O reality show de Hector Babenco

No cinema

22.10.15

Filmes total ou par­ci­al­men­te auto­bi­o­grá­fi­cos cons­ti­tu­em um gêne­ro escor­re­ga­dio, que pode tan­to gerar obras-pri­mas (Amarcord, Fanny e Alexander, Adeus meni­nos) como remi­nis­cên­ci­as desin­te­res­san­tes ou auto­com­pla­cen­tes.

Meu ami­go hin­du, de Hector Babenco, que abriu ante­on­tem (21 de outu­bro) a 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, não se enqua­dra em nenhum dos dois extre­mos.

Willem Dafoe em cena de Meu ami­go hin­du

Ao con­trá­rio das três obras cita­das, todas cen­tra­das na infân­cia, Meu ami­go hin­du cola-se à expe­ri­ên­cia pes­so­al do cine­as­ta na matu­ri­da­de, a par­tir da des­co­ber­ta e do enfren­ta­men­to de um cân­cer lin­fá­ti­co. Pode ser lido, ao menos pelo públi­co bra­si­lei­ro, como uma espé­cie de roman à clef, em que par­te do inte­res­se con­sis­te em iden­ti­fi­car, por trás dos nomes fic­tí­ci­os, quem é tal ou qual per­so­na­gem. Alguns são óbvi­os: o médi­co Drauzio Varella (Reynaldo Gianecchini), a atriz Xuxa Lopes (Maria Fernanda Cândido), além, cla­ro, do pró­prio Babenco, o pro­ta­go­nis­ta, ocul­to sob o nome Diego Fairman e encar­na­do pelo estu­pen­do ator Willem Dafoe.

Língua estran­gei­ra

Ocorre que o fil­me, embo­ra todo roda­do no Brasil com elen­co e equi­pe majo­ri­ta­ri­a­men­te bra­si­lei­ros, é fala­do em inglês. Quer dizer, em vez de dublar Dafoe (ou de esco­lher um bra­si­lei­ro ou argen­ti­no para o papel), Babenco optou por fazer os ato­res bra­si­lei­ros fala­rem inglês. A deci­são indi­ca, decer­to, o anseio de atin­gir o mer­ca­do inter­na­ci­o­nal. Mas há uma ana­lo­gia curi­o­sa entre esse modo de pro­du­ção que gira em tor­no do astro cen­tral e a pró­pria his­tó­ria nar­ra­da, isto é, a bio­gra­fia de um artis­ta ego­cên­tri­co e nar­ci­sis­ta.

O fato é que a esco­lha do idi­o­ma, apa­ren­te­men­te secun­dá­ria, é cru­ci­al para o resul­ta­do do fil­me, e vou ten­tar expli­car por quê. Em Meu ami­go hin­du, Babenco tra­fe­ga entre a ence­na­ção rea­lis­ta e a fan­ta­sia, mais ou menos como ocor­ria em O bei­jo da mulher ara­nha, outra his­tó­ria em que o cor­po apri­si­o­na­do resis­tia ao suplí­cio recor­ren­do às via­gens da ima­gi­na­ção. Mas aqui, a meu ver, a dimen­são rea­lis­ta per­deu o fres­cor e o vigor dos pri­mei­ros fil­mes do cine­as­ta, devi­do a uma mise-en-scè­ne um tan­to rígi­da, tra­va­da, em que cada per­so­na­gem pare­ce espe­rar sua dei­xa para pas­sar a falar e a exis­tir – ou melhor, pare­ce que só exis­te para dizer sua par­te do diá­lo­go. Essa fal­ta de fluên­cia é acen­tu­a­da pela cir­cuns­tân­cia de os ato­res fala­rem uma lín­gua que não é a sua.

Para o espec­ta­dor bra­si­lei­ro, é estra­nho ouvir aque­les ros­tos fami­li­a­res (Selton Mello, Fernanda Cândido, Gianecchini, Barbara Paz) falan­do inglês. Não é uma ques­tão de com­pe­tên­cia ou cor­re­ção: nenhum deles pas­sa ver­go­nha, mas se cria um dis­tan­ci­a­men­to ine­vi­tá­vel, um acrés­ci­mo de arti­fi­ci­a­li­da­de. Inversamente, fico curi­o­so em saber como o públi­co de lín­gua ingle­sa rea­gi­rá àque­le mon­te de bra­si­lei­ros falan­do seu idi­o­ma com sota­que estran­gei­ro.

Corpo a cor­po com a mor­te

Isso tudo acen­tua o iso­la­men­to de Diego/Dafoe como pro­ta­go­nis­ta, e o fil­me cres­ce jus­ta­men­te quan­do se con­cen­tra em seu cor­po, em seu emba­te com a vida e a mor­te. É um pou­co como se ali se che­gas­se ao grau zero da repre­sen­ta­ção, da dra­ma­tur­gia, da ence­na­ção: res­ta o cor­po fibro­so, esque­lé­ti­co, fra­gi­li­za­do, em sua luta para con­ti­nu­ar vivo. É con­tra­ce­nan­do com son­das, apa­re­lhos e agu­lhas que a per­for­man­ce do ator se mos­tra mais con­tun­den­te.

O fil­me reme­te, de cer­to modo, a O show deve con­ti­nu­ar (All that jazz, 1979), de Bob Fosse, em que um cine­as­ta e coreó­gra­fo, alter ego do pró­prio Fosse, repas­sa em sua cama na UTI cenas de sua vida de exces­sos, além de delí­ri­os indu­zi­dos pelas dro­gas. O humor áci­do e sar­cás­ti­co de Diego é seme­lhan­te ao do pro­ta­go­nis­ta de All that jazz, que pode ser veri­fi­ca­do nes­te tre­cho:

Em Meu ami­go hin­du as via­gens da fan­ta­sia têm altos (uma cena de dan­ça de Laurel & Hardy) e bai­xos (Diego brin­can­do de guer­ra com o meni­no hin­du com quem con­vi­ve na qui­mi­o­te­ra­pia). Criam, de todo modo, uma tex­tu­ra hete­ro­gê­nea, ines­pe­ra­da, que con­tras­ta com a dra­ma­tur­gia e a decu­pa­gem algo pre­vi­sí­veis, quan­do não redun­dan­tes, das cenas dia­lo­ga­das.

Mas, mes­mo entre estas últi­mas, há momen­tos ins­pi­ra­dos, de uma bele­za sin­ge­la, como a cena em que Diego e sua nova namo­ra­da (Barbara Paz, no papel que cor­res­pon­de a ela pró­pria) cami­nham pela pra­ça da Bandeira deser­ta, de madru­ga­da, falan­do dos pon­tos bai­xos de suas vidas pes­so­ais e pro­fis­si­o­nais. (Ele a viu pela pri­mei­ra vez num rea­lity show fulei­ro da TV.) Dois seres vul­ne­rá­veis e soli­tá­ri­os, que apa­nha­ram da vida e se des­pem de más­ca­ras um dian­te do outro, pron­tos para um renas­ci­men­to. O fil­me pode­ria ter­mi­nar ali, mas tem mais uns dois ou três finais que, sal­vo enga­no, só fazem enfra­que­cê-lo.

 

 

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