de – poe­sia subli­me, pro­sa ordi­ná­ria. O deba­te será mais pro­du­ti­vo na medi­da em que per­mi­tir ree­la­bo­rar a dife­ren­ça entre o ver­so e a fra­se para além das dico­to­mi­as for­mais e gené­ri­cas tra­di­ci­o­nais.

Neste sen­ti­do é que tal­vez seja inte­res­san­te, ain­da que sob o ris­co de soar pre­sun­ço­so, ten­tar dis­tin­guir entre pro­saís­mo e pro­si­fi­ca­ção (ou proi­ci­za­ção, ao gos­to do fre­guês) do ver­so. No segun­do caso, inte­res­sa­ria mais o des­li­zar do ver­so em dire­ção à fra­se, um movi­men­to com poder pró­prio de mobi­li­za­ção da músi­ca do sen­ti­do, e que se des­via do lugar-comum de um ver­so em que­da ou em per­da do subli­me. Quando o ver­so já não se defi­ne pelo rigor métri­co em con­tras­te com o rit­mo vari­a­do da fra­se, a man­cha grá­fi­ca pode­rá aju­dar a mar­car essa dife­ren­ça, mas não resol­ve o pro­ble­ma. Há diver­sos poe­tas hoje jus­ta­men­te em uma situ­a­ção pro­du­ti­va de “poe­sia-rumo-à-pro­sa” – o ter­mo foi cunha­do por Pierre Alferi (refi­ro-me ao ensaio “Rumo à pro­sa”, tra­du­zi­do por Masé Lemos e Paula Glenadel e aces­sí­vel na revis­ta ALEA, vol. 15), que vem se dedi­can­do a des­fa­zer as anti­gas opo­si­ções e ten­ta enten­der as deman­das do poe­ma assom­bra­do pela pro­sa. No con­tex­to fran­cês, há tam­bém poe­tas que defi­nem seu tra­ba­lho nos ter­mos de uma pós-poe­sia – é o caso de Jean-Marie Gleize, por exem­plo –, opon­do-se à poe­sia pro­pri­a­men­te dita, para a qual o con­cei­to de ver­so seria ain­da sobe­ra­no. Além de um cam­po de ques­tões em aber­to, esses exem­plos podem ser lidos como sin­to­mas de um esgo­ta­men­to da opo­si­ção moder­na entre poe­sia e pro­sa, em que a poe­sia era enca­ra­da como uma “Natureza fecha­da” (Barthes), base­a­da na auto­no­mia do Nome, e para a qual a pala­vra era o cen­tro de irra­di­a­ção das mais impor­tan­tes inqui­e­ta­ções. Nas últi­mas déca­das pare­ce haver uma ênfa­se na situ­a­ção rela­ci­o­nal da lin­gua­gem poé­ti­ca, em que a poe­sia já não se vê como uma lin­gua­gem total­men­te autô­no­ma e em opo­si­ção ao supos­to fun­ci­o­na­lis­mo da pro­sa.

De que manei­ra os poe­mas de João Bandeira entram em esta­do de pro­sa? Antes de res­pon­der, é pre­ci­so men­ci­o­nar o que para mui­tos é um dado bas­tan­te conhe­ci­do: o poe­ta é tam­bém músi­co. E foi um dos fun­da­do­res do gru­po Poemix, inte­gra­do por Lenora de Barros, Cid Campos, Arnaldo Antunes e depois Walter Silveira, com cola­bo­ra­ção de Grima Grimaldi. O Poemix rea­li­za­va per­for­man­ces vocais com ambi­en­ta­ção sono­ra, pro­je­ção de vídeo e uma pos­tu­ra de pal­co per­for­má­ti­ca, fazen­do uso de obje­tos, alter­nân­cia de momen­tos em duplas, tri­os ou todos ao mes­mo tem­po, além de uns pou­cos momen­tos solo, sem­pre com base na lei­tu­ra de poe­mas de auto­ria dos pró­pri­os inte­gran­tes.

A pro­sa a que o poe­ma de João Bandeira se diri­ge é caden­ci­a­da e depen­de for­te­men­te de uma res­pi­ra­ção musi­cal. Talvez se tra­te menos de uma con­ver­são súbi­ta à for­ma (e à ide­o­lo­gia) da pro­sa do que um tra­ba­lho sobre a dura­ção do ver­so, explo­ran­do a capacidade/lucidez for­ma­do­ra do ver­so. São poe­mas que cami­nham em pro­sa. E nes­se cami­nho absor­vem o visí­vel, onde há sem­pre uma fra­se sol­ta no ar ou um res­to de pala­vra per­di­do. Assim o autor incor­po­ra ao livro ima­gens do des­gas­te das pala­vras nos out­do­ors de bei­ra de estra­da. Trabalho que é mais resul­ta­do de um aca­so que de uma bus­ca. Embora cons­ti­tu­am uma série, essas fotos são avul­sas, e Bandeira diz gos­tar que sejam assim: “Vou encon­tran­do pelas cida­des os mem­bros de uma série (mui­to rara­men­te saio à caça deles). O que pro­cu­ro mes­mo é a sur­pre­sa dos ‘avul­sos’ que encar­nam algu­ma sin­gu­la­ri­da­de”. Quase simul­ta­ne­a­men­te ao lan­ça­men­to de Quem quan­do quei­ra, Bandeira inau­gu­rou a expo­si­ção O prin­cí­pio é o meio. O ver­so pode rece­ber mui­tas inter­pre­ta­ções, dei­xan­do um pou­co de lado a decla­ra­ção de prin­cí­pi­os e a dis­cus­são sobre os media (uma vez que a afir­ma­ção pro­põe uma vari­a­ção sobre a famo­sa fra­se de McLuhan, “a men­sa­gem é o meio”). A mim agra­da pen­sar que quan­do algo é brus­ca­men­te inter­rom­pi­do, o que suce­de ao cor­te é um come­ço de outra espé­cie, não o iní­cio, mas um prin­cí­pio aci­den­ta­do, cuja cica­triz não escon­de o lugar de uma feri­da. A poe­sia seria tal­vez hoje a pos­si­bi­li­da­de de uma lin­gua­gem aci­den­ta­da, ame­a­ça­da pela ins­ti­tui­ção Poesia, tan­to quan­to fas­ci­na­da pela pro­mes­sa de uma fra­se que can­te.

O livro traz ain­da home­na­gens a pes­so­as liga­das ao cam­po das artes visu­ais, cam­po em que o autor atua há vári­os anos como cura­dor de impor­tan­tes expo­si­ções, sen­do o res­pon­sá­vel pela pro­gra­ma­ção de expo­si­ções do Centro de Arte Maria Antonia, em São Paulo, que abri­ga tan­to a pro­du­ção de artis­tas con­sa­gra­dos como a de jovens artis­tas ain­da pou­co conhe­ci­dos. São poe­mas que alter­nam entre o per­fil afe­tu­o­so e o ges­to ensaís­ti­co, por meio de cin­ti­la­ções com­pac­tas em lugar de refle­xões expan­si­vas.

Quem quan­do quei­ra pode tra­zer um pou­co de leve­za e a impres­são de que a heran­ça moder­na não pre­ci­sa ser um far­do ou um mau agou­ro, mas um labo­ra­tó­rio a ser rein­ves­ti­do e repen­sa­do em fun­ção da dis­so­lu­ção ou afrou­xa­men­to de cer­tas dis­pu­tas. Longe de fazer da con­vi­vên­cia entre dife­ren­tes ver­ten­tes poé­ti­cas um sin­to­ma pseu­do­de­mo­crá­ti­co da bio­di­ver­si­da­de poé­ti­ca con­tem­po­râ­nea, ele libe­ra a poe­sia de supe­re­gos já cadu­cos, sem se pri­var do tom líri­co ou per­der o hori­zon­te de auto­crí­ti­ca. Abre peque­nas bre­chas de con­ta­to, ali onde se tor­nou pos­sí­vel colo­car em diá­lo­go o rigor lúdi­co do con­cre­tis­mo, um ouvi­do musi­cal e a uto­pia do ver­so livre. Como em cer­tos fil­mes em que as cenas de amor são fil­ma­das como cenas de mor­te (e vice-ver­sa), o livro de João Bandeira con­se­gue livrar a poe­sia bra­si­lei­ra de alguns anta­go­nis­mos por fazê-lo da for­ma mais tran­qui­la pos­sí­vel, como se não fos­se nada, ou fos­se ape­nas ques­tão de quem quei­ra.

 

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