O que vai acontecer?

Correspondência

08.06.11

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Oi, cora­ção.

Repito que estou tris­te com o encer­ra­men­to de nos­sas dezes­seis car­tas enco­men­da­das pelo Flávio. A cor­res­pon­dên­cia públi­ca que come­çou com uma for­te desa­ven­ça pri­va­da (não con­to qual foi, mas gos­to de ati­çar a curi­o­si­da­de do lei­tor) pare­ce que nos tor­nou mais ami­gos, e nos­sa ami­za­de, mais amo­ro­sa. Deve ser este o sen­ti­do das cerimô­ni­as de casa­men­to: ao con­vo­car tes­te­mu­nhas para um com­pro­mis­so amo­ro­so par­ti­cu­lar, os noi­vos tal­vez sin­tam-se mais liga­dos um ao outro — por tem­po inde­ter­mi­na­do, sabe­mos.  Bom é saber que me des­pe­ço do blog, mas não de você: minha pró­xi­ma ida men­sal ao Rio é no come­ço de julho, e já me vejo aí, sába­do à noi­te, para mais uma con­ver­sa (qua­se) sem fim. A sala “de visi­tas” (nomen­cla­tu­ra anti­qua­da esta, não?) da casa da Urca, onde pas­sa­mos algu­mas horas lite­ral­men­te dis­pu­tan­do a pala­vra, já faz par­te da mito­lo­gia de minhas memó­ri­as. A con­fi­gu­ra­ção de que mais gos­to é esta: você, a Cri e eu, sem mais visi­tas a não ser a pas­sa­gem cada vez mais rápi­da do Carlos, sem­pre gen­til comi­go, mas obvi­a­men­te desin­te­res­sa­do da nos­sa con­ver­sa. Gostaria de algum dia ama­nhe­cer con­ver­san­do, sem ter vis­to a noi­te pas­sar. Vi ontem, e reco­men­do, o últi­mo fil­me do Toni Venturi, Estamos jun­tos, em que uma jovem médi­ca, que está sem­pre mal-humo­ra­da, não reco­nhe­ce o valor dos ami­gos que tem. Não con­to qual o acon­te­ci­men­to que muda a dis­po­si­ção dela, mas o fil­me me fez pen­sar que apre­ci­a­mos melhor os ami­gos quan­do fica­mos mais velhos e o con­ví­vio pro­lon­ga­do já compôs uma movi­men­ta­da rap­só­dia.

Duas coi­sas sobre a sua car­ta: o poe­ma “Escrevia a um pal­mo de si…”, conhe­ço mais inti­ma­men­te do que mui­tos outros que você man­dou nes­se perío­do. Gosto dele demais, li ante­ci­pan­do o que viria, com gran­de inti­mi­da­de — de que livro é? Do Raro mar?

A outra coi­sa, sobre o MST: sei que você escre­veu de boa-fé sobre “entre­ga e dedi­ca­ção admi­rá­veis”, mas que­ro mui­to, e com mui­ta hones­ti­da­de, rela­ti­vi­zar o valor des­sas pala­vras. Não estou lá, na bei­ra­di­nha daque­le mar de gen­te, a ofe­re­cer a bei­ra­di­nha de meu tem­po livre, movi­da por nenhum sen­ti­men­to admi­rá­vel, daque­les que se cos­tu­ma cha­mar de bon­da­de. Comecei o tra­ba­lho de aten­di­men­to na ENFF a pedi­do deles, é ver­da­de, mas esta­va doi­da de von­ta­de que eles me pedis­sem isso. Minha vida esta­va está­vel demais, em 2006: pro­fis­são esta­be­le­ci­da, filhos mais ou menos cri­a­dos, namo­ra­do dis­tan­te, mas cons­tan­te, e tal. Tenho hor­ror a tal esta­bi­li­da­de, embo­ra apre­cie mui­to as peque­nas roti­nas que cos­tu­ram um dia no outro — “com seu colar de minu­tos…” etc. Já a esta­bi­li­da­de, sei lá: pare­ce que apa­ga o sen­ti­do da dife­ren­ça entre os momen­tos da vida, empas­te­la os anos e, aci­ma de tudo no meu caso, cria uma espé­cie de zona de con­for­to que embo­ta a sen­si­bi­li­da­de. Gosto de ter os ner­vos em esta­do de aler­ta, com perío­dos de tran­qui­li­da­de con­quis­ta­da a cada dia. Pela mes­ma razão, dou gran­de valor ao medo, mas não vou repe­tir o elo­gio do medo que fiz em uma das pri­mei­ras car­tas.

O fato é que naque­la épo­ca eu que­ria me deses­ta­bi­li­zar um pou­co, e o pes­so­al da Escola Nacional me ofe­re­ceu esse pre­sen­te. Tão logo me per­gun­ta­ram como a psi­ca­ná­li­se pode­ria aju­dá-los, eu come­cei a aten­der os tra­ba­lha­do­res da ENFF e os estu­dan­tes de pas­sa­gem por lá. Foi um espan­to e uma ale­gria, que ain­da por cima reno­vou meu gos­to pela psi­ca­ná­li­se, um dis­po­si­ti­vo cuja potên­cia tam­bém não can­sa de me sur­pre­en­der. Lá eu rece­bo mais do que dou, de ver­da­de. Estou lá por­que me revi­go­ra, melho­ra minha psi­ca­ná­li­se, me desen­ve­lhe­ce. No momen­to ten­to usar o tem­po livre para ter­mi­nar o rela­to da aná­li­se de Josué — nome fic­tí­cio — sobre o qual já te con­tei um pou­co, e que vai se cha­mar Porque sou um homem - assim mes­mo, como afir­ma­ção e não per­gun­ta. Mais não digo aos lei­to­res, por ora, mas a vocês já con­tei pelo menos a his­tó­ria do títu­lo, lem­bra? Será um livro bre­ve e leve, no qual tam­bém inclui­rei algu­mas con­si­de­ra­ções sobre as dife­ren­ças sub­je­ti­vas entre os ana­li­san­dos da ENFF e os de São Paulo.

Eu ado­ro os come­ços. Começos são infi­ni­tos. O que se segue a eles já não é: são os dias, as horas, novos com­pro­mis­sos de tra­ba­lho, de lazer, de amor, que se ins­ta­lam na agen­da. Mas um come­ço — como nos poe­mas que você escre­veu quan­do Carlos nas­ceu — pare­ce que não vai ter fim.  Agora que essa cor­res­pon­dên­cia aca­ba, o que mais vai come­çar? Sei que isso é bova­ris­mo, ai de mim. Pois, assim como a pobre Emma, abro as jane­las a cada manhã per­gun­tan­do “o que vai acon­te­cer?”. Sorte que nas­ci em um sécu­lo no qual uma mulher como eu, e não como a Bovary, pode fazer acon­te­cer mui­tas coi­sas, mui­tas mais do que um casa­men­to medi­a­no no qual havia que se apos­tar todas as fichas da exis­tên­cia.

Um p.s., só por­que você é cari­o­ca: ando como­vi­da com a gre­ve dos bom­bei­ros aí no Rio. Não sei se o pulha do Garotinho está por trás ou não, como afir­ma o Cabral, mas mal pos­so crer na insen­si­bi­li­da­de do gover­na­dor ao des­qua­li­fi­car as rei­vin­di­ca­ções jus­tís­si­mas por aumen­to de salá­rio e melho­res con­di­ções de tra­ba­lho des­tes que são os fun­ci­o­ná­ri­os públi­cos mais res­pei­ta­dos do país. E o povo para apoi­ar os gre­vis­tas onde está? Serão só suas famí­li­as a pro­tes­tar con­tra os mais de 400 homens pre­sos como “vân­da­los” por terem ocu­pa­do (apren­di no MST a não dizer inva­são e sim ocu­pa­ção) o quar­tel? Sábado pas­sa­do eu esta­va na rua do Carmo, antes de ir para o Santos Dumont, quan­do fui abor­da­da por um homem de uns 40 anos, mui­to entris­te­ci­do mas tam­bém bra­vo, que ten­ta­va con­ven­cer as pes­so­as a ade­rir à peque­na mul­ti­dão reu­ni­da em pro­tes­to dian­te da Assembleia legis­la­ti­va. A injus­ti­ça e a fal­ta de reco­nhe­ci­men­to do valor de seu tra­ba­lho doíam nele, visi­vel­men­te. O sen­ti­men­to de injus­ti­ça é uma feri­da impos­sí­vel de cica­tri­zar.

Termino assim, sem espa­ra­dra­po.

Muitos bei­jos, até julho com cer­te­za.

Assino como você me cha­ma, Ri.

* Na ima­gem da home que ilus­tra este post: Isabelle Huppert e Jean-François Balmer em cena de Madame Bovary (1991), de Claude Chabrol

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