O que não se sabe sobre Daniel Piza

Literatura

10.01.12

Clique aqui para ler tex­to de Flávio Pinheiro tam­bém sobre Daniel Piza publi­ca­do no blog.

 

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Há algu­mas pala­vras que qua­se não se veem, rara­men­te se escu­tam, pare­cem ter exis­ti­do antes para depois não se mos­tra­rem mais pre­sen­tes. Deixam de manei­ra len­ta e silen­ci­o­sa, ou repen­ti­na e rui­do­sa, de per­ten­cer a uma expe­ri­ên­cia comum repar­ti­da entre aque­les que nelas encon­tra­ram um sig­ni­fi­ca­do, um desa­fio, uma expli­ca­ção, a pos­si­bi­li­da­de da tra­du­ção de um sen­ti­men­to mis­te­ri­o­so, inex­pli­cá­vel mes­mo para aque­le que sen­te. Assim como as pes­so­as, uma hora está. No ins­tan­te seguin­te, res­ta ape­nas a ausên­cia. Panegírico é uma pala­vra assim. Trata-se de um dis­cur­so, de uma lou­va­ção, a home­na­gem públi­ca a alguém ou a algo. É geral­men­te aqui­lo que os vivos deci­dem rea­li­zar quan­do estão dian­te da evi­dên­cia con­cre­ta da mor­te. O Panegírico é o elo­gio. Não rara­men­te, o últi­mo elo­gio. E tal­vez mais. Sua mis­são, sua natu­re­za, supe­ra o elo­gio, por­que mes­mo o elo­gio per­mi­te a con­tra­di­ção, o con­tra­pon­to infe­liz na exis­tên­cia de alguém e do per­so­na­gem des­se mes­mo alguém. Um ato supre­mo de hipo­cri­sia, então? Possivelmente, sim. Mas não é essa a sua ver­da­de. O pane­gí­ri­co exi­ge que se pen­se uma ação pelo pon­to de vis­ta daque­le que agiu. O que se pro­cu­ra é uma essên­cia. Daniel Piza, mor­to no dia 30 de dezem­bro de 2011, dei­xa a mulher Renata e os filhos Leticia, Maria Clara e Bernardo. É assim que os obi­tuá­ri­os expõem o fato. Essa é uma essên­cia. Diante des­sa essên­cia, um pane­gí­ri­co, a que isso ser­ve?

 

2

Algumas coi­sas que você não sabe sobre D.P.

* Preferia Blur a Oasis.

* Sobre Elvis Costello, a segun­da fase vale­ria mais do que a pri­mei­ra.

* O tex­to deve­ria ser dito, mes­mo quan­do escri­to.

* A juven­tu­de era uma ques­tão a ser resol­vi­da. Assim como a nos­tal­gia.

* Viajar era essên­cia de algo mai­or.

Mais uma vez, a essên­cia.

 

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Algumas coi­sas que você não sabe­rá jamais sobre D.P.

* O futu­ro, o que tra­ria?

* O tem­po, o que tra­ria?

* A his­tó­ria, o que tra­ria?

* Os dias, com eles, o que faria?

 

4

Ao menos para o Brasil e os bra­si­lei­ros, o fute­bol tem sido um cam­po pri­vi­le­gi­a­do para as mais ini­ma­gi­ná­veis metá­fo­ras. O jogo é usa­do para expli­car o anda­men­to da his­tó­ria naci­o­nal, as estra­té­gi­as de sobre­vi­vên­cia afe­ti­va entre casais, as esco­lhas polí­ti­cas do elei­tor ou mes­mo a mor­ta­li­da­de, por­que o reló­gio não para e sem­pre have­rá cedo ou tar­de o encer­ra­men­to da par­ti­da. Esses são ape­nas alguns casos, entre tan­tas outras idei­as e com­pa­ra­ções mais ou menos nobres nas quais o jogo se apre­sen­ta como mais que um jogo. A ten­ta­ção para se fazer uso do espor­te des­sa for­ma (mui­tas vezes esque­cen­do o ris­co do ridí­cu­lo) pare­ce ser imen­sa. Aqui, nes­ta situ­a­ção, dian­te de um sus­to, de um cor­te repen­ti­no de uma vida, no pane­gí­ri­co, Ronaldo, o joga­dor, não ofe­re­ce uma metá­fo­ra, mas o resu­mo pre­ci­so dian­te da tra­gé­dia do aca­so: “Nós per­de­mos por­que não ven­ce­mos”.

 

5

Toda a minha vida sem­pre vi tem­pos inqui­e­tos, tumul­tos extre­mos na soci­e­da­de, e imen­sas des­trui­ções; entrei nes­sas desor­dens. E tais cir­cuns­tân­ci­as cer­ta­men­te bas­ta­ri­am para impe­dir que o mais trans­pa­ren­te dos meus atos ou raci­o­cí­ni­os se vis­se apro­va­do uni­ver­sal­men­te, fos­se onde fos­se. Ademais, assim o creio, alguns terão sido mal com­pre­en­di­dos.” Guy Debord. Panégyrique. Éditions Gérard Lebovici, 1989.

 

6

Lucio Battisti foi um músi­co ita­li­a­no. Um ído­lo naci­o­nal cer­ca­do por vári­os rumo­res e algu­mas len­das. Algumas boas, outras dife­ren­tes dis­so. Na can­ção “Per una Lira”, escre­ve: “Mas se pen­so que você é um bom amigo/ não digo isso a você, não/ melhor para você/ melhor para você” (Ma se pen­so che/ tu sei un buon amico/
non te lo dico, no/ meglio per te/ meglio per te).

 

7

A ami­za­de, não impor­ta a tra­je­tó­ria, o dra­ma ou a feli­ci­da­de, a ausên­cia ou a per­ma­nên­cia, a jus­ti­ça ou injus­ti­ça, a dis­pu­ta ou a paci­fi­ca­ção, o abra­ço ou o afas­ta­men­to será um lugar do qual nun­ca se retor­na. Ela per­ma­ne­ce na memó­ria. Seu motor é a lem­bran­ça.

 

* Marcelo Rezende é jor­na­lis­ta e autor do roman­ce Arno Schmidt (Planeta, 2005) e do ensaio Ciência do sonho: A ima­gi­na­ção sem fim do dire­tor Michel Gondry (Alameda, 2005) 

 

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