O sentido do humano

No cinema

30.10.15

Na reta final da 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, há alguns fil­mes que não podem dei­xar de ser vis­tos. A seguir algu­mas notas apres­sa­das sobre eles.

O botão de péro­la, de Patricio Guzmán

Segunda par­te de uma tri­lo­gia que o dire­tor pre­ten­de dedi­car à geo­gra­fia (físi­ca, huma­na, polí­ti­ca) do Chile. Falou do deser­to em Nostalgia da luz, ago­ra fala da água, isto é, da exten­sa cos­ta chi­le­na do Pacífico. O pró­xi­mo será cen­tra­do na cor­di­lhei­ra.

Mais uma vez repe­te-se o mila­gre de Nostalgia: em ima­gens lím­pi­das, amar­ra­das pela locu­ção sere­na e caden­ci­a­da do pró­prio cine­as­ta e por depoi­men­tos con­tun­den­tes, entre­la­çam-se a ciên­cia, a his­tó­ria, a polí­ti­ca e a poe­sia. Um botão de madre­pé­ro­la conec­ta a his­tó­ria de desa­pa­re­ci­dos polí­ti­cos lan­ça­dos ao mar pela dita­du­ra de Pinochet e a fan­tás­ti­ca jor­na­da de um nati­vo da Patagônia, leva­do à Inglaterra e tor­na­do gen­tle­man por um tem­po, no perío­do colo­ni­al. Do mais minús­cu­lo obje­to ao cos­mo inco­men­su­rá­vel, do minu­to aos milê­ni­os, uma arre­ba­ta­do­ra expe­ri­ên­cia audi­o­vi­su­al da qual tal­vez sai­a­mos um pou­co menos embo­ta­dos e obtu­sos.

Son of Saul, de László Nemes

Ganhador do prê­mio do júri em Cannes, este lon­ga de estreia do hún­ga­ro Nemes não é “o ené­si­mo fil­me sobre o Holocausto”, mas algo total­men­te diver­so, ao mes­mo tem­po fas­ci­nan­te e qua­se insu­por­tá­vel.

O “enre­do”, por si só, é ter­rí­vel: em Auschwitz, Saul Ausländer, mem­bro do Sonderkommando – gru­po de pri­si­o­nei­ros judeus encar­re­ga­dos de con­du­zir outros pre­sos à câma­ra de gás e remo­ver seus cor­pos para cre­ma­ção – encon­tra entre os mor­tos um garo­to ain­da com vida e jul­ga que ele pos­sa ser seu filho. Obstina-se então na ten­ta­ti­va insa­na de seques­trar o cor­po da cri­an­ça e encon­trar um rabi­no para pro­pi­ci­ar-lhe um enter­ro de acor­do com os ritu­ais judai­cos.

O que tor­na Son of Saul uma aven­tu­ra úni­ca é o fato de tudo ser mos­tra­do com uma câme­ra em per­ma­nen­te movi­men­to, sem­pre mui­to pró­xi­ma do cor­po do pro­ta­go­nis­ta, com escas­sa pro­fun­di­da­de de cam­po, de tal modo que tudo ao seu redor fica caó­ti­co e indis­tin­to. Imagens de um tur­bu­len­to infer­no por onde erra um indi­ví­duo empe­nha­do numa últi­ma ten­ta­ti­va de sen­tir-se huma­no.

Desde Allá, de Lorenzo Vigas

Outro vigo­ro­so lon­ga de estreia, ven­ce­dor do Leão de Ouro em Veneza. Curiosamente, Lorenzo Vigas recor­re aqui a um pro­ce­di­men­to seme­lhan­te ao de Son of Saul, “colan­do” a câme­ra a um per­so­na­gem (nem sem­pre o pro­ta­go­nis­ta) que se des­lo­ca pela cida­de de Caracas. O foco “raso” faz com que tudo o mais fique nebu­lo­so, impre­ci­so.

Esse recur­so for­mal, que é dife­ren­te da “câme­ra sub­je­ti­va”, pois incor­po­ra em qua­dro o ros­to (ou a cabe­ça) e par­te do cor­po do ator, foi radi­ca­li­za­do pelos irmãos Dardenne em O filho. Aqui, ele ser­ve para con­cen­trar o dra­ma na rela­ção ambí­gua e cam­bi­an­te entre dois per­so­na­gens, seus cor­pos, seus olha­res: um homem abas­ta­do de meia-ida­de (Alfredo Castro) e um peque­no delin­quen­te juve­nil (Luis Silva). Uma rela­ção de poder medi­a­da pelo sexo e pelo dinhei­ro, na qual nun­ca se des­ve­lam total­men­te as moti­va­ções dos per­so­na­gens – e com um des­fe­cho impre­vis­to, daque­les que ilu­mi­nam retros­pec­ti­va­men­te tudo o que nos foi mos­tra­do até então.

Os cam­pos vol­ta­rão, de Ermanno Olmi

Homenageado pela Mostra este ano com o Prêmio Humanidades, o vete­ra­no dire­tor ita­li­a­no de O pos­to e A árvo­re dos taman­cos está de vol­ta com um fil­me não menos que subli­me. Ambientado na Primeira Guerra, numa trin­chei­ra cober­ta de neve, que a des­sa­tu­ra­ção cro­má­ti­ca reduz qua­se ao pre­to e bran­co, o fil­me se ins­pi­ra em rela­tos do pai do dire­tor e con­ta o dra­ma de um punha­do de sol­da­dos cer­ca­dos pela mor­te e pela incer­te­za.

Dada a ence­na­ção pre­ci­sa, a for­ça poé­ti­ca das ima­gens, ain­da que ter­rí­veis, o fil­me trans­cen­de o tema da guer­ra para ques­ti­o­nar a fra­gi­li­da­de huma­na, ou, mais pre­ci­sa­men­te, a fra­gi­li­da­de do huma­no em cada indi­ví­duo e na espé­cie como um todo. “O homem é um ani­mal feio que rola pelo mun­do sem poder parar”, diz um letrei­ro final, citan­do um autor cujo nome não regis­trei. A neve que cai indi­fe­ren­te sobre os vivos e os mor­tos de Os cam­pos vol­ta­rão reme­te ao mes­mo tem­po ao con­so­lo do tem­po cícli­co do con­to “Os mor­tos”, de Joyce, e à pun­gen­te per­gun­ta de Primo Levi no títu­lo de um de seus livros mais famo­sos: “É isto um homem?”

Outros des­ta­ques

Além dos “obri­ga­tó­ri­os” des­ta­ca­dos aci­ma e no tex­to ante­ri­or da colu­na, há na Mostra de São Paulo inú­me­ros outros fil­mes que mere­cem ser vis­tos, entre eles: o rome­no Aferim!, de Radu Jude, sobre a caça­da a um ciga­no fora­gi­do, na rude e vio­len­ta Romênia do sécu­lo XIX; o den­so e essen­ci­al dra­ma rural colom­bi­a­no A ter­ra e a som­bra, de César Augusto Acevedo, ganha­dor da Caméra d’Or em Cannes; o tam­bém rome­no Boxe, de Florin Serban, estra­nha his­tó­ria de amor entre uma atriz e um jovem aspi­ran­te a pugi­lis­ta.

Tudo isso sem falar de apos­tas sem erro, como os clás­si­cos res­tau­ra­dos pela Film Foundation coman­da­da por Martin Scorsese, os fil­mes de José Mojica e de Rogério Sganzerla e bra­si­lei­ros iné­di­tos de Julio Bressane (Garoto), Bruno Safadi (O pre­fei­to), Ruy Guerra (Quase memó­ria), Gabriel Mascaro (Boi neon), Maria Augusta Ramos (Futuro junho e Seca), Aly Muritiba (Para minha ama­da mor­ta), Marina Person (Califórnia), Allan Ribeiro (Mais do que eu pos­sa me reco­nhe­cer), Petra Costa (Olmo e a gai­vo­ta),Vinicius Coimbra (A flo­res­ta que se move) e Chico Faganello (Oração do amor sel­va­gem), entre mui­tos outros.

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