O som ao redor e a primavera pernambucana

No cinema

24.08.12

O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho, é um fil­me assom­bro­so, nos melho­res sen­ti­dos que a pala­vra pos­sa suge­rir. Mas não se tra­ta de um epi­fenô­me­no, de um mero pro­du­to do aca­so. Por um lado, ele é resul­ta­do do pro­ces­so de ama­du­re­ci­men­to artís­ti­co do dire­tor reci­fen­se, que já tinha mos­tra­do inven­ti­vi­da­de e com­pe­tên­cia em cur­tas como Vinil ver­deEletrodoméstica Recife frio e no docu­men­tá­rio Críticos.

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Mais que isso, o fil­me, que estreia hoje (24 de agos­to) em Nova York e foi pre­mi­a­do em Roterdã e em Gramado, pode ser vis­to como uma depu­ra­da sín­te­se do vigo­ro­so cine­ma pro­du­zi­do em Pernambuco nos últi­mos quin­ze anos. Vou ten­tar expli­car a afir­ma­ção.

O moder­no e o arcai­co

Se há algo em comum entre os fil­mes tão vari­a­dos des­sa pro­du­ção, é o fato de con­ju­ga­rem de modo audaz a tra­di­ção e a moder­ni­da­de. Isso fica par­ti­cu­lar­men­te evi­den­te em obras como Baile per­fu­ma­doÁrido movieCinema, aspi­ri­nas e uru­bus, Deserto feliz Baixio das bes­tas. O que move todos eles, no fun­do, é a ten­são, ou antes a fric­ção, entre a pre­sen­ça no mun­do urba­no glo­ba­li­za­do e os resquí­ci­os de uma cul­tu­ra pro­fun­da­men­te vio­len­ta e patri­ar­cal. Os sig­nos do con­tem­po­râ­neo e a per­sis­tên­cia do arcai­co, tudo ao mes­mo tem­po ago­ra. Não foi à toa que se fez um para­le­lo entre o Árido movie e o man­gue beat, que rea­li­za uma ope­ra­ção aná­lo­ga na músi­ca popu­lar.

O som ao redor arti­cu­la essa equa­ção de modo mais sutil e menos estri­den­te que a mai­or par­te da fil­mo­gra­fia per­nam­bu­ca­na. É como se o ter­re­no já tives­se sido des­bas­ta­do — e ao mes­mo tem­po seme­a­do — para o adven­to des­te fil­me esplên­di­do.

Pois bem, mas de que tra­ta O som ao redor? Na super­fí­cie, é a crô­ni­ca da vida coti­di­a­na de diver­sos mora­do­res de uma rua de clas­se média de Recife. No pas­sa­do uma bucó­li­ca e arbo­ri­za­da rua de resi­dên­ci­as tér­re­as e sobra­dos, hoje é domi­na­da por gran­des pré­di­os de apar­ta­men­tos. Uma das pou­cas casas que sub­sis­te é a do anti­go dono dos ter­re­nos de qua­se toda a rua, o velho usi­nei­ro Francisco (W. J. Solha). Seu neto João (Gustavo Jahn), que mora na mes­ma qua­dra e aca­ba de vol­tar de uma tem­po­ra­da de sete anos na Alemanha, tra­ba­lha como cor­re­tor de imó­veis.

Bastariam esses dois per­so­na­gens, avô arcai­co e neto cos­mo­po­li­ta, para subli­nhar as mudan­ças — cul­tu­rais, soci­ais, arqui­tetô­ni­cas — vivi­das nos últi­mos tem­pos por Recife, uma cida­de em ver­ti­gi­no­so pro­ces­so de ver­ti­ca­li­za­ção. Mas, para além dos peque­nos atri­tos entre mora­do­res, e des­tes com os tra­ba­lha­do­res que os ser­vem (guar­da­do­res de car­ros, domés­ti­cas, por­tei­ros, entre­ga­do­res), intro­duz-se um novo ele­men­to per­tur­ba­dor, a che­ga­da de uma equi­pe de vigi­lân­cia urba­na pri­va­da, que se ins­ta­la na rua com seus wal­kie-tal­ki­es, seus celu­la­res e o dis­cur­so de efi­ci­ên­cia de seu che­fe (Irandhir Santos). Há um dra­ma san­gren­to fer­men­tan­do sob a super­fí­cie dos dias e das noi­tes.

Os ruí­dos como nar­ra­ção

A faça­nha mai­or de Kleber Mendonça é radi­o­gra­far toda uma situ­a­ção soci­al sem per­der de vis­ta a sin­gu­la­ri­da­de irre­du­tí­vel de seus per­so­na­gens (que são gen­te de car­ne e osso, não “tipos”), cap­tan­do o que há de sig­ni­fi­ca­ti­vo em cada ges­to e, cla­ro, em cada ruí­do.

O dese­nho de som do fil­me (assi­na­do pelo pró­prio dire­tor) é excep­ci­o­nal: os ruí­dos con­tam o dia a dia dos per­so­na­gens e da cida­de, vazam de um ambi­en­te a outro, de uma famí­lia a outra, fomen­tam dese­jos e ódi­os. O lati­do con­tí­nuo de um cachor­ro per­meia toda a nar­ra­ti­va e aju­da a mol­dar a vida da dona de casa Bia (Maeve Jinkings), tal­vez a per­so­na­gem pela qual o fil­me mos­tra mais cari­nho. As ima­gens mais ori­gi­nais são as que a fla­gram em peque­nos ges­tos secre­tos: ao soprar a fuma­ça de um base­a­do na man­guei­ra de um aspi­ra­dor de pó, ao usar a máqui­na de lavar rou­pas como vibra­dor, ao incrus­tar soní­fe­ros num bife para dar ao cão da vizi­nha.

A cons­tru­ção nar­ra­ti­va é de uma fluên­cia notá­vel. Passa-se de um per­so­na­gem a outro, de um epi­só­dio a outro, com a mai­or desen­vol­tu­ra. Um exem­plo entre mui­tos: João, o jovem cor­re­tor, mos­tra um apar­ta­men­to vazio a uma cli­en­te; a filha da mulher vaga pelos cômo­dos, che­ga ao ter­ra­ço e vê um garo­to jogan­do bola sozi­nho no pátio do pré­dio vizi­nho; a bola do garo­to sal­ta o muro e cai no pré­dio onde está a meni­na; como nin­guém devol­ve a bola, o meni­no vol­ta frus­tra­do para casa; a câme­ra o acom­pa­nha e dá iní­cio a um novo micro­e­pi­só­dio, aban­do­nan­do João e sua cli­en­te.

Grão de estra­nhe­za

Por fim, há que des­ta­car o grão de estra­nhe­za inse­ri­do por Kleber Mendonça em deter­mi­na­dos pon­tos de sua his­tó­ria. A cer­ta altu­ra, por exem­plo, vemos uma infi­ni­da­de de vul­tos inva­din­do uma casa. Pode ser só um sonho da filhi­nha de Bia, mas pode não ser. Em outra pas­sa­gem, a água da cacho­ei­ra em que João se banha com o avô e a namo­ra­da se trans­for­ma em san­gue. Corta para o pla­no seguin­te em que vemos João abrir os olhos. Terá sido uma visão? E o que dizer do vul­to que se esguei­ra na casa em que o che­fe dos vigi­lan­tes tem um encon­tro fur­ti­vo com uma faxi­nei­ra? Soltos, incon­clu­si­vos, esses bre­ves pla­nos pro­vo­cam uma expec­ta­ti­va que não se resol­ve e não se paci­fi­ca, são fagu­lhas que agre­gam ten­são à nar­ra­ti­va.

Entre as cenas mais ins­pi­ra­das, há a visi­ta que João e a namo­ra­da fazem às ruí­nas de um cine­ma que fun­ci­o­na­va jun­to ao enge­nho do avô. Restaram ape­nas a facha­da e par­te das pare­des. Dentro, o mato tomou con­ta. Os sons (sem­pre eles) de fil­mes anti­gos inva­dem o ambi­en­te e intro­du­zem fan­tas­mas — ape­nas ima­gi­na­dos — a inte­ra­gir com os dois jovens.

É essa cren­ça na potên­cia ima­gi­na­ti­va e trans­fi­gu­ra­do­ra do cine­ma que Kleber Mendonça nos ofe­re­ce com seu fil­me, que deve entrar em car­taz no país em novem­bro. Para quem se inte­res­sar, ontem (dia 23 de agos­to) foi publi­ca­da uma crí­ti­ca no New York Times.

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