O Rio proustiano

Correspondência

11.05.11

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Se é assim, meu prous­ti­a­no do cora­ção, vamos às remi­nis­cên­ci­as. Tento recu­pe­rar as lem­bran­ças de minha pri­mei­ra che­ga­da ao Rio. Eu tinha oito anos. Viajamos no Ford 1953 cujo ape­li­do fami­li­ar era: William. Meu avô Renato, que conhe­ceu Antonio Candido, tam­bém usa­va cas­que­te de lã no inver­no pau­lis­ta­no. Minha avó Eunice, loi­ri­nha, de olhos ver­des e nariz arre­bi­ta­do. Minha mãe, Cecília, alta como uma pal­mei­ra da praia. Meu pai, que aos 35 pare­cia um meni­no: uma vez foi para­do na rua por um poli­ci­al de trân­si­to que lhe per­gun­tou se ele tinha ida­de para diri­gir e não acre­di­tou que as qua­tro cri­an­ças den­tro do car­ro eram seus filhos.

E nós qua­tro, que naque­le tem­po vivía­mos ain­da em pen­ca, mis­tu­ra­dos como uma ninha­da: Duto, magre­la irre­qui­e­to. Zé, o “gor­di­nho feliz” que não era gor­di­nho, não sei por que o Duto o cha­ma­va assim, e vivia de bom humor. Nem o caçu­la que um dia foi neném e só con­se­guiu se livrar do ape­li­do depois dos 40: lin­do como um que­ru­bim, sem­pre no ban­co da fren­te, no colo de minha mãe. Naquele tem­po podia. E eu, ban­gue­la e des­ca­be­la­da, joe­lhos esfo­la­dos de tan­to subir no muro de casa. Angustiadinha e falan­te até não poder mais. Mas na estra­da, por vezes, entra­va no meu bara­to par­ti­cu­lar dian­te da pai­sa­gem que eu não para­va de inven­tar a par­tir dos ele­men­tos banais que qual­quer bei­ra de estra­da ofe­re­ce.

Depois de horas infi­ni­tas, meu pai nos mos­trou o “Clube dos Quinhentos”, que não sei se ain­da exis­te, per­to de Resende (acho), cujo nome ele ado­ra­va e só mais tar­de enten­di que era a per­fei­ta expres­são das qui­nhen­tas boas famí­li­as cari­o­cas. E já de noi­ti­nha entra­mos numa ave­ni­da que me pare­ceu sinis­tra e fas­ci­nan­te, chei­ran­do for­te a man­gue sexo — como eu reco­nhe­ci aque­le chei­ro aos oito anos? A fábri­ca de Sabão Português, é isso mes­mo? — me impôs res­pei­to no ato. Entendi, por con­ta das pare­des bran­cas e o bra­são pin­ta­do na cha­mi­né, que aque­la não era uma fábri­ca pau­lis­ta­na. Minha mãe, cheia de orgu­lho, nos dis­se que a ave­ni­da tinha o nome do avô dela: Francisco Bicalho, enge­nhei­ro res­pon­sá­vel pela exe­cu­ção do pro­je­to de moder­ni­za­ção do cen­tro do Rio fei­to na ges­tão do pre­fei­to Pereira Passos. Só bem mais tar­de eu sou­be que, assim como fez Haussmann em Paris, meu bisavô tam­bém aju­dou a expul­sar os pobres do cen­tro do Rio. O cen­tro refor­ma­do ficou majes­to­so, mas os pobres vol­ta­ram, como sem­pre retor­na o recal­ca­do, mais dia, menos dia.

O ater­ro ain­da não exis­tia, de modo que pas­sa­mos por ruas e ruas de casas anti­gas, mui­to jun­tas umas das outras — que dife­ren­ça dos ter­re­nos lar­gos das casas pau­lis­ta­nas — e não sei como já está­va­mos em Botafogo numa rua cujo nome bri­lhou para mim como um cris­tal arran­ca­do da pedra: Real Grandeza. Era a casa de minha tia avó Ondina, que hos­pe­da­ria meus avós. Foi então que enten­di que o Rio vivia em outro tem­po para onde nun­ca dei­xei de que­rer vol­tar. Pelo por­tão de madei­ra o car­ro entrou num quin­tal de ter­ra e parou debai­xo de uma das mui­tas man­guei­ras que, tam­bém elas, chei­ra­vam for­te na noi­te. A casa tinha um porão onde mora­va o tio avô sol­tei­ro, Vavá, que em seu quar­ti­nho toca­va vio­lão. Um boê­mio das anti­gas. Na varan­da do pri­mei­ro andar, à qual se che­ga­va por uma esca­da late­ral, apa­re­ceu a irmã de minha avó, seu mari­do e alguns dos tre­ze filhos deles. Não sei se jan­ta­mos ali. Só me lem­bro de ter me esque­ci­do da vida naque­le quin­tal escu­ro como o de uma fazen­da e pen­sar: aqui é o Rio de Janeiro. Minha casa em São Paulo, na épo­ca, tam­bém era gran­de, tam­bém tinha quin­tal onde cabi­am os car­ros, as bici­cle­tas, as cri­an­ças. Também tinha varan­da. Só que o quin­tal era cal­ça­do de pedras por­tu­gue­sas, a varan­da era de lajo­ta, as árvo­res na entra­da eram pinhei­ros — os últi­mos pinhei­ros do bair­ro de Pinheiros, lite­ral­men­te. Das ter­ras do pai de Oswald de Andrade só sobra­ram os pinhei­ros da entra­da da minha casa de infân­cia, der­ru­ba­dos nos anos 80 quan­do o ter­re­no virou esta­ci­o­na­men­to do Pão de Açúcar. Que em São Paulo não é uma mon­ta­nha, é uma cadeia de super­mer­ca­dos. Nossa casa deve ter sido cons­truí­da nos anos 1950. A de minha dia Ondina era do tem­po do impé­rio e eu acha­va que o impé­rio teria acon­te­ci­do, des­de sem­pre fami­li­ar e deca­den­te, na rua Real Grandeza.

Então o Rio de Janeiro era escu­ro e chei­ra­va a flor da man­guei­ra, o Rio tinha casas com porão e esca­das de madei­ra, tinha uma lua cor de madre­pé­ro­la do lado de fora que, do lado de den­tro, apa­re­cia na jane­lo­na de um banhei­ro mai­or do que os que eu conhe­cia e ilu­mi­na­va o mosai­co já gas­to do lin­do piso de ladri­lhos pre­tos e bran­cos. O chei­ro do aque­ce­dor a gás me inti­mi­dou um pou­co: outro chei­ro que nun­ca vai dei­xar de me trans­por­tar para lá, que­ro dizer, para aí, sua cida­de que é mais minha do que pos­so ima­gi­nar por escri­to.

Que impac­to teve a praia depois des­sa che­ga­da? Quase nenhum. Para uma cri­an­ça, as prai­as todas se pare­cem, e eu pas­sa­va as féri­as em São Vicente e Guarujá. Das manhãs em Copacabana, ficou a impres­são de uma luz inten­sa a pon­to de se tor­nar des­con­for­tá­vel, tal­vez por asso­ci­a­ção après coup, com a inso­la­ção que o Duto teve na noi­te do pri­mei­ro ou segun­do dia. Havia algum tipo de fal­ta de comi­da, e minha mãe com­prou car­ne de cava­lo, que em nos­sa ima­gi­na­ção tinha gos­to de car­ne de baleia. Ou seria de baleia mes­mo? O Zoológico onde fomos pas­se­ar pare­ceu lon­ge demais, per­to de um lugar cujo nome era um paren­te da Real Grandeza: a Quinta da Boa Vista. Nomes, chei­ros: será fei­ta dis­so a memó­ria que impreg­na para sem­pre nos­sa rela­ção com os luga­res? Será fei­to dis­so o vas­to amor com que nos impreg­na o mun­do?

Seus poe­mas podem me res­pon­der isso.

Um bei­jo, Rita

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