O sonho recauchutado

No cinema

13.01.17

La la land che­ga aos cine­mas bra­si­lei­ros emba­la­do por uma pen­ca de glo­bos de ouro e uma maci­ça divul­ga­ção – paga e gra­tui­ta – na mídia. A pri­mei­ra coi­sa a fazer é ten­tar impe­dir que tama­nho estar­da­lha­ço inter­fi­ra na frui­ção e apre­ci­a­ção do fil­me em si, bem como de sua inser­ção na his­tó­ria do cine­ma nor­te-ame­ri­ca­no, em par­ti­cu­lar no gêne­ro musi­cal.

Afinal, o fil­me do jovem dire­tor Damien Chazelle se apre­sen­ta como um mis­to de reno­va­ção, home­na­gem e lei­tu­ra crí­ti­ca do musi­cal hollywo­o­di­a­no, um dos pila­res da “fábri­ca de sonhos” e de toda a cul­tu­ra de mas­sa ame­ri­ca­na.

Já as pri­mei­ras ima­gens são elo­quen­tes, para não dizer osten­si­vas. Num ele­va­do com­ple­ta­men­te con­ges­ti­o­na­do – infer­no coti­di­a­no dos mora­do­res de qual­quer metró­po­le – moto­ris­tas e pas­sa­gei­ros dei­xam seus car­ros e pas­sam a dan­çar ale­gre­men­te, numa core­o­gra­fia pre­ci­sa, ela­bo­ra­da e, no fun­do, inó­cua. Somada à sequên­cia seguin­te, de can­to­ria e dan­ça no apar­ta­men­to que a pro­ta­go­nis­ta Mia (Emma Stone) divi­de com um punha­do de ami­gas, essa aber­tu­ra faz temer pelo pior, isto é, por uma arti­fi­ci­a­li­da­de exces­si­va e des­pro­po­si­ta­da mes­mo para um gêne­ro que pres­su­põe o arti­fí­cio e uma cer­ta fal­ta de pro­pó­si­to.

O coti­di­a­no e o sonho

Os gran­des musi­cais da era clás­si­ca hollywo­o­di­a­na, mes­mo os mais deli­ran­tes, qua­se sem­pre se base­a­ram num equi­lí­brio entre o coti­di­a­no e o sonho, o real e a fan­ta­sia. Quando os ato­res se punham a dan­çar e o cená­rio a se mover magi­ca­men­te, tin­gin­do-se de cores fal­sas, geral­men­te o espec­ta­dor já esta­va envol­vi­do com os per­so­na­gens, seus dese­jos, temo­res e aspi­ra­ções. O iní­cio de La la land, ao con­trá­rio, pare­ce suge­rir uma fan­ta­sia que bro­ta do nada e gira em fal­so sobre si mes­ma.

Felizmente, porém, a nar­ra­ti­va em segui­da ganha subs­tân­cia, os pro­ta­go­nis­tas adqui­rem car­ne, osso e per­so­na­li­da­de, o espec­ta­dor (pelo menos este que aqui escre­ve) entra no flu­xo.

O par cen­tral é o de tan­tos outros fil­mes: Mia é aspi­ran­te a atriz e tra­ba­lha numa lan­cho­ne­te de estú­dio, Sebastian (Ryan Gosling) toca pia­no num res­tau­ran­te care­ta e sonha com sua pró­pria casa notur­na de jazz. Também como em tan­tos outros fil­mes, a pri­mei­ra apro­xi­ma­ção entre eles é de atri­to, desa­cor­do, anti­pa­tia. Sabemos des­de o iní­cio onde isso vai dar. A ques­tão é saber como os rea­li­za­do­res vão lidar com os dados des­sa equa­ção, como vão mani­pu­lar os cli­chês à dis­po­si­ção.

E o que cha­ma a aten­ção é jus­ta­men­te o modo como Hollywood, de tem­pos em tem­pos, a pre­tex­to de ques­ti­o­nar ou pro­ble­ma­ti­zar seus cli­chês, aca­ba por rea­fir­má-los. Em La la land essa ope­ra­ção abar­ca alguns dos mais recor­ren­tes luga­res-comuns do ima­gi­ná­rio ame­ri­ca­no: a máxi­ma de que vale a pena “acre­di­tar em seus sonhos”, a ideia de que no meio da mul­ti­dão há alguém espe­ci­al para cada pes­soa, o mito do self made man (ou woman).

Não há nada de mui­to revo­lu­ci­o­ná­rio aqui, por­tan­to. Um modo mais crí­ti­co e menos ide­a­li­za­do de abor­dar esses cli­chês apa­re­ce, por exem­plo, em No fun­do do cora­ção, de Francis Coppola, ou em New York, New York, de Martin Scorsese, para citar duas outras ten­ta­ti­vas de reno­va­ção do musi­cal.

Diálogo com a tra­di­ção

Mas isso não quer dizer que La la land não desen­vol­va um diá­lo­go cri­a­ti­vo e inte­res­san­te com a tra­di­ção do gêne­ro e do cine­ma ame­ri­ca­no em geral. As refe­rên­ci­as são inú­me­ras, mul­ti­pli­can­do as cama­das de lei­tu­ra. Além das alu­sões explí­ci­tas a vári­os clás­si­cos, há suges­tões um pou­co mais sutis. Um exem­plo é a cena em que, enquan­to pro­cu­ram o car­ro de Mia ao final de uma fes­ta ves­per­ti­na, com a cida­de de Los Angeles ao fun­do, ela e Sebastian pas­sam de repen­te da cami­nha­da à dan­ça, lem­bran­do uma cena aná­lo­ga entre Fred Astaire e Cyd Charisse em A roda da for­tu­na. Quando con­ver­sam cami­nhan­do por uma rua do estú­dio, com suas cons­tru­ções ceno­grá­fi­cas, os pro­ta­go­nis­tas fazem pen­sar em William Holden e Nancy Olson numa cena simi­lar de Crepúsculo dos deu­ses.

Na bela sequên­cia em que o casal inva­de à noi­te o pla­ne­tá­rio vazio, há a home­na­gem expres­sa a uma cena céle­bre de Juventude trans­vi­a­da, mas tam­bém, tal­vez, uma pis­ca­de­la de olho a um fil­me mais recen­te, Magia ao luar, de Woody Allen, em que há uma pas­sa­gem român­ti­ca num obser­va­tó­rio astronô­mi­co, pro­ta­go­ni­za­da pela mes­ma Emma Stone.

Uma cha­ve inte­res­san­te para enten­der a rela­ção de La la land com a tra­di­ção tal­vez este­ja no diá­lo­go entre Sebastian, cul­tor nos­tál­gi­co, qua­se ana­crô­ni­co, do jazz tra­di­ci­o­nal, e um par­cei­ro músi­co mais pop (John Legend), que defen­de uma moder­ni­za­ção do gêne­ro para sua sobre­vi­vên­cia. O fil­me de Damien Chazelle pare­ce hesi­tar entre as duas pos­tu­ras. Alcança seus melho­res momen­tos, a meu ver, quan­do arris­ca voo pró­prio, beben­do na tra­di­ção mas des­co­lan­do-se de suas con­ven­ções, como na bela sequên­cia de “rea­li­da­de alter­na­ti­va”, em que, duran­te a exe­cu­ção de uma can­ção num clu­be notur­no, des­fi­la pela tela toda uma “vida que pode­ria ter sido”.

Essa facul­da­de de sonhar com pelo menos um dos pés no chão coti­di­a­no é o que o gran­de musi­cal hollywo­o­di­a­no nos pro­pi­ci­ou de melhor, e que La la land oca­si­o­nal­men­te res­ga­ta.

Cabe uma últi­ma pala­vra sobre a esco­lha dos dois pro­ta­go­nis­tas. Emma Stone e Ryan Gosling têm, logo de cara, a van­ta­gem de ser ato­res caris­má­ti­cos sem exces­so de bele­za ou de bri­lho. Não che­gam a ser ter­ra a ter­ra como o Frederic Forrest e a Teri Garr de O fun­do do cora­ção, mas são qua­se “gen­te como a gen­te”, além de bons ato­res que can­tam e dan­çam de modo mais do que satis­fa­tó­rio, des­de que não os com­pa­re­mos a Gene Kelly e Cyd Charisse. Há, ade­mais, um curi­o­so e posi­ti­vo con­tras­te entre o modo de atu­ar dos dois: enquan­to Gosling man­tém pra­ti­ca­men­te a mes­ma expres­são do iní­cio ao fim do fil­me, Emma Stone, até por encar­nar uma atriz, recor­re numa úni­ca cena a uma vas­ta gama de olha­res, ges­tos e rea­ções faci­ais. É algo boni­to de ver e ouvir.

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