O que vai numa capa?

Fotografia

26.12.11

São mui­tos os ingre­di­en­tes e os tra­ba­lhos que entram na fabri­ca­ção de um livro. Todos — todos mes­mo, acre­di­tem — são cru­ci­ais para o bom resul­ta­do final, ain­da que mui­tos não este­jam des­ti­na­dos às luzes da ribal­ta: alguns dos está­gi­os da lida edi­to­ri­al são dis­cre­tos por natu­re­za (bas­ta pen­sar na ficha cata­lo­grá­fi­ca ou no colo­fão); outros, se bem fei­tos, devem até ser invi­sí­veis: se o lei­tor nem notar o tra­ba­lho do revi­sor, óti­mo, sinal de revi­são bem fei­ta!

Mas a capa, bem, essa nas­ceu para apa­re­cer — e de fato apa­re­ce e rou­ba a cena nas livra­ri­as, tal­vez até com algu­ma dose de injus­ti­ça em rela­ção a seus com­pa­nhei­ros de ofí­cio. Seja como for, pen­sar a capa é um momen­to espe­ci­al­men­te deli­ca­do na con­fec­ção de um livro. Aqui vai o nos­so exem­plo da vez.

No últi­mo dia 27 de novem­bro, o IMS abriu uma lin­da expo­si­ção em sua sede cari­o­ca: “Fotopoesia”, pri­mei­ra retros­pec­ti­va no Brasil do mexi­ca­no Manuel Álvarez Bravo, cer­ta­men­te um dos mai­o­res fotó­gra­fos do sécu­lo XX. A expo­si­ção fica em car­taz no Rio de Janeiro até 26 de feve­rei­ro, quan­do segue para o IMS de São Paulo.

Quebrando de leve a tra­di­ção da casa, que sem­pre edi­tou todos os catá­lo­gos das pró­pri­as expo­si­ções, deci­di­mos des­ta vez tomar outro cami­nho: a edi­to­ra ingle­sa Thames & Hudson lan­çou, no final de 2008, a belís­si­ma mono­gra­fia “Photopoetry”, orga­ni­za­da em par­ce­ria com a Associación Manuel Álvarez Bravo, sedi­a­da na Cidade do México.

O com­pên­dio era mui­to boni­to, abran­gen­te e bem impres­so; per­ce­be­mos que não era o caso de inven­tar a roda e logo che­ga­mos a um acor­do com a Thames (com a qual, diga-se de pas­sa­gem, já está­va­mos tra­ba­lhan­do rumo à edi­ção anglo-ame­ri­ca­na da mono­gra­fia “Brasília”, de Marcel Gautherot, que lá ganhou o títu­lo de “Building Brasília”).

Com 374 ima­gens, a mono­gra­fia não só cobria o con­teú­do da nos­sa expo­si­ção como ain­da tra­zia o bônus de algu­mas tan­tas ima­gens que não pode­ría­mos, por uma razão ou por outra, mos­trar aos nos­sos visi­tan­tes.

É aí que come­ça a his­tó­ria da capa. A edi­ção em lín­gua ingle­sa deci­di­ra-se por uma ima­gem de 1933, “O eclip­se”, em que uma mulher vis­ta em per­fil, de bai­xo para cima, pro­te­ge e vol­ta os olhos para obser­var algu­ma coi­sa ao lon­ge, fora do cam­po visu­al do lei­tor, enquan­to seu cor­po se con­fun­de com os len­çóis bran­cos que ela esten­de sobre um varal.

 

 

Ótima esco­lha, tan­to pela bele­za da ima­gem como por­que põe em evi­dên­cia, de pri­mei­ra, o pró­prio ato de ver, o esfor­ço por ver o que se escon­de e só a cus­to se reve­la — tema cen­tral da obra de Álvarez Bravo.

Ora, o acer­to dos nos­sos cole­gas ingle­ses pro­pu­nha um bom pro­ble­ma para nós: como cri­ar uma nova capa, que aju­das­se a dis­tin­guir a edi­ção bra­si­lei­ra e ao mes­mo tem­po evi­den­ci­as­se as mes­mas ques­tões? E como fazê-lo sem fazer uma esco­lha dita­da ape­nas pelo gos­to ou pelo capri­cho?

Na com­pa­nhia dos desig­ners Claudia Warrak e Raul Loureiro, come­ça­mos a fazer ensai­os com diver­sas ima­gens do livro em que a visão, o ato de ver ocu­pa­va o cen­tro da foto­gra­fia. Ao mes­mo tem­po, come­ça­mos a con­sul­tar os mui­tos catá­lo­gos, livros e publi­ca­ções avul­sas que saí­ram em vida de Álvarez Bravo, na espe­ran­ça de que as duas linhas — a da for­ça visu­al para o lei­tor de ago­ra e a da rele­vân­cia his­tó­ri­ca na car­rei­ra do fotó­gra­fo — algu­ma hora se cru­zas­sem.

No come­ço, nada fei­to. Os bons estu­dos de capa iam para um lado, as publi­ca­ções his­tó­ri­cas iam para outro — e assim foi por umas boas sema­nas, até que a con­jun­ção se pro­du­ziu. Vínhamos tra­ba­lhan­do, entre outras, com uma foto de 1931, “Menina ven­do pas­sa­ri­nhos”: um retra­to fron­tal, nova­men­te com ângu­lo ascen­den­te, de uma garo­ti­nha de tra­ços indí­ge­nas que faz som­bra com o bra­ço esquer­do para olhar algu­ma coi­sa ao lon­ge — ao lon­ge e atrás do fotó­gra­fo e por­tan­to, meta­fo­ri­ca­men­te, des­te lado da capa, do lado do lei­tor. O mes­mo cru­za­men­to visu­al de temas que se via na foto de 1933 — com algum ganho dra­má­ti­co até.

 

 

Menina ven­do pas­sa­ri­nhos, 1931

 

Mas a sen­sa­ção de “eure­ca” só se pro­du­ziu quan­do, no cur­so das nos­sas bus­cas, demos com duas publi­ca­ções cen­trais na car­rei­ra de Álvarez Bravo. Primeiro, topa­mos com o bre­ve catá­lo­go da mos­tra “Mexique”, inau­gu­ra­da em Paris, em 1939, com cura­do­ria de nin­guém menos que André Breton, cabe­ça de proa do Surrealismo, sem­pre aler­ta para as pos­si­bi­li­da­des reno­va­do­ras das artes extra-euro­péi­as e com par­ti­cu­lar inte­res­se no México, onde tra­va­ra rela­ções com o nos­so fotó­gra­fo; na capa do catá­lo­go (pou­co mais que um folhe­ti­nho), a nos­sa meni­na olhan­do pas­sa­ri­nhos e inter­pe­lan­do taci­ta­men­te os seus lei­to­res naque­le últi­mo ano antes da guer­ra!

Depois, o cor­reio nos trou­xe um exem­plar do catá­lo­go da mos­tra “Twenty Centuries of Mexican Art”, uma gran­de expo­si­ção que o MoMA de Nova York abriu já em ple­na guer­ra, em 1942. A expo­si­ção foi um mar­co nas rela­ções entre os dois paí­ses e na difu­são do lega­do cul­tu­ral mexi­ca­no, e não peca­va por fal­ta de ambi­ção: come­ça­va com escul­tu­ras monu­men­tais pré-colom­bi­a­nas e ia até o momen­to pós-revo­lu­ci­o­ná­rio.

 

Entre as obras mais recen­tes, uma foto­gra­fia de Álvarez Bravo, repro­du­zi­da na últi­ma pági­na do catá­lo­go: jus­ta­men­te a nos­sa “Menina ven­do pas­sa­ri­nhos”, de 1931. Pronto, esta­va deci­di­do — se é que, a essa altu­ra, ain­da havia espa­ço ou neces­si­da­de de deci­são — e a capa ficou assim, como se vê abai­xo, com um toque final de laran­ja solar no títu­lo.

 

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