O que há de novo no Cinema Novo?

No cinema

24.04.15

Agora que um úni­co fil­me nor­te-ame­ri­ca­no (Vingadores: Era de Ultron) ocu­pa qua­se meta­de das salas exi­bi­do­ras do Brasil tal­vez seja um bom momen­to para revi­si­tar cri­ti­ca­men­te o movi­men­to que bus­cou de manei­ra mais con­tí­nua e con­se­quen­te “des­co­lo­ni­zar” nos­sa pro­du­ção audi­o­vi­su­al: o Cinema Novo, sur­gi­do na vira­da dos anos 1950 para os 60.

Para pro­pi­ci­ar essa imer­são, come­ça na pró­xi­ma quar­ta-fei­ra (29 de abril) na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, uma gran­de retros­pec­ti­va do Cinema Novo, exi­bin­do até mea­dos de junho um total de 53 fil­mes (35 lon­gas e 18 cur­tas). Serão exi­bi­das cópi­as res­tau­ra­das de rari­da­des como Esse mun­do é meu (1964), de Sérgio Ricardo, Câncer (1968/72), de Glauber Rocha, e Brasil ano 2000 (1968), de Walter Lima Jr., ao lado de clás­si­cos incon­tor­ná­veis do movi­men­to, como Os fuzisVidas secas Deus e o dia­bo na ter­ra do sol. Aqui, como ape­ri­ti­vo, a sequên­cia de aber­tu­ra de Brasil ano 2000:

É uma boa opor­tu­ni­da­de para sepa­rar o tri­go do joio e fazer uma ava­li­a­ção mais equi­li­bra­da da real impor­tân­cia des­sa pro­du­ção, ago­ra que pare­ce ter bai­xa­do a poei­ra das dis­pu­tas esté­ti­cas, ide­o­ló­gi­cas e pes­so­ais envol­ven­do os cine­ma­no­vis­tas e seus adver­sá­ri­os.

Unidade e diver­si­da­de

Primeiro, é pre­ci­so reco­nhe­cer que não exis­te uma uni­for­mi­da­de, e nem mes­mo uma homo­ge­nei­da­de, na pro­du­ção do gru­po. Entre o bar­ro­co visi­o­ná­rio de um Glauber, o “rea­lis­mo dia­lé­ti­co” de um Leon Hirszman, o inti­mis­mo trá­gi­co de um Paulo César Saraceni e o liris­mo de um David Neves ou de um Domingos Oliveira há enor­mes dis­tân­ci­as de esti­lo, tom e humor.

O cineasta Glauber Rocha, ícone do Cinema Novo

O Cinema Novo, por um lado, faz par­te de toda uma ten­dên­cia inter­na­ci­o­nal de reno­va­ção, sim­bo­li­za­da sobre­tu­do pela Nouvelle Vague fran­ce­sa, em que o uso de equi­pa­men­tos mais leves, as fil­ma­gens em loca­ções e a sub­ver­são de cer­tas con­ven­ções nar­ra­ti­vas con­tra­pu­nham-se ao peso das gran­des pro­du­ções dos estú­di­os e à hege­mo­nia esté­ti­ca e ide­o­ló­gi­ca do cine­ma nor­te-ame­ri­ca­no.

No front inter­no, os cine­ma­no­vis­tas rea­gi­am con­tra dois mode­los de cine­ma já então fali­dos ou des­gas­ta­dos: as gran­des pro­du­ções da Vera Cruz, vis­tas por eles como imi­ta­ções canhes­tras do cine­mão ame­ri­ca­no e euro­peu, e as chan­cha­das, des­de­nha­das como entre­te­ni­men­to popu­la­res­co e ali­e­nan­te.

Urgência polí­ti­ca

Esses ini­mi­gos comuns uni­am a tur­ma do Cinema Novo, que pre­ten­dia fazer um cine­ma des­co­lo­ni­za­do, enga­ja­do na denún­cia e no com­ba­te às maze­las soci­ais do país. Com esse ideá­rio e essa moti­va­ção, não foram pou­cas as vezes em que a pro­du­ção do gru­po res­va­lou para o dida­tis­mo, quan­do não para o pan­fle­ta­ris­mo, a par de um cer­to des­cui­do da for­ma e da qua­li­da­de téc­ni­ca. A urgên­cia polí­ti­ca jus­ti­fi­ca­va tudo, ou qua­se tudo.

O dire­tor Ivan Cardoso, cri­a­dor do “ter­rir” e gran­de admi­ra­dor das chan­cha­das bra­si­lei­ras e dos fil­mes B ame­ri­ca­nos, cos­tu­ma dizer, com evi­den­te exa­ge­ro, que os cine­ma­no­vis­tas, com raras exce­ções, não eram cine­as­tas de ver­da­de. “Eram advo­ga­dos, jor­na­lis­tas, soció­lo­gos, que não sabi­am nem segu­rar uma câme­ra Kodak.” A pia­da mal­do­sa tal­vez tenha um fun­do de ver­da­de.

Rancores e res­sen­ti­men­tos sem­pre vêm à tona quan­do se fala no assun­to. Organizado como gru­po, ape­sar das dife­ren­ças inter­nas, o Cinema Novo excluiu e dis­cri­mi­nou, quan­do não hos­ti­li­zou, cine­as­tas impor­tan­tes como Walter Hugo Khouri e Luís Sérgio Person, para não falar de seu gran­de desa­fe­to Anselmo Duarte.

A ques­tão é que, a cer­ta altu­ra, o pró­prio Cinema Novo tor­nou-se, por assim dizer, o esta­blish­ment, sobre­tu­do medi­an­te a “toma­da de poder” na Embrafilme. Contra esse cine­ma ins­ti­tu­ci­o­na­li­za­do, tor­na­do mains­tre­am, rebe­lou-se a gera­ção cha­ma­da pejo­ra­ti­va­men­te de “mar­gi­nal” ou “udi­gru­di”, ou seja, o cine­ma de inven­ção de Rogério Sganzerla, Julio Bressane, Andrea Tonacci etc. O pró­prio Ivan Cardoso faz par­te de uma espé­cie de “segun­da den­ti­ção” des­se cine­ma.

Essa nova gera­ção desin­te­grou o dis­cur­so polí­ti­co nor­ma­ti­vo cine­ma­no­vis­ta e levou adi­an­te a expe­ri­men­ta­ção esté­ti­ca, pro­mo­ven­do uma rea­bi­li­ta­ção da chan­cha­da e bus­can­do novas for­mas de inte­ra­ção com a cul­tu­ra popu­lar.

Sinais de inqui­e­ta­ção

Mas nada é estan­que quan­do se tra­ta de pro­du­ção artís­ti­ca. Como a mos­tra da Cinemateca per­mi­ti­rá veri­fi­car, no pró­prio seio do Cinema Novo sur­gi­ram, no final dos anos 1960, sinais de inqui­e­ta­ção e de dese­jo de supe­ra­ção dos limi­tes do movi­men­to. Exemplos dis­so são Câncer, de Glauber, com seus pon­tos de con­ta­to com o under­ground, e, no outro extre­mo, Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade, em sua bus­ca de um elo entre a chan­cha­da, o moder­nis­mo pau­lis­ta de 22 e o tro­pi­ca­lis­mo então em efer­ves­cên­cia. Aqui, uma sequên­cia impa­gá­vel do fil­me:

Grosso modo, porém, o Cinema Novo se ins­ti­tu­ci­o­na­li­zou, se aco­mo­dou, se abur­gue­sou. Não por aca­so, um eter­no rebel­de como Glauber iso­lou-se de seus anti­gos com­pa­nhei­ros, ou foi iso­la­do por eles.

Dessa his­tó­ria de amo­res e ódi­os, de far­pas e afe­tos, res­tam os fil­mes. Alguns enve­lhe­ce­ram mal, outros – como Os cafa­jes­tesO padre e a moçaTerra em tran­se São Bernardo, por exem­plo – seguem vivos, dolo­ro­sos, cor­tan­tes. Outros ain­da, como Gimba, o pre­si­den­te dos valen­tes (Flavio Rangel, 1963) e O gri­to da ter­ra (Olney São Paulo, 1964), mere­cem ser conhe­ci­dos, no míni­mo por curi­o­si­da­de e inte­res­se his­tó­ri­co. A mos­tra da Cinemateca, em suma, per­mi­ti­rá ave­ri­guar o que ain­da há de novo no Cinema Novo.

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