O som sutil e a fúria contida

No cinema

04.01.13

Entra final­men­te em car­taz o fil­me bra­si­lei­ro mais incen­sa­do dos últi­mos anos, O som ao redor. Premiado em fes­ti­vais no Brasil e no exte­ri­or, elo­gi­a­do una­ni­me­men­te pela crí­ti­ca, o lon­ga de Kleber Mendonça Filho entrou nas lis­tas de melho­res do ano do New York Times e da Film Comment, entre outras publi­ca­ções de pres­tí­gio.

Todo esse auê se jus­ti­fi­ca. É um fil­me que, como pou­cos, radi­o­gra­fa sua épo­ca sem per­der de vis­ta o pro­ces­so his­tó­ri­co de lon­ga dura­ção em que ela se inse­re. Não se per­de nas apa­rên­ci­as do pre­sen­te, não feti­chi­za o novo, mas, pelo con­trá­rio, reve­la a pre­sen­ça do arcai­co no moder­no, a rei­te­ra­ção sob novas for­mas de um mode­lo civi­li­za­tó­rio ao mes­mo tem­po per­ver­so e fas­ci­nan­te — tudo isso sob a apa­rên­cia de uma pro­sai­ca crô­ni­ca urba­na ambi­en­ta­da num bair­ro reci­fen­se de clas­se média.

Escrevi há alguns meses sobre o fil­me aqui e não que­ro me repe­tir. Só acres­cen­to um dado que àque­la altu­ra eu des­co­nhe­cia e que pode aju­dar a enri­que­cer a lei­tu­ra do fil­me. Na crí­ti­ca, eu qua­li­fi­ca­va de estra­nhas e mis­te­ri­o­sas as apa­ri­ções fuga­zes de um garo­to negro — num telha­do, numa casa vazia, no alto de um árvo­re. Depois fiquei saben­do que se tra­ta­va de alu­sões ao “meni­no-ara­nha” que povo­ou a crô­ni­ca poli­ci­al de Recife na déca­da de 90: o garo­to Tiago João da Silva, que des­de os nove anos de ida­de esca­la­va com as pró­pri­as mãos pré­di­os resi­den­ci­ais da cida­de para assal­tar apar­ta­men­tos. Tiago foi deti­do e fugiu vári­as vezes, até ser mor­to a tiros aos 17 anos, em 2005.

Saci atu­a­li­za­do

O curi­o­so é que no iní­cio de 2012, quan­do O som ao redor já esta­va pron­to, sur­giu em Recife outro garo­to com as mes­mas carac­te­rís­ti­cas, o que levou a impren­sa a reme­mo­rar o caso. No con­tex­to do fil­me de Kleber Mendonça, esse fait divers de pági­na poli­ci­al ganha um sen­ti­do his­tó­ri­co-soci­al pode­ro­so: o medo da clas­se média e das eli­tes bran­cas dian­te da ame­a­ça difu­sa de inva­são do “seu” espa­ço pelos pre­tos e pobres. É, de cer­to modo, uma atu­a­li­za­ção urba­na da len­da do trai­ço­ei­ro e impre­vi­sí­vel saci-pere­rê.

A refor­çar o viés polí­ti­co des­sa fabu­la­ção, numa cena do fil­me uma meni­na de clas­se média levan­ta de sua cama no meio da noi­te, vai até a jane­la e vê uma hor­da de meni­nos-ara­nha se espa­lhan­do pelos telha­dos e árvo­res do bair­ro. Não sabe­mos se é uma visão, um sonho ou uma ima­gem “real” — o fato é que pou­cas cenas sin­te­ti­zam de for­ma tão efi­ci­en­te o momen­to que vive­mos, de ascen­são dos que não tinham nada e de apre­en­são dos que têm algu­ma coi­sa em face ao que pode acon­te­cer.

Duas últi­mas obser­va­ções sobre O som ao redor: ape­sar de seu ine­gá­vel valor cul­tu­ral, ele está entran­do em rela­ti­va­men­te pou­cas salas pelo Brasil afo­ra. No Rio, por exem­plo, entra em qua­tro cine­mas, enquan­to De per­nas pro ar 2 está em mais de cin­quen­ta. Sinal dos tem­pos. Além dis­so, outro peri­go ron­da o fil­me: o das fal­sas expec­ta­ti­vas. Depois de tan­to aplau­so e elo­gio, mui­tos espec­ta­do­res tal­vez entrem no cine­ma espe­ran­do ver algo espe­ta­cu­lo­so (como foram Cidade de Deus Tropa de eli­te, por exem­plo). E a qua­li­da­de mai­or de O som ao redor é, jus­ta­men­te, a suti­le­za, o sub­tom, a entre­li­nha.

Janeiro his­tó­ri­co

A acre­di­tar nos cro­no­gra­mas das dis­tri­bui­do­ras, este será o melhor mês de lan­ça­men­tos nos nos­sos cine­mas em mui­tos anos, tal­vez déca­das. Estão pre­vis­tos, entre outros, os seguin­tes títu­los: Django livre (Quentin Tarantino), Amour (Michael Haneke), Além das mon­ta­nhas (Cristian Mungiu), César deve mor­rer (Paolo e Vittorio Taviani), Lincoln (Steven Spielberg), O mes­tre (Paul Thomas Anderson), A hora mais escu­ra (Kathryn Bigelow), Killer Joe (William Friedkin), Querida, vou com­prar cigar­ros e já vol­to (Gastón Duprat e Mariano Cohn) e País do dese­jo (Paulo Caldas). Bom pro­vei­to.

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