O rosto humano em três filmes da mostra de SP

No cinema

20.10.14

O tem­po é cur­to, os fil­mes são mui­tos. Entre os vis­tos no fim de sema­na na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, três não podem dei­xar de ser des­ta­ca­dos, comen­ta­dos, reco­men­da­dos: Winter sle­ep, do tur­co Nuri Bilge Ceylan, Acima das nuvens, do fran­cês Olivier Assayas, e Dois dias, uma noi­te, dos bel­gas Jean-Pierre e Luc Dardenne.

Se for pre­ci­so optar por ape­nas um, o mais indi­ca­do é Winter sle­ep, não por­que seja neces­sa­ri­a­men­te o melhor (e acho que é), mas por­que os outros devem entrar em car­taz em algum momen­to no cir­cui­to comer­ci­al, e o fil­me tur­co, de mais de três horas de dura­ção, ain­da não tem dis­tri­bui­dor no Brasil.

As três horas pas­sam de modo qua­se imper­cep­tí­vel, dada a habi­li­da­de com que o dire­tor Ceylan (o mes­mo do acla­ma­do Era uma vez na Anatólia) nos con­duz por sua tra­ma sutil de rela­ções fami­li­a­res e soci­ais, numa pai­sa­gem de bele­za insó­li­ta, a pedre­go­sa Anatólia cen­tral.

É ali, numa daque­las estra­nhas cons­tru­ções esca­va­das na rocha, à manei­ra de caver­nas, que Aydin (Haluk Bilginer), ex-ator de meia-ida­de, admi­nis­tra seu hotel e con­vi­ve com sua jovem mulher (Melisa Sözen) e com a irmã recém-divor­ci­a­da (Demet Akbag).

Rústico, eru­di­to e mani­pu­la­dor

Aydin é um per­so­na­gem fas­ci­nan­te: de ori­gem rús­ti­ca e ao mes­mo tem­po de cul­tu­ra refi­na­da, ele dis­cu­te gran­des temas – reli­gião, éti­ca, pro­gres­so, tra­di­ção – em arti­gos para um jor­nal local, enquan­to pre­pa­ra sua gran­de obra, uma his­tó­ria do tea­tro tur­co, da qual ain­da não escre­veu uma úni­ca linha. Pensador desen­can­ta­do, a um pas­so do cinis­mo, Aydin é sobre­tu­do um mani­pu­la­dor dos sen­ti­men­tos e emo­ções daque­les que o rodei­am, espe­ci­al­men­te a espo­sa e a irmã, mas tam­bém os empre­ga­dos, os cam­po­ne­ses e inqui­li­nos que gra­vi­tam à sua vol­ta, como ser­vos à vol­ta do seu senhor.

Cena de Winter Sleep

No ambi­en­te do hotel, ora acon­che­gan­te, ora opres­si­vo, quan­do não as duas coi­sas simul­ta­ne­a­men­te, Ceylan cons­trói, com uma mise-en-scè­ne ins­pi­ra­da e um con­tro­le extra­or­di­ná­rio da luz, um dra­ma na fron­tei­ra entre o psi­co­ló­gi­co, o soci­al e o meta­fí­si­co. Não foi por aca­so que ganhou a Palma de Ouro e o prê­mio da crí­ti­ca no fes­ti­val de Cannes des­te ano.

Acima das nuvens

Acima das nuvens, por sua vez, dá pros­se­gui­men­to à refle­xão cine­ma­to­grá­fi­ca de Olivier Assayas sobre as trans­for­ma­ções e impas­ses da soci­e­da­de con­tem­po­râ­nea, em espe­ci­al a euro­peia. 

Maria Enders (Juliette Binoche), con­sa­gra­da atriz de tea­tro e cine­ma, é con­vi­da­da a atu­ar numa nova mon­ta­gem da peça com que ini­ci­ou sua car­rei­ra, vin­te anos antes. Só que, des­ta vez, ela deve fazer o papel da exe­cu­ti­va qua­ren­to­na sedu­zi­da por uma jovem esta­giá­ria, e não o da esta­giá­ria, que ela encar­nou na ence­na­ção ori­gi­nal.

Aos pou­cos, a rela­ção de Maria com sua assis­ten­te nor­te-ame­ri­ca­na (Kristen Stewart) refle­te ou refra­ta o jogo ambí­guo entre as duas per­so­na­gens da peça. A equa­ção se com­pli­ca com a entra­da em cena da tur­bu­len­ta estre­la em ascen­são (Chloë Grace Moretz) que fará o papel da esta­giá­ria sedu­to­ra.

Com sua pre­ci­são e ele­gân­cia habi­tu­ais, Assayas “fala” (audi­o­vi­su­al­men­te, cla­ro) de vári­as coi­sas ao mes­mo tem­po: enve­lhe­ci­men­to, rela­ções pes­so­ais de poder, dia­lé­ti­ca entre arte e mer­ca­do, entre cul­tu­ra huma­nis­ta euro­peia e cul­tu­ra pop ame­ri­ca­na e, sobre­tu­do, a con­ta­mi­na­ção ine­vi­tá­vel de todas as esfe­ras da vida pela lógi­ca do espe­tá­cu­lo e da cele­bri­da­de.

Faz par­te da saga­ci­da­de do cine­as­ta embu­tir na pró­pria maté­ria de seu fil­me essas ten­sões, ao fazer con­tra­ce­nar com a vene­rá­vel Binoche uma estre­li­nha do momen­to como Kirsten Stewart (da saga Crepúsculo). Há ecos sutis de A mal­va­da (de Joseph Mankiewicz), de As lágri­mas amar­gas de Petra von Kant (de Fassbinder) e de Horas de verão, do pró­prio Assayas, dire­tor que incor­po­ra natu­ral­men­te a eru­di­ção ciné­fi­la em seu pro­ces­so de cri­a­ção.

Dois dias, uma noi­te

Por fim che­ga­mos a Dois dias, uma noi­te, mais novo reben­to do huma­nis­mo radi­cal dos irmãos Dardenne. Aqui, com a con­cen­tra­ção tem­po­ral expres­sa no pró­prio títu­lo, acom­pa­nha­mos a saga da ope­rá­ria bel­ga Sandra (Marion Cotillard) para ten­tar man­ter o seu empre­go. Para isso, ela tem de con­ven­cer seus cole­gas de fábri­ca a abrir mão de um bônus de mil euros. 

Alguns crí­ti­cos ques­ti­o­na­ram a veros­si­mi­lhan­ça da situ­a­ção e do dra­ma de Sandra, mas o que impor­ta aqui é a ver­da­de essen­ci­al por trás do entre­cho: uma con­jun­tu­ra (ou um sis­te­ma?) soci­al de escas­sez do empre­go, em que os tra­ba­lha­do­res são joga­dos uns con­tra os outros num sal­ve-se quem puder em que “cada um cui­da de si e irmão des­co­nhe­ce irmão”, para dizer como Paulinho da Viola.

O que inte­res­sa aos Dardenne é exa­mi­nar, nes­se con­tex­to adver­so, o espa­ço que sobra para valo­res e sen­ti­men­tos como a soli­da­ri­e­da­de, a com­pai­xão, a fra­ter­ni­da­de. A fra­se que mais se ouve no fil­me é “ponha-se no meu lugar por um momen­to”, e é dis­so que se tra­ta, jus­ta­men­te: a facul­da­de, que esta­mos per­den­do, de nos colo­car no lugar do outro, de viver o seu dra­ma.

Há algo de reli­gi­o­so nes­sa bus­ca, mas de uma reli­gião sem ilu­sões, sem dog­mas, sem caro­li­ce. De pés no chão, lite­ral­men­te, pois, com seu esti­lo habi­tu­al de acom­pa­nhar os per­so­na­gens de per­to, de pre­fe­rên­cia com a câme­ra na mão, os Dardenne nos fazem seguir a pere­gri­na­ção de Sandra por ruas de ter­ra, cor­re­do­res, con­jun­tos habi­ta­ci­o­nais, ofi­ci­nas, mer­ce­a­ri­as, becos – luga­res des­gla­mo­ri­za­dos onde pul­sam os peque­nos dra­mas de um gran­de cine­ma.

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