O sujeito da hashtag #sqn

Colunistas

20.08.14

Quando Lacan pro­nun­ci­ou o famo­so “Discurso de Roma”, lá se vão mais de 50 anos, pro­pu­nha uma reto­ma­da radi­cal da psi­ca­ná­li­se a par­tir da per­cep­ção de que o sujei­to é sujei­to do incons­ci­en­te ou, o que daria no mes­mo, sujei­to da lin­gua­gem, aqui enten­di­da como equí­vo­co, como expres­são do que não se fecha no “eu”. Não há ver­da­de na lin­gua­gem, ou a ver­da­de da lin­gua­gem é a ver­da­de do incons­ci­en­te, são for­mas de pen­sar o huma­no sob a mar­ca da fal­ta.

O psicanalista francês Jacques Lacan

Muito mais se pode­ria dizer da expe­ri­ên­cia da psi­ca­ná­li­se, mas não é o caso. Meu inte­res­se aqui é pen­sar o esta­tu­to con­tem­po­râ­neo da lin­gua­gem, con­si­de­ran­do como hipó­te­se um con­tex­to intei­ra­men­te imer­so nas tais “engre­na­gens das leis do blá­blá”, para usar a tra­du­ção do dis­cur­so de Roma edi­ta­do pela Zahar em Outros escri­tos. As tais engre­na­gens são aque­las em que o sujei­to fala, fala, fala, mas para não dizer nada de si. Ao psi­ca­na­lis­ta, diz Lacan, cabe se inte­res­sar por esse blá­blá­blá a fim de atra­ves­sá-lo em dire­ção ao incons­ci­en­te. Da déca­da de 1950 para cá, há algo nes­se blá­blá­blá que tal­vez mere­ça ser repen­sa­do, algo de uma tal trans­for­ma­ção que cer­ta­men­te não se esgo­ta nes­se arti­go; algo que me inqui­e­ta dian­te do blá­blá­blá infin­dá­vel, seja nas redes soci­ais, seja em dis­cur­sos que pare­cem estar ape­nas e pro­po­si­tal­men­te no cam­po das engre­na­gens. A par­tir da lei­tu­ra de Michel Foucault, o filó­so­fo Giorgio Agamben repen­sa a noção de dis­po­si­ti­vo dis­ci­pli­nar para enten­der os obje­tos como dis­po­si­ti­vos e os sujei­tos como viven­tes. No encon­tro entre dis­po­si­ti­vos e viven­tes, se dá o que ele cha­ma de um pro­ces­so de des­sub­je­ti­va­ção. No cam­po des­ta des­sub­je­ti­va­ção esta­ria o fenô­me­no que eu ousa­ria cha­mar de dis­cur­sos sem sujei­tos.

Penso, por exem­plo, no fenô­me­no das hash­tags, que saem das redes para os dis­cur­sos de sujei­tos cujo úni­co pro­pó­si­to é se man­ter “na engre­na­gem das leis do blá­blá­bá”. Nesse sen­ti­do, infi­ni­tas hash­tags pode­ri­am for­mar um sujei­to sem lin­gua­gem, ou uma lin­gua­gem sem sujei­to, mera repe­ti­ção inde­xa­da de um blá­blá­blá infi­ni­to daqui­lo que, por não se cons­ti­tuir em lin­gua­gem como cami­nho de cons­tru­ção de sub­je­ti­vi­da­de, tem ape­nas e pro­po­si­tal­men­te efei­to redu­tor. São pala­vras repe­ti­das ao infi­ni­to, num pro­ces­so de repe­ti­ção que tem como obje­ti­vo esva­zi­ar a lin­gua­gem da per­tur­ba­ção do sig­ni­fi­can­te.

Pensar uma lin­gua­gem sem sujei­to, num blá­blá­blá inter­mi­ná­vel, tam­bém me per­mi­te pen­sar no cará­ter radi­cal­men­te per­for­ma­ti­vo das redes soci­ais, expres­so no uso das hash­tags. Palavra dici­o­na­ri­za­da pelo Oxford Dictonary esse ano, as hash­tags sur­gi­ram como des­do­bra­men­to do uso de tags – inde­xa­do­res de con­teú­do usa­dos em pla­ta­for­mas de publi­ca­ção on-line. Antecedida do sím­bo­lo #, qual­quer pala­vra ou fra­se tor­nou-se fer­ra­men­ta de inde­xa­ção.

Desenvolvida pelo lin­guis­ta John Austin, a con­cep­ção de ato de fala per­fo­ma­ti­vo reco­nhe­ce, basi­ca­men­te, que falar é fazer. “Como fazer coi­sas com pala­vras”, seu livro mais impor­tan­te, desen­vol­ve a ideia de que sen­ten­ças lin­guís­ti­cas são em si ações. Atos per­for­ma­ti­vos ope­ram, pro­du­zem e trans­for­mam o mun­do. Pense nos três ver­bos que entra­ram nas nos­sas vidas depois do Facebook: cur­tir, comen­tar, com­par­ti­lhar. São per­for­ma­ti­vos que entra­ram nas nos­sas vidas com a mes­ma rele­vân­cia que o Facebook pas­sou ocu­par gran­de espa­ço nas for­mas de soci­a­li­za­ção con­tem­po­râ­nea. A cada cli­que, um ato per­for­ma­ti­vo não ver­bal, para usar a expres­são do óti­mo arti­go de Henrique Rondinelli (PUC-Rio), ao qual che­guei por suges­tão de uma pes­qui­sa­do­ra das rela­ções entre Austin e Derrida, a pro­fes­so­ra Rachel Nigro (PUC-Rio). Com estes três ver­bos, o Facebook mudou a nos­sa for­ma de rela­ção com o mun­do e alte­rou a nos­sa vida soci­al.

Perturbador, no entan­to, é que essa vida soci­al pos­sa ser resu­mi­da a expres­sões pron­tas, meros dis­po­si­ti­vos aos quais um sujei­to esva­zi­a­do de sub­je­ti­vi­da­de recor­re como expres­são de não capa­ci­da­de de expres­são de si, como fór­mu­la pron­ta de uma engre­na­gem cujo obje­ti­vo é a per­da da expe­ri­ên­cia de se per­der na lin­gua­gem. Como se este arti­go pudes­se ter sido escri­to assim: #pron­to­fa­lei #fica­a­di­ca #fika­a­di­ka #prayer­for­pa­les­ti­na #luto­por­tin­tin 
#não­vai­ter­co­pa #soque­não #sqn #Bols #Resumobols #garo­ti­nho­não 
#cri­ve­la­não #pezão­não #pro­tes­tar­nãoé­cri­me #copa­das­co­pas 
#copa­das­tro­pas #cadêo­a­ma­ril­do #the­pi­auihe­rald #capi­ta­lism #SupLife 
#natu­re­za #saú­de #vida #bora­re­mar #tudo­pe­la­au­di­en­cia #flip2014 
#pira­nhasp­si­co­pa­tas #‎family­run #‎cpna­o­pa­ra #‎cir­cui­to­da­praia #‎soulcp 
#pqp #‎Eleições #BitocaNoVesgo #Aliás #car­la­ro­dri­gues­noims
#fika­a­di­ka #fica­a­di­ca #pron­to­fa­lei

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