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Primeira edição de Poesias

Primeira edição de Poesias

O poeta–gentleman e os galhofeiros

Literatura

21.11.16

No dia 7 de dezem­bro de 1919, o Assyrio, ele­gan­te res­tau­ran­te do Theatro Municipal, foi pal­co de um dos mais bizar­ros even­tos lite­rá­ri­os da his­tó­ria do Rio de Janeiro.  Deslumbrado com os cum­pri­men­tos ao seu mais novo livro, Poesias, Carlos Alberto de Sá Magalhães, ou sim­ples­men­te Carlos Magalhães, ofe­re­ceu um ban­que­te em sinal de reco­nhe­ci­men­to aos homens de letras que havi­am con­sa­gra­do sua obra. Até então obs­cu­ro no meio inte­lec­tu­al, conhe­ci­do somen­te nos salões aris­to­crá­ti­cos da cida­de, seu nome ganha­ra, nas sema­nas ante­ri­o­res, um súbi­to des­ta­que da crí­ti­ca lite­rá­ria local, sem­pre acom­pa­nha­do de super­la­ti­vos e expres­sões mira­bo­lan­tes. Até mes­mo figu­ras repu­ta­das por sua fero­ci­da­de, como Antonio Torres, Gilberto Amado e Adoasto de Godoy, dedi­ca­ram-lhe, em coro, gaba­ções extra­va­gan­tes. Definindo-o em seus arti­gos na impren­sa como “Saneador de emo­ções”, “Grande líri­co naci­o­nal” ou “Campoamor bra­si­lei­ro”, a tría­de apon­tou o seu  Poesias como o mais impor­tan­te lan­ça­men­to dos últi­mos anos e, o autor, como o mai­or vate do Brasil — “qui­çá das amé­ri­cas”.

Cerca de qua­ren­ta ami­gos, jor­na­lis­tas e escri­to­res tes­te­mu­nha­vam a con­sa­gra­ção. Sentindo-se o homem do momen­to, o poe­ta que­ria a qual­quer cus­to exi­bir seu triun­fo à soci­e­da­de. No dia seguin­te, os jor­nais só davam con­ta do pane­gí­ri­co: brin­des, dis­cur­sos, orques­tra e um menu lus­tro­so, intei­ra­men­te em fran­cês. Elegias de todos os tipos se acu­mu­la­vam, enquan­to a fina flor da inte­lec­tu­a­li­da­de cari­o­ca se empan­tur­ra­va de coeur de lai­tue, agne­au à la bro­che e medail­lon Durhan aux poin­tes d’ apes­per­ges. Erguendo o copo, o poe­ta apon­tou Antonio Torres, ali pre­sen­te, como seu para­nin­fo lite­rá­rio. E sau­dou a eli­te cul­tu­ral cari­o­ca com um brin­de de gra­ti­dão.

- Não me jul­gueis, con­tu­do, capaz de esque­cer-vos, ou de não vos reco­nhe­cer e pro­cla­mar tam­bém meus gran­de padri­nhos lite­rá­ri­os, dan­do igual­men­te a qual­quer um de vós o lugar de hon­ra que, no meu cora­ção reco­nhe­ci­dís­si­mo, ocu­pa esse nos­so emi­nen­te patrí­cio!  — dis­se Magalhães, erguen­do o copo. — Não! Nele, per­pe­tu­a­men­te, esta­rão lem­bra­das e res­guar­da­das, num cul­to de admi­ra­ção e de cari­nho, as per­so­na­li­da­des vito­ri­o­sas e con­sa­gra­das de todos vós, meus carís­si­mos cul­tos e talen­to­sos con­fra­des.

O home­na­ge­a­do sequer des­con­fi­a­va, mas esta­va sen­do víti­ma de uma das mais cru­eis e bem arqui­te­ta­das bla­gues de que se teve notí­cia no sécu­lo pas­sa­do. Inebriado pela vai­da­de, ou ape­nas traí­do pela boa fé, Magalhães não con­se­gui­ra detec­tar a iro­nia fina escon­di­da nas pala­vras dos crí­ti­cos, que havi­am fala­do bem de seu livro que­ren­do falar mal. O poe­ta não ape­nas acei­ta­ra can­di­da­men­te os cum­pri­men­tos extra­va­gan­tes ao seu livro e à sua pes­soa, como ain­da os cele­bra­ra com uma refei­ção naba­bes­ca.

Embora com­ple­ta­men­te esque­ci­do nos dias de hoje, o caso está liga­do à his­tó­ria da crí­ti­ca do país, mar­can­do para sem­pre a tra­je­tó­ria de seu pro­ta­go­nis­ta.

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Revista Careta 599 (13/12/1919), pági­na 13

Durante toda sua vida, Carlos Magalhães cul­ti­vou a ima­gem de homem galan­te e cor­di­al.  Poeta–gen­tle­man, nota­bi­li­za­va-se por sua rique­za, adqui­ri­da gra­ças à heran­ça do pai, o comer­ci­an­te Alberto Fernandes de  Magalhães. Empreendedor de suces­so, res­pon­sá­vel por tran­sa­ções comer­ci­ais que osci­la­vam anu­al­men­te entre seis­cen­tos e oito­cen­tos reis, o filho aumen­tou ain­da mais a for­tu­na fami­li­ar. Com seu tino comer­ci­al, com­prou pré­di­os no Centro e em Copacabana, onde mora­va. Verdadeiro orna­men­to das reu­niões fes­ti­vas, exi­bia seu “físi­co de Antínoo” (segun­do os padrões esté­ti­cos da revis­ta Fon Fon) na Confeitaria Alvear, pon­to de encon­tro da eli­te da cida­de.

Magalhães tinha tudo que um homem de sua épo­ca pode­ria que­rer, exce­to o talen­to. Desde cedo aten­de­ra ao cha­ma­do do Parnaso, mas escre­ven­do em um ver­ná­cu­lo anti­qua­do e fora de moda, até para os padrões da épo­ca. “É deplo­rá­vel coi­sa a velhi­ce sem anti­gui­da­de”, dis­se sobre seus poe­mas João Ribeiro, o papa da crí­ti­ca naque­le perío­do, e um dos pou­cos a não ade­rir à bla­gue. Com efei­to, o vate tinha um pen­dor todo espe­ci­al para melin­dro­sas, namo­ri­cos de salão e outros assun­tos bati­dos. Sempre de for­ma res­pei­to­sa, pas­san­do lon­ge de sen­ti­men­tos impu­di­cos, a bele­za femi­ni­na era exal­ta­da em ver­sos como “Braços — assim como os teus -/ tão lin­dos e tão perfeitos,/ enle­vam os olhos meus!” .

A fal­ta de ins­pi­ra­ção, no entan­to, ia mui­to além dos temas. Abordando ques­tões gra­ves ou mun­da­nas, Magalhães impri­mia um enle­vo dig­no de alu­no de giná­sio:  “Prossegue essa heca­tom­be e os povos de outros lados/ Não o fazem ces­sar — de um modo decisivo/ Em vir­tu­de das leis… e dos pac­tos fir­ma­dos”, escre­veu ele em “Não mata­rás”, poe­ma edi­fi­can­te sobre os hor­ro­res da Primeira Guerra.

Desde cedo, Magalhães se acos­tu­ma­ra aos elo­gi­os fáceis da alta soci­e­da­de e dos baju­la­do­res de plan­tão. Com um lon­go per­fil de duas pági­nas e um gran­de retra­to, onde se dis­tin­guia a sua bela estam­pa e o seu bigo­de asse­a­do, a revis­ta Rua do Ouvidor já o apre­sen­ta­va, no ano de 1900, como uma pro­mes­sa  das letras: “Basta olhar rapi­da­men­te para o seu retra­to, que ago­ra estam­pa­mos nes­ta pági­na, afim de que se adqui­ra a con­vi­ção de que Carlos Magalhães é um espí­ri­to mui­to aci­ma da vul­ga­ri­da­de, cul­ti­va­do por assun­tos séri­os que, se como mui­tos outros, não tem alça­do o seu voo pelo mun­do em que bri­lham as estre­las ful­gu­ran­tes das inte­li­gên­ci­as vivas dos nos­sos pri­mei­ros lite­ra­tos, é por­que sua exces­si­va modes­tia obri­ga-o ao retrai­men­to, que não pode ser jus­ti­fi­ca­do”.

Então com 23 anos, o jovem dublê de escri­tor e capi­ta­lis­ta exi­bia um per­cur­so dig­no de nota: pre­si­den­te de grê­mio estu­dan­til, cola­bo­ra­dor assí­duo de jor­nais naci­o­nais e inter­na­ci­o­nais e defen­sor do “nos­so que­ri­do Brasil das ter­rí­veis calú­ni­as que lhe ati­ram estran­gei­ros des­pei­ta­dos”. Católico fer­vo­ro­so e detra­tor do posi­ti­vis­mo, fora diver­sas vezes con­vi­da­do por jor­nais euro­peus para ser seu cor­res­pon­den­te no país, mas recu­sa­ra por  fal­ta de tem­po. Ao lon­go de seis anos,  acu­mu­la­ra no fun­do de um baú uma vas­ta pro­du­ção lite­rá­ria, que não demo­ra­ria a ganhar as livra­ri­as. Com seus “raros pre­di­ca­dos inte­lec­tu­ais”, pre­via a revis­ta, esta­va fada­do a pro­du­zir “pági­nas tão belas como as que escre­veu em outras épo­cas”.

Quase duas déca­das depois do arti­go, Magalhães já publi­ca­ra qua­tro livros de poe­si­as — Enlevo e emo­ções, Dispersos, Cantares e Livro do pas­sa­do - sem nun­ca alcan­çar a gló­ria pla­ne­ja­da. Embora sua ele­gân­cia lhe garan­tis­se um lugar cati­vo no pan­teão da aris­to­cra­cia, fal­ta­va-lhe, ain­da, o aval dos gran­des crí­ti­cos. Poemas como Copacabana (“À tar­de, ao por do sol, Copacabana é lin­da!”) havi­am se tor­na­do uma espé­cie de hino dos coque­téis, mas qua­se ine­xis­ti­am fora dos cír­cu­los refi­na­dos.  Com Poesias, Magalhães deci­diu mon­tar um best of de sua obra poé­ti­ca, apos­tan­do alto na divul­ga­ção. Anunciou sua cole­tâ­nea nas pági­nas da Fon Fon, no bou­doir da con­fei­ta­ria Alvear e, em dezem­bro de 1919, foi até o Palácio do Catete ofe­re­cer um exem­plar ao Presidente da República.

Por um aca­so infe­liz, o livro aca­bou cain­do nas mãos de Adoasto de Godoy. Segundo o aca­dê­mio Raimundo Magalhães Júnior, que rela­tou o caso em sua bio­gra­fia de José do Patrocínio Filho, O fabu­lo­so Patrocínio Filho, Godoy reu­niu alguns de seus cole­gas de impren­sa e con­ven­ceu-os, não sem difi­cul­da­de, a entrar na maqui­na­ção. Além de Torres, Godoy e Amado, tive­ram papel impor­tan­te os jor­na­lis­tas Pedro da Costa Rego, Benjamin Costallat e o pró­prio Patrocínio Filho, que se aven­tu­ra­va como crí­ti­co lite­rá­rio sob o pseudô­ni­mo de João das Regras.

Aos pou­cos, mais nomes foram se jun­tan­do ao gru­po de cons­pi­ra­do­res. No espa­ço de um mês, entre mea­dos de novem­bro e dezem­bro de 1919,  alguns dos mais reno­ma­dos inte­lec­tu­ais e jor­na­lis­tas da cida­de pas­sa­ram a tecer loas a um livro que eles mes­mos con­si­de­ra­vam risí­vel. Os elo­gi­os se mul­ti­pli­ca­vam como pão nas pági­nas dos prin­ci­pais jor­nais do Rio —  Gazeta de Notícias, A épo­ca, O impar­ci­al e Correio da Manhã, entre outros. Em novem­bro, uma nota anô­ni­ma che­gou a con­ta­bi­li­zar o núme­ro de for­ma­do­res de opi­nião que, até então, havi­am se pro­nun­ci­a­do em favor do novo poe­ta: vin­te e cin­co.

Entre o sex­te­to do ter­ror, o mais res­pei­ta­do era Torres [1] , um ex-padre mula­to sem voca­ção e em cons­tan­te desen­ti­men­to com os mem­bros do semi­ná­rio (sobre o Cardeal Arcoverde, com quem teve uma dis­pu­ta, escre­veu cer­ta fei­ta que ele pare­cia ” ter nas­ci­do já empa­lha­do para figu­rar em museus como o de Madame Tussaud”). Ressentido por per­der a vida na atmos­fe­ra empes­te­a­da das sacris­ti­as (“Enquanto os outros da minha ida­de res­pi­ra­vam o per­fu­me da vida, eu res­pi­ra­va incen­so!”), lar­gou o sacer­dó­cio e, em 1912, mudou-se para o Rio.

O ex-padre for­mou uma impor­tan­te par­ce­ria inte­lec­tu­al com o pau­lis­ta Adoasto de Godoy, que dura­ria mui­tos anos. Em 1916, os dois ini­ci­a­ram na Gazeta de Notícias, uti­li­zan­do o pseudô­ni­mo de João Epíscopo, uma série de crô­ni­cas com as mais desa­bu­sa­das crí­ti­cas a figu­ras do meio polí­ti­co e inte­lec­tu­al de então. Godoy já havia dado amos­tras de seu gos­to pela polê­mi­ca anos antes, na A Imprensa de Alcindo Guanabara, com a seção “Ao deus-dará”. Mas nada que se com­pa­ras­se à viru­lên­cia de João Epíscopo, “a mais vipe­ri­na das lín­guas vipe­ri­nas da cida­de” – como o pró­prio per­so­na­gem se defi­nia.

Com sar­cas­mo, humor e algu­ma tru­cu­lên­cia ver­bal, Torres foi ganhan­do cada vez mais des­ta­que na impren­sa cari­o­ca. Até que em 1918, após pas­sa­gem pelo Correio da Manhã, ganhou uma colu­na sema­nal na Gazeta de Notícias que o trans­for­mou num dos cro­nis­tas mais lidos do Rio de Janeiro.

O ser­gi­pa­no Gilberto Amado desem­bar­cou no Rio em 1910. Sua ascen­são na impren­sa cari­o­ca foi meteó­ri­ca, mui­to devi­do ao seu ine­gá­vel talen­to – outro tan­to gra­ças à habi­li­da­de de se apro­xi­mar das pes­so­as cer­tas. Cinco anos depois, pro­ta­go­ni­zou um epi­só­dio que aba­lou pro­fun­da­men­te o meio inte­lec­tu­al da épo­ca: após uma reu­nião da Sociedade Brasileira dos Homens de Letras (umas das ten­ta­ti­vas dos escri­to­res se orga­ni­za­rem fora da Academia) na sede do Jornal do Comércio, Gilberto Amado se desen­ten­deu com o poe­ta Aníbal Teófilo, matan­do-o a tiros no saguão do jor­nal. Em 1919, já absol­vi­do pelo cri­me, era reda­tor-che­fe do jor­nal Época, mas con­ti­nu­a­va mal vis­to por boa par­te do meio inte­lec­tu­al.

José do Patrocínio Filho é tal­vez uma das figu­ras mais curi­o­sas do perío­do. Há um vas­to ane­do­tá­rio em tor­no do filho do “Tigre da Abolição”, ain­da que mui­tas de suas faça­nhas fos­sem reto­ca­das por sua ima­gi­na­ção deli­ran­te. Mulato play­boy, leve­men­te mitô­ma­no, fazia de tudo para ser acei­to pela eli­te cari­o­ca. Em 1917, Patrocínio Filho era fun­ci­o­ná­rio do Ministério das Relações Exteriores na Europa; na via­gem de vol­ta ao Brasil, inven­tou algu­mas his­tó­ri­as para um pas­sa­gei­ro, incluin­do um caso arden­te com a espiã ale­mã Mata Hari. Ao desem­bar­car em Londres, foi pre­so acu­sa­do de espi­o­na­gem. No livro A Sinistra Aventura, ele roman­ceia, sem nenhum cons­tran­gi­men­to, não ape­nas seus dias no cár­ce­re como seu  supos­to affair com a espiã fatal.

 

Mas o que levou esses res­pei­ta­dos inte­lec­tu­ais a ridi­cu­la­ri­zar um conhe­ci­do homem de soci­e­da­de? Por que arrui­nar repu­ta­ções com fal­sos elo­gi­os? Embora não haja mui­tas refe­rên­ci­as sobre a moti­va­ção da brin­ca­dei­ra, Magalhães Júnior arris­ca um pal­pi­te em seu livro. Nascido em em 1909 e mor­to 1981, mem­bro da Academia de Letras a par­tir de 1956, pes­qui­sa­dor de even­tos da his­tó­ria lite­rá­ria, o escri­tor conhe­ceu bem o perío­do e seus per­so­na­gens. Usando pro­va­vel­men­te infor­ma­ções de bas­ti­do­res, ele con­ta que os crí­ti­cos ten­ta­vam vin­gar a Academia, esse sele­to clu­be que os havia rene­ga­do.  “Em repre­sá­lia aos fal­sos valo­res”, o gru­po cri­a­ria “um fal­so valor não aca­dê­mi­co, com tal for­ça que, sob uma ava­lan­che de publi­ci­da­de, levá-lo-iam às por­tas da pró­pria Academia Brasileira de Letras, que teria que admi­ti-lo como can­di­da­to e tal­vez até o ele­ges­se! Seria, então, um gozo geral…”

De arti­go em arti­go, os cons­pi­ra­do­res fabri­ca­ram uma dupla repu­ta­ção, que fun­dia a figu­ra do gênio lite­rá­rio com a do herói mun­da­no — uma espé­cie de can­di­da­to ide­al da Academia. Nunca dei­xa­vam de exal­tar, simul­ta­ne­a­men­te, as qua­li­da­des soci­ais e finan­cei­ras de sua víti­ma. “Dir-se ia que a pro­vi­dên­cia, pró­di­ga para com ele, o quis dotar de um físi­co que cor­res­pon­des­se em sedu­ção e ama­bi­li­da­de à estru­tu­ra sedu­to­ra de seu poder men­tal”, escre­veu José do Patrocínio Filho sobre o poe­ta, em um arti­go em  A Notícia. Era como se, na figu­ra de Carlos Magalhães, os crí­ti­cos galho­fei­ros tives­sem sin­te­ti­za­do o arri­vis­mo lite­rá­rio de uma cer­ta eli­te, vici­a­da em medir talen­to pelo pis­to­lão.

Não bas­tou uma sema­na para Carlos Magalhães se tor­nar um fenô­me­no. Sua ven­tu­ra pas­sou a irra­di­ar por toda urbe cari­o­ca. Em um arti­go para a Gazeta de Notícias, em 22 de novem­bro de 1919, Antonio Torres tra­tou de expli­car aque­la meteó­ri­ca ascen­são.

O triun­fa­dor lite­rá­rio des­ses últi­mos dias é, ine­ga­vel­men­te, o poe­ta Carlos Magalhães. Há mui­tos anos não assis­tía­mos uma vitó­ria igual e tão mere­ci­da. Não se fala em outra coi­sa senão nas Poesias de Carlos Magalhães. Desde a Academia de Letras à Faculdade de Medicina, Carlos é cita­do e reci­ta­do, decla­ma­do e pro­cla­ma­do o pri­mei­ro poe­ta con­tem­po­râ­neo do seu país e um dos mai­o­res do mun­do moder­no. E isto não se pas­sa ape­nas entre a gen­te da alta roda. Eu, que pri­vo entre a gen­te humil­de, que gos­to de fazer meus estu­dos de obser­va­ção entre as cama­das menos feli­zes da soci­e­da­de, tenho nota­do que os ver­sos de Magalhães vão supri­mir, no nos­so meio, os de Casemiro de Abreu, e com uma dife­ren­ça: Casemiro era ape­nas um cai­xei­ra imbe­cil e anal­fa­be­to, ao pas­so que Carlos é um gen­tle­man finís­si­mo, cul­to, ten­do lido mui­to e sen­do, por­tan­to, um spé­ci­men, o mais alto spé­ci­men da alta civi­li­za­ção sur­gi­da na República”.

A estrei­ta rela­ção entre fidal­guia e talen­to fica ain­da mais explí­ci­ta em um arti­go não assi­na­do na revis­ta sema­nal Nossa Terra, que apre­sen­ta Magalhães como “o mai­or poe­ta do Brasil”:

Carlos Magalhães é o genuí­no repre­sen­tan­te do seu meio. Nele se reu­ni­ram todas as pos­si­bi­li­da­des de sen­ti­men­to e de espí­ri­to da alta soci­e­da­de.  (…) E por­que inter­pre­tou um momen­to soci­al, e por­que foi a boca per­fei­ta de seu meio, o poe­ta é lido e decla­ma­do em todos os salões do Rio de Janeiro. Mais do que isso: é bei­ja­do e ansi­a­do nas alco­vas silen­ci­o­sas e con­fi­den­tes, à luz do abat­jour, agar­ra­do, furi­o­sa­men­te, por mãos lin­das e cor de rosa”.

Em um arti­go publi­ca­do em A Época, no dia 24 de novem­bro, Gilberto Amado entrou na brin­ca­dei­ra refor­çan­do os tra­ços finos do poe­ta.

Carlos Magalhães, cujo livro aca­bo de ler, é des­ses poe­tas nup­ci­ais, que vivem em namo­ro per­ma­nen­te com a soci­e­da­de bra­si­lei­ra, cuja cul­tu­ra, sen­si­bi­li­da­de e gos­to artís­ti­co tão per­fei­ta­men­te sim­bo­li­zam”, escre­veu o crí­ti­co, defi­nin­do o livro de Magalhães como um “refle­xo con­ci­so e deci­si­vo da men­ta­li­da­de domi­nan­te de seu tem­po”.

Magalhães era todo um uni­ver­so, um sonho líri­co de dan­ças eter­nas, per­fu­me, fler­tes e taças de cham­pag­ne: “Elegante, cor­tês, talha­do à manei­ra dos menes­treis medi­e­vos que fazi­am sonhar a luz dos lua­res mei­gos as cas­te­lãs de outro­ra”; “fino can­tor da con­fei­ta­ria Alvear e dos chás de cari­da­de”; e ain­da: “O poe­ta da feli­ci­da­de”.

Deus o con­ser­ve sem­pre assim, com seu talen­to, a sua tin­tu­ra­ria [2], e seu bigo­de pre­to, tor­ci­di­nho nas pon­tas”, cele­brou Costa Rego. Naquele que é pro­va­vel­men­te o mais hilá­rio e bem aca­ba­do tex­to da cons­pi­ra­ção, o jor­na­lis­ta refor­ça a cam­pa­nha de Magalhães na Academia.

Carlos Magalhães é um homem rico, riquís­si­mo. Não pre­ci­sa da poe­sia para viver. Faz ver­sos por­que nas­ceu poe­ta, e poe­ta há de mor­rer. Ele já é o vate pre­fe­ri­do do mun­do ele­gan­te; pon­ti­fi­ca nos salões e entu­si­as­ma as damas mais inte­li­gen­tes da soci­e­da­de. Há de entrar na Academia pela mão da Justiça e pela da Glória”.

Os arti­gos foram fican­do mais ousa­dos, com uma iro­nia cada vez mais assu­mi­da. Benjamin Costallat des­co­briu no gen­tle­man um con­tra­pon­to aos exces­sos do típi­co artis­ta ple­beu, sem higi­e­ne e sofis­ti­ca­ção — uma pro­va viva de que se pode tomar banho todo dia e fazer bons ver­sos. “Enquanto a mai­o­ria dos poe­tas­tros que andam por aí são sujos, sem bri­lho e sem per­fu­me”, com­pa­rou o jor­na­lis­ta, “Carlitos, pelo con­trá­rio, é a lim­pe­za per­so­ni­fi­ca­da: o per­fu­me em pes­soa. Um eter­no engra­xa­do”.  No auge da cam­pa­nha , a revis­ta Nossa Terra subiu ain­da mais o tom. Chegou a pre­ver uma gló­ria eter­ni­za­da na pedra:

Sua está­tua, em már­mo­re, há de ser levan­ta­da na Praia de Botafogo onde o sol bra­si­lei­ro ilu­mi­na­rá sua cabe­ça divi­na, as suas for­mas per­fei­tas”, publi­cou a revis­ta, em 11 de dezem­bro de 1919, qua­se uma sema­na após o ban­que­te.

Para cha­mar a aten­ção da Academia Brasileira, no entan­to, era pre­ci­so mais do que dotes aris­to­crá­ti­cos — e os cons­pi­ra­do­res se empe­nha­ram em refor­çar os méri­tos esté­ti­cos dos ver­sos de Magalhães. Não fal­tam aná­li­ses sobre a tour­nu­re da sua fra­se, a hones­ti­da­de de sua poe­sia, o poder de expres­são de seus tre­chos des­cri­ti­vos…  Sem pudo­res e meia pala­vras, a poe­sia de Magalhães foi suces­si­va­men­te com­pa­ra­da a de Victor Hugo, Sainte Beuve,Olavo Bilac e até Homero. “Também é pre­ci­so sali­en­tar que ele é uma espé­cie de Musset, dota­do de arrou­bos hugo­a­nos e com lai­vos de melan­co­lia sere­na”, deli­rou Antonio Torres em seu tex­to.

Ao repro­du­zir, em seus tex­tos, alguns dos ver­sos mais medío­cres do vate, o ex-padre e seus cúm­pli­ces pare­ci­am con­tra­di­zer suas pró­pri­as obser­va­ções. De ime­di­a­to, cava­va-se o abis­mo entre a real qua­li­da­de dos poe­mas e os fal­sos elo­gi­os que eles pro­vo­ca­vam.  Um lei­tor mais lúci­do pode­ria se espan­tar com a fri­vo­li­da­de do mate­ri­al des­ta­ca­do. Só que a for­ça do poe­ta, apres­sa­vam-se em argu­men­tar os crí­ti­cos, esta­va jus­ta­men­te na sim­pli­ci­da­de com que expu­nha suas idei­as. Suas ima­gens não eram banais — eram espon­tâ­ne­as, diá­fa­nas, rea­lis­tas…

Não raro, os argu­men­tos fler­ta­vam com o non­sen­se. Depois de pin­çar um tre­cho do poe­ma Vertigens do cham­pag­ne (“Bebo a pri­mei­ra taça, e após bebo a segunda;/ Sem demo­ra, n’um sor­vo, outra mais esvazio…/À quar­ta, sin­to então ligei­ro calafrio/Seguido de tor­por e ansi­e­da­de pro­fun­da”), Costa Rego logo emen­da:

Pessoas de gran­de expe­ri­ên­cia, a quem fui con­sul­tar sobre a maté­ria, garan­tem-me a exa­ti­dão do ‘ligei­ro cala­frio’, que é, real­men­te, segui­do de tor­por e ‘ansi­e­da­de pro­fun­da’. Acrescentaram-me que, 24 horas depois, cos­tu­ma haver tam­bém dor de cabe­ça e per­da de ape­ti­te. Desço a esses deta­lhes, como crí­ti­co estre­an­te, para dei­xar bem cla­ro o cui­da­do com que Carlos Magalhães dá ao seu ver­so o cunho rea­lis­ta, que foi a gran­de gló­ria de Zola”.

Em outro exer­cí­cio de lógi­ca esta­pa­fúr­dio, o jor­na­lis­ta des­ta­cou a reti­dão e o res­pei­to com que Magalhães cele­bra­va as mulhe­res:

É mui­to comum encon­trar poe­tas que can­tam das suas ama­das os sei­os, as per­nas, etc. Carlos Magalhães só can­ta o que a mulher tem de cas­to e visí­vel, a saber: os olhos, os bra­ços, a boca, os cabe­los, os pés, a gar­gan­ta, o nariz e o ouvi­do, sen­do mes­mo espe­ci­a­lis­ta des­ses últi­mos três órgãos, em con­cor­rên­cia vito­ri­o­sa com o Dr. Otávio do Rego Lopes [3]”.

Peças humo­rís­ti­cas dis­far­ça­das de arti­gos, os tex­tos podem ser vis­tos como uma paró­dia da crí­ti­ca elo­gi­o­sa da épo­ca. Não esta­vam ape­nas ridi­cu­la­ri­zan­do um arri­vis­ta da alta roda, mas todo um sis­te­ma de rela­ções e pri­vi­lé­gi­os. E ai de quem ousas­se ques­ti­o­nar o novo gênio do Parnaso naci­o­nal. Quando João Ribeiro publi­cou sua crí­ti­ca des­fa­vo­rá­vel a Poesias em O Imparcial,  suge­rin­do que o poe­ta “untu­o­so, apai­xo­na­do e mulhe­ren­go” já nas­ce­ra anti­qua­do, os crí­ti­cos o reba­te­ram pron­ta­men­te. Ora, que pro­ble­ma have­ria em ser mulhe­ren­go e untu­o­so?, inda­ga­va Adoasto de Godoy em um arti­go para a Gazeta de Notícias, publi­ca­do em 26 de novem­bro — “esses pre­di­ca­dos, jus­ta­men­te, é o que fazem a gló­ria de Carlos Magalhães!”

O senhor João Ribeiro já não sen­ti­rá mais a natu­ra­li­da­de e a jus­ti­ça das home­na­gens que os poe­tas, todos eles, votam às mulhe­res? Mulherengo por quê? Porque todas as mais cul­tas e res­pei­tá­veis damas de espí­ri­to dos nos­sos mais aris­to­crá­ti­cos salões e da mais alta soci­e­da­de do Rio de Janeiro se enle­vam, embe­ve­ci­das, na admi­ra­ção do ine­gá­vel talen­to do nos­so gran­de líri­co?”, con­ti­nu­ou o jor­na­lis­ta, apro­vei­tan­do para dei­xar um reca­do para os mem­bros Academia.

O que há, em nos­sos crí­ti­cos, é mui­to espí­ri­to de côte­rie, é medo de fazer jus­ti­ça. Não têm cora­gem de con­fes­sar cla­ra­men­te a ver­da­de.

Sejam antes sin­ce­ros e impar­ci­ais, e cha­mem à seu grê­mio, isto é, à Academia, o gran­de poe­ta cuja vito­ria estron­do­sa já não é mais pos­sí­vel negar.”

Ribeiro não foi o úni­co estra­ga-pra­ze­res. Intelectual sério, Humberto de Campos se recu­sou a par­ti­ci­par da brin­ca­dei­ra. Em Memórias de João Paraguassu, livro de M. Paulo Filho publi­ca­do em 1964, ele con­ta a este últi­mo que, embo­ra não esti­mas­se a pro­du­ção lite­rá­ria de Magalhães, achan­do-a inclu­si­ve medío­cre, não jul­ga­ra de bom tom as soli­ci­ta­ções de Torres, Godoy e Patrocínio Filho. “Levou-se ao ridí­cu­lo um homem que mere­cia um melhor tra­ta­men­to”, lamen­tou.

Outras per­so­na­li­da­des das letras, Benjamim Lima e Xavier Pinheiro, ten­ta­ram inclu­si­ve denun­ci­ar publi­ca­men­te a far­sa. Pinheiro dis­se que os elo­gi­os ao poe­ta eram femen­ti­dos e sol­tou o ver­bo nas pági­nas do Jornal do Commercio: “Se isso não é uma tor­pe­za ino­ni­ma­vel, não sabe­mos então qual a qua­li­fi­ca­ção que se lhe deva dar”.

Uma res­pos­ta publi­ca­da em um arti­go anô­ni­mo da revis­ta Nossa Terra, no 11 de dezem­bro, mos­tra que o quão lon­ge os cons­pi­ra­do­res esta­vam dis­pos­tos a ir:

Que lhe impor­ta­rá [a Magalhães] as pedras ati­ra­das?

Quem lhas ati­rou?

Xavier Pinheiro é a revol­ta do subúr­bio, o Andaraí do cam­pe­o­na­to lite­rá­rio.

João Ribeiro… Quem é? Um ser­gi­pa­no rude, que em trin­ta anos de Rio, de Brasil, não se adap­tou ao chi­que e ao encan­to da Avenida Central, con­ser­van­do-se em Laranjeiras, no seu Estado, entre o povo sel­va­gem e bru­to.

Carlos Magalhães há de sair-se glo­ri­o­sa­men­te inco­lu­me de todas as pér­fi­das calú­ni­as”.

Apoiando-se nes­se fal­so res­pal­do, Magalhães rea­gia com arro­gân­cia aos ata­ques. Desprovido de qual­quer sen­so de auto­crí­ti­ca, tra­ta­va as vozes dis­so­nan­tes como “inve­jo­sas” e se defen­dia usan­do como pro­va os elo­gi­os exa­ge­ra­dos que aque­las gran­des cabe­ças lhe havi­am defe­ri­do. Para calar as más lín­guas, che­gou até a publi­car uma nota na impren­sa em que lis­ta­va o nome de todos os seus admi­ra­do­res — incluin­do os de Godoy, Patrocínio, Torres e Amado -, e lamen­ta­va as obser­va­ções de Ribeiro e Pinheiro.

Folha de rosto autografada da primeira edição de Poesias (1919)

Folha de ros­to auto­gra­fa­da da pri­mei­ra edi­ção de Poesias (1919)

Localizado no sub­so­lo do Theatro Municipal, com­ple­men­tan­do o salão de mes­mo nome, o Assyrio é uma joia de exo­tis­mo pro­du­zi­da pelo Rio de Francisco Pereira Passos, pre­fei­to entre 1902 e 1906. Inspirado na ges­tão de Haussman em Paris, ele havia aber­to a Avenida Rio Branco e pro­mo­vi­do refor­mas urba­nís­ti­cas radi­cais, erguen­do obras que sim­bo­li­za­ram a entra­da da cida­de no sécu­lo XX. Todo reves­ti­da de cerâ­mi­ca esmal­ta­da, a deco­ra­ção do res­tau­ran­te, que fun­ci­o­na até hoje, imi­ta a arte assí­ria e per­sa em um pout-pour­ri ori­en­tal, com  altos rele­vos repre­sen­tan­do Gilgamesh, pai­neis com leões babilô­ne­os e lus­tres ins­pi­ra­dos na arte islâ­mi­ca.

Naquele perío­do, o Assyrio abri­ga­va os even­tos mais refi­na­dos da cida­de. Para Magalhães, um ban­que­te no local deve­ria ser a con­fir­ma­ção final de seu triun­fo, uma pro­va de que tinha con­quis­ta­do seu lugar entre a inte­lec­tu­a­li­da­de do Rio de Janeiro. O anfi­trião não pou­pou dinhei­ro. Segundo infor­mou a Gazeta de Notícias, as fes­ti­vi­da­des come­ça­ram às 13h e se esten­de­ram até às 15h30. Uma orques­tra exe­cu­tou obras de Carlos Gomes e Nepomuceno, além do hino naci­o­nal.  “Foi uma fes­ta de arte e alta inte­lec­tu­a­li­da­de. Mesa cheia de talen­to. Alegria. Jovialidade. Música. Uma ver­da­dei­ra glo­ri­fi­ca­ção”, des­ta­cou o jor­nal, que tam­bém publi­cou o dis­cur­so do anfi­trião e os de alguns con­vi­da­dos. Falando em nome da crí­ti­ca e dos escri­to­res naci­o­nais, Antonio Torres lem­brou a gene­ro­si­da­de e a nobre Arte do home­na­ge­a­do.

Eu reco­nhe­ci em ti uma fidal­ga figu­ra de artis­ta e homem de soci­e­da­de. Abracei-te, admi­ran­do-te. E, como sou fran­co, bra­dei aos meus con­tem­po­râ­ne­os o teu valor, até ago­ra nega­do ape­nas por inve­jo­sos. Não fui mais do que um pre­go­ei­ro do teu talen­to. Descobri-te, des­ven­tei-te nas tra­di­ci­o­nais colu­nas de Gazeta de Notícias como Octave Mirbeau des­ven­dou Maeterlinck, em 1880, pelas colu­nas do Fígaro”, con­ti­nu­ou Torres, dan­do a enten­der que o vate entra­ra ofi­ci­al­men­te na gale­ria dos gran­des líri­cos naci­o­nais.

Eras até ago­ra o ído­lo dos nos­sos salões aris­to­crá­ti­cos e o can­tor pre­di­le­to das gran­des damas do Rio de Janeiro: de hoje em dian­te fica­rás sen­do tam­bém um para­dig­ma, um espe­lho, um mode­lo para os poe­tas con­tem­po­râ­ne­os. Imitem eles, se pude­rem, tua nobre espon­ta­nei­da­de. Trabalha, pro­duz, publi­ca, e dei­xa falar os inve­jo­sos. Quem pode dizer à inve­ja — ‘Para!’ — ” e ao Orgulho Vencido — ‘Emudece!’ — Ninguém. Fazei, pois, o que se lê em Dante: ‘Non ragi­o­ni­am di lor, ma guar­da e pas­sa’. Não te dete­nhas na sua sen­da glo­ri­o­sa para ouvir o coa­xar das rãs”.

Houve ain­da dis­cur­sos de Patrocínio Filho e Costa Rego, além de uma ora­ção de Paulo Magalhães, filho do poe­ta, que che­ga­ra mais tar­de ao ban­que­te. O rapaz atlé­ti­co e ele­gan­te, que se tor­na­ria um bem suce­di­do tea­tró­lo­go da gera­ção Trianon, tam­bém pro­du­ziu, com sua voz sono­ra, um bre­ve spe­e­ch. Empolgou a assis­tên­cia que, de acor­do com a Gazeta, “aplau­diu-o deli­ran­te­men­te” ao final:

Só me res­ta dizer-te, meu pai, que eu te saú­do e te bei­jo no cora­ção, na face e no talen­to, orgu­lho­so e feliz de ser seu filho”.

 

Entre os qua­se cin­quen­ta pre­sen­tes, é difí­cil saber quan­tos deles tinham cons­ci­ên­cia da bla­gue. Carlos Magalhães cha­ma­ra ami­gos pró­xi­mos que, pro­va­vel­men­te, assim como ele, toma­vam os elo­gi­os dos crí­ti­cos ao pé da letra. Com exce­ção de uma ou outra nota em tom ambí­guo, as maté­ri­as que nos che­gam um sécu­lo depois são pra­ti­ca­men­te rele­a­ses ofi­ci­ais do ban­que­te, exal­tan­do o suces­so mere­ci­do do poe­ta. Graças a Magalhães Júnior, porém, temos alguns deta­lhes de bas­ti­do­res que, embo­ra impos­sí­veis de con­fir­mar, dão mais deta­lhes sobre o ambi­en­te des­se his­tó­ri­co even­to no Assyrio.

Conta o bió­gra­fo que os pró­pri­os cons­pi­ra­do­res, ou pelo menos par­te deles, tinham dúvi­das sobre suas pre­sen­ças no ban­que­te. Constrangidos, acre­di­ta­vam que a brin­ca­dei­ra tinha ido lon­ge demais.  Como Magalhães rea­gi­ria se des­co­bris­se a far­sa? E se qui­ses­se vin­gar a sua hon­ra? A cer­ta altu­ra, o almo­ço teria fica­do ten­so, e mui­tos pre­sen­tes acha­ram que pode­ri­am ser des­mas­ca­ra­dos. Foi quan­do José do Patrocínio Filho, com a mes­ma natu­ra­li­da­de com que inven­ta­ra his­tó­ri­as arden­tes sobre Mata Hari, pas­sou a ler tele­gra­mas ima­gi­ná­ri­os assi­na­dos por figu­ras de reno­me mun­di­al como Anatole France e Gabriele DAnnunzio (nomes opor­tu­na­men­te omi­ti­dos na repor­ta­gem da Gazeta de Notícias). Nesse momen­to, algu­mas risa­das eco­a­ram ao fun­do do res­tau­ran­te; ain­da assim, Magalhães de nada des­con­fi­ou.

Com a legen­da “A mai­or sagra­ção lite­rá­ria dos últi­mos tem­pos”, uma foto publi­ca­da no A care­ta, perió­di­co que viria a se tor­nar um escar­ne­ce­dor assí­duo de Magalhães, é um dos docu­men­tos visu­ais do ban­que­te que che­ga­ram ao nos­so sécu­lo.  Aparecem ali, no Assyrio, posan­do sor­ri­den­tes em três filei­ras, os prin­ci­pais pro­ta­go­nis­tas do caso. Na pri­mei­ra fila, sen­ta­do, vê-se Carlos Magalhães, com seu for­mi­dá­vel bigo­de pre­to, satis­fei­to e rea­li­za­do.

É impos­sí­vel saber a data exa­ta em que Carlos Magalhães des­co­briu a far­sa. Mas pode-se ima­gi­nar o seu espan­to de mari­do traí­do. Em mar­ço de 1920, o jor­nal A Rua publi­ca­va uma nota de títu­lo suges­ti­vo: “Crítica de bar­ri­ga cheia”. O tex­to, assi­na­do por um cer­to O MISANTHROPO, ten­ta­va pro­var, em ter­mos obje­ti­vos, que a luci­dez crí­ti­ca só é pos­sí­vel quan­do bem ali­men­ta­da, que o espí­ri­to tam­bém é refém das con­tin­gên­ci­as do estô­ma­go. “Não é, por con­sequên­cia, a coi­sa mais razoá­vel do mun­do que, antes de sub­me­ter a apre­ci­a­ção dos crí­ti­cos qual­quer tra­ba­lho, se lhes sub­me­ta, à diges­tão, um opí­pa­ro ban­que­te? O Sr. Carlos Magalhães demons­trou as exce­lên­ci­as do sis­te­ma”.

Por que o jor­nal espe­rou qua­tro meses para iro­ni­zar sobre o epi­só­dio é um mis­té­rio, mas a sua publi­ca­ção ser­ve como um indí­cio de que a glo­ri­fi­ca­ção de Magalhães já não era tão glo­ri­o­sa para a gran­de impren­sa. O cer­to é que, em 1921, quan­do o livro de Magalhães che­ga­va à sua ter­cei­ra edi­ção, a bla­gue pas­sa­ra a ser comen­ta­da aber­ta­men­te nos jor­nais. A mai­or par­te dos tex­tos lamen­ta­vam o caso, lem­bran­do que Magalhães fora víti­ma de uma brin­ca­dei­ra deplo­rá­vel, de mau gos­to, mas que havia rea­gi­do de for­ma sere­na e dig­na.

Perante a cons­pi­ra­ção que visa­va exter­mi­ná-lo pelo ridí­cu­lo, o sr. Carlos Magalhães man­te­ve a com­pos­tu­ra de um homem supe­ri­or”, escre­veu um crí­ti­co de A Pátria. “Não se man­cha­ram as suas luvas bran­cas. Nessa hora difí­cil, o poe­ta mos­trou que, se não escre­via como Victor Hugo e Lamartine, sabia com­por­tar-se como um cava­lhei­ro. Os que já esti­ma­vam pas­sa­ram-lhe a esti­mar ain­da mais. Os seus ini­mi­gos deram-lhe o ense­jo de demons­trar que ele sabe ser poe­ta jusqu’ au bout”.

Para a ter­cei­ra edi­ção do livro, Magalhães reu­niu tre­chos de car­tas e arti­gos com apre­ci­a­ções dos nomes “mais ilus­tres do nos­so meio lite­rá­rio e cien­tí­fi­co” ao seus poe­mas. A essa altu­ra a ficha já havia caí­do, e ele não incluiu, obvi­a­men­te, uma só linha de seus algo­zes. Um crí­ti­co do jor­nal A noi­te suge­riu que Magalhães não só havia com­pre­en­di­do o gol­pe fal­so, como ain­da o capi­ta­li­za­ra para o suces­so do livro.

De fato, a sua cole­tâ­nea che­ga­va à ter­cei­ra edi­ção, fei­to notá­vel para um livro de poe­sia. E Magalhães, ape­sar de tudo, ain­da era o vate genuí­no da alta roda. Seus poe­mas con­ti­nu­a­vam sen­do repro­du­zi­dos em perió­di­cos ele­gan­tes, como o Jornal das Moças. Recitá-los nos bai­les, infor­ma­va O Malho, era uma arma indis­pen­sá­vel para caçar mulhe­res chi­ques.

Para outra impren­sa, mais lite­rá­ria, seu nome se tor­nou sinô­ni­mo de ridí­cu­lo, a pró­pria defi­ni­ção do pre­sun­ço­so sem talen­to. “Mais um con­fra­de para Carlos Magalhaes”, vira­ra um  bor­dão para desig­nar vates sem talen­to. E outra: “Carlos Magalhães pare­ce que está chei­ran­do a bri­lhan­ti­na que lhe puse­ram nos bigo­des”. É pos­sí­vel encon­trar mui­tas men­ções em A care­ta, que con­ti­nu­ou lem­bran­do a humi­lha­ção públi­ca meses depois. A revis­ta, que em anos ante­ri­o­res cobri­ra a figu­ra de Magalhães com entu­si­as­mo, ago­ra a tra­ta­va com escár­nio.  Até um poe­ma fazen­do tro­ça do ban­que­te foi publi­ca­do em suas pági­nas:  “Apenas no menu uma falha vimos:/ Medaillon Durham, quan­do só possuímos/ — A car­ne má do nos­so boi Zebu…”

Por tabe­la, os ata­ques aca­ba­ram atin­gin­do o filho de Magalhães, Paulo — o rapaz atlé­ti­co de voz sono­ra -, atra­pa­lhan­do suas aspi­ra­ções lite­rá­ri­as. Uma rese­nha do pri­mei­ro roman­ce de Paulo, Resignação, lan­ça­do em 1921, teve mais men­ções ao pas­sa­do de seu pai do que ao pró­prio livro.

O novo bel­le­tris­ta é filho de Carlos Magalhães, por isso os maus, iro­ni­ca e feroz­men­te, mal daque­le viram o nome do alto de uma bro­chu­ra, suma­ri­a­men­te lhe fize­ram o necro­lo­gio, decla­ran­do: É o con­ti­nu­a­dor inte­lec­tu­al de seu pai.

Todo o Rio tre­meu ano o pas­sa­do de como­ção em face a for­mi­dá­vel Blague fei­ta ao homem que escre­veu com a inten­ção de fazer ver­so: Copacabana é lin­da de tar­de, oh! sen­sa­ção!.

Pois bem, o pobre mane­quim, quan­do sur­gi­mos em sua fren­te para lhe mos­trar com fran­que­za o quan­to ridí­cu­lo esta­va se for­man­do, revol­tou-se e cons­tan­te­men­te depois a nos­sos ouvi­dos che­ga­vam as belas refe­rên­ci­as que ele nos fazia”.

Magalhães esta­va mar­ca­do. Como a rã de La Fontaine, que explo­diu em peda­ços que­ren­do ser tão gran­de quan­to o boi, ten­ta­ra ir con­tra sua natu­re­za. Por mais ele­gan­te e endi­nhei­ra­do, por mais suces­so obti­ves­se em seus negó­ci­os, nun­ca faria par­te do mun­do inte­lec­tu­al. Embora seus defen­so­res insis­tis­sem que ele havia tira­do de letra a cons­pi­ra­ção, man­ten­do a com­pos­tu­ra que se espe­ra de um gen­tle­man, uma nota assi­na­da pelo pró­prio Magalhães em A Noite, em outu­bro de 1920, indi­ca um cer­to deses­pe­ro. Já no títu­lo, um ape­lo: “Pela pri­mei­ra… e úti­ma vez”.

Contra o que ele cha­ma­va de uma inter­mi­ten­te ” cam­pa­nha de inve­ja, de des­pei­to e de pre­ten­so ridí­cu­lo” , Magalhães publi­cou uma “decla­ra­ção­zi­nha” visan­do “poe­tas, poe­ti­nhas, poe­tas­tros e poe­tões”. Tinha os seguin­tes fins:

1º) Confirmar, ain­da uma vez, a minha sere­ni­da­de de espí­ri­to, a minha mag­ní­fi­ca saú­de e meu inten­so gos­to de viver…

2º) Avisar, para bre­ve, a minha via­gem à Europa e a con­ti­nu­a­ção da minha pros­pe­ri­da­de finan­cei­ra.

Como rema­te, final­men­te, devo ain­da dizer [ile­gí­vel]:

Os meus pou­cos desa­fe­tos — aliás, gra­tuí­tos — podem insis­tir na pre­ten­são inó­cua em exas­pe­rar ou alte­rar o meu âni­mo; o que, porém, jamais con­se­gui­rão — e com meu indo­má­vel orgu­lho o decla­ro — é empa­nar ou des­truir a minha inte­li­gên­cia, a minha cul­tu­ra, a minha edu­ca­ção e a minha proi­bi­da­de!

E pon­to final.”

 

No dia pri­mei­ro de abril de 1931, os jor­nais do Rio publi­ca­vam o obi­tuá­rio de Carlos Magalhães. Não era pia­da: o poe­ta e empre­sá­rio havia mor­ri­do na madru­ga­da ante­ri­or. Doze anos após o fal­so triun­fo que como­veu o Rio de Janeiro, a impren­sa já não mais o tra­ta­va como um gênio de ins­pi­ra­ção ele­va­da, mas como um artis­ta cuja sin­ce­ri­da­de e liris­mo com­pen­sa­va a escas­sez de téc­ni­ca e equi­lí­brio. Em suma: um poe­ta razoá­vel, um dig­no repre­sen­tan­te de uma tra­di­ção soci­al, mais lem­bra­do pela gene­ro­si­da­de e ele­gân­cia do que pelo talen­to. Doente nos seus últi­mos três anos de exis­tên­cia, rara­men­te saía de sua casa no Leme.  “Não era o mes­mo homem, a mes­ma vida, o mes­mo espí­ri­to. Era, porém, o mes­mo gen­tle­man, inva­ri­a­vel­men­te edu­ca­do, atrain­do pelas manei­ras cor­re­tas, empol­gan­do pelas manei­ras esme­ra­das”, escre­veu a Gazeta de Notícias. O seu tra­ço de seu cará­ter, “a sua facul­té mai­tres­se”, era a “cor­te­sia pes­so­al”.

Foi sepul­ta­do no São João Batista, tra­di­ci­o­nal cemi­té­rio do bair­ro de Botafogo, aos 51 anos. Sobre seu esqui­fe, um enor­me núme­ro de coro­as de flo­res.

Único filho de Carlos, Paulo Magalhães fez car­rei­ra de suces­so como tea­tró­lo­go. Rei das comé­di­as, com 105 peças no cur­rí­cu­lo, dizia-se o autor mais ence­na­do do país e o úni­co com­po­si­tor bra­si­lei­ro a ter com­pos­to uma músi­ca para Carlos Gardel. Também compôs o hino ofi­ci­al do Flamengo — o menos popu­lar, gra­va­do por Castro Barbosa — e foi asses­sor do ex-gover­na­dor Negrão de Lima.

Fiz de meu nome uma mar­ca de fábri­ca”, escre­veu em 1939, nas pági­nas da Fon Fon. “Quanto mais saí­da, mais recla­me para meus pro­du­tos. Faço cabo­ti­nis­mo uti­li­tá­rio e comer­ci­al, cons­ci­en­te­men­te… E se é ver­da­dei­ro o dita­do ‘Feliz é quem feliz se jul­ga’, eu sou o homem mais feliz do mun­do!”

Morreu em 1972. Hoje tão esque­ci­do quan­to o epi­só­dio do Assyrio, fica­rá, toda­via, eter­ni­za­do por ter cunha­do a fra­se:

Fale mal, mas fale de mim”.

 

[1] Não con­fun­dir com o outro Antonio Torres, roman­cis­ta bai­a­no ain­da vivo, mem­bro da ABL e autor de Meu que­ri­do cani­bal.

[2] Apesar da evi­den­te iro­nia do tex­to, Carlos Magalhães não des­con­fi­ou nem des­gos­tou das pala­vras de Costa Rego. Agradeceu ao jor­na­lis­ta em uma nota no Correio da Manhã, publi­ca­da no dia seguin­te ao arti­go. Corrigiu, porém, uma fal­sa infor­ma­ção: não era pro­pri­e­tá­rio de uma tin­tu­ra­ria, era ape­nas um capi­ta­lis­ta que “ousa fazer ver­sos e ser bacha­rel em direi­to”.

[3] Oculista, Professor da Faculdade de Medicina.

 

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