O tubarão no aquário

Cinema

24.04.14

O IMS lan­ça em DVD o fil­me Diário 1973–1983, do cine­as­ta David Perlov (1930–2003). A edi­ção núme­ro 6 da revis­ta Zum traz uma série de foto­gra­fi­as colo­ri­das fei­tas por Perlov em seus últi­mos anos de vida e que são con­si­de­ra­das um dos pon­tos altos de sua pro­du­ção.

O cine­ma sur­giu do docu­men­tá­rio (ou seria o con­trá­rio?), de Lumière fil­man­do a pró­pria famí­lia (a sobri­nha ain­da bebê na hora do almo­ço, Le repas du bébé; a filha brin­can­do com os pei­xi­nhos no aquá­rio, La pêche aux pois­sons rou­ges). E res­sur­giu com Flaherty fil­man­do a famí­lia de Nanook (Nanook, of the North, 1922). Surgiu com von­ta­de de ficar em casa (como Lumière: ver pela jane­la o por­tão da fábri­ca, La sor­tie des ouvri­ers), res­sur­giu com von­ta­de de sair de casa (como Flaherty: via­jar para uma ilha no Sul, Moana, 1926, ou para uma ilha ao Norte, Man of Aran, 1934). Sequência natu­ral des­se movi­men­to pen­du­lar entre o bem pró­xi­mo (os pei­xi­nhos ver­me­lhos no aquá­rio) e o bem dis­tan­te (o tuba­rão na ilha de Aran), o docu­men­tá­rio nos últi­mos anos come­çou a bus­car Flaherty em Lumière (ou seria o con­trá­rio?).

Cineasta bra­si­lei­ro David Perlov

 

Essa ten­dên­cia do docu­men­tá­rio con­tem­po­râ­neo, dis­cu­tir o que está bem lon­ge no que está bem per­to, tor­na ain­da mais opor­tu­no o lan­ça­men­to em DVD de Diário, 1973–1983, de David Perlov, exem­plo pio­nei­ro de uma ope­ra­ção de mon­ta­gem e fusão do par­ti­cu­lar no geral.

Desenho do artis­ta, retra­tan­do sua filha

 

Basta pegar na memó­ria as recen­tes expe­ri­ên­ci­as de Sandra Kogut, Um pas­sa­por­te hún­ga­ro (2001), a che­ga­da ao Brasil dos migran­tes expul­sos pelo nazis­mo em tor­no de uma con­ver­sa com a avó, e de Flávia Castro, Diário de uma bus­ca (2010), a resis­tên­cia às dita­du­ras mili­ta­res da déca­da de 1970, no Brasil, no Chile e na Argentina, em tor­no de uma con­ver­sa sobre a mor­te do pai. Ou ain­da, bas­ta pas­sar os olhos por Os dias com ele (2013), de Maria Clara Escobar, em exi­bi­ção nes­se momen­to, para des­co­brir nes­sa von­ta­de de sair de casa (no Brasil) para den­tro de casa (do pai, em Portugal) um dis­po­si­ti­vo seme­lhan­te ao cri­a­do por Perlov em seu Diário, 1973–1983. Esses fil­mes, como tan­tos outros de ago­ra, se empe­nham em “encon­trar a eter­ni­da­de ao dobrar a esqui­na” (de acor­do com a fra­se do pin­tor Jean Renoir aqui e ali repe­ti­da por Perlov). Os fil­mes de Sandra, Flávia e Maria Clara, cons­ci­en­te­men­te ou não, pou­co impor­ta, seguem uma tri­lha aber­ta por Perlov — a auto­bi­o­gra­fia como uma cons­tru­ção (qua­se fic­ci­o­nal) da his­tó­ria.

Eu sem­pre quis escre­ver uma auto­bi­o­gra­fia fic­tí­cia que tives­se tam­bém um cará­ter pic­tó­ri­co”, dis­se Perlov em cer­ta oca­sião. “Quando come­cei o Diário, tive opor­tu­ni­da­de de tra­ba­lhar numa pers­pec­ti­va auto­bi­o­grá­fi­ca. (?) E ao come­çar a fil­mar, não tinha ideia do que sai­ria do pro­je­to, não sabia se alguém iria que­rer ver o que eu fil­ma­va. Sabia ape­nas que que­ria con­ti­nu­ar fazen­do cine­ma, mes­mo se nin­guém me con­tra­tas­se para tra­ba­lhar num fil­me (?) Assim, meu Diário é minha car­tei­ra de iden­ti­da­de. Eu ten­to tocar a fron­tei­ra frá­gil entre a vida e a arte. Expor-se assim em sua arte é bas­tan­te ame­a­ça­dor: sua vida pri­va­da e seus ner­vos estão ao alcan­ce de todos”.

Nascido no Rio de Janeiro, em 1930, filho de um mági­co iti­ne­ran­te, Perlov pas­sou a infân­cia e a ado­les­cên­cia pri­mei­ro em Belo Horizonte e depois em São Paulo. Foi para Paris em 1952 para estu­dar pin­tu­ra, depois de ter sido alu­no de Lasar Segall. No entan­to, apai­xo­na-se pelo cine­ma ao des­co­brir Zero de con­du­ta (Zéro de Conduite, 1933) de Jean Vigo e, mes­mo sem jamais ter dei­xa­do de dese­nhar, aban­do­na a pin­tu­ra. Aproxima-se da Cinemateca Francesa, tor­na-se assis­ten­te de Henri Langlois, e em 1957, rea­li­za seu pri­mei­ro cur­ta-metra­gem, Tante chi­noi­se et les autres, a par­tir de um cader­no de dese­nhos encon­tra­do no sótão da casa da famí­lia com quem mora­va em um subúr­bio de Paris. No ano seguin­te, muda-se para Israel e dedi­ca-se ao cine­ma e à foto­gra­fia, rea­li­za fil­mes docu­men­tá­ri­os e de fic­ção até com­prar uma câme­ra de 16mm e deci­dir aban­do­nar o cine­ma pro­fis­si­o­nal, como ele mes­mo con­ta na nar­ra­ção ini­ci­al de Diário — 1973–1983: “Maio 1973, eu com­pro uma câme­ra. Começo a fil­mar, para mim mes­mo. O cine­ma pro­fis­si­o­nal não me atrai mais. Eu fil­mo dia após dia, à pro­cu­ra de outra coi­sa. Eu pro­cu­ro, antes de tudo, o ano­ni­ma­to. É pre­ci­so mais tem­po para apren­der a fazê-lo”.

Quando você fil­ma um diá­rio, o fil­me subs­ti­tui a vida. É uma gran­de expe­ri­ên­cia”, acres­cen­tou anos depois, numa entre­vis­ta depois da pri­mei­ras exi­bi­ções no Channel 4 da tele­vi­são ingle­sa. “Eu crio uma ordem para minha exis­tên­cia. Meu comen­tá­rio em off deter­mi­na a nar­ra­ção e é um ins­tru­men­to do pen­sa­men­to e não do sen­ti­do. E enquan­to você está na mesa de mon­ta­gem, é um gran­de pra­zer, por­que você tem con­tro­le sobre sua vida — suas cri­ses, suas dores. Você pode recri­ar a vida, ou frag­men­tá-la. Sobretudo: você pode cri­ar har­mo­nia. Quando você retor­na à vida real, ela é mui­to menos har­mo­ni­o­sa e dura mui­to mais do que as seis horas do Diário”.

Não por aca­so o cine­ma de Perlov, que pri­mei­ro pen­sou em se dedi­car à pin­tu­ra, come­ça num cader­no de dese­nhos acha­do ao aca­so no sótão de uma velha casa fran­ce­sa, Tante Chinoise et les autres é uma espé­cie de refil­ma­gem do docu­men­tá­rio dese­nha­do por uma meni­na de 14 anos, Margueritte Bonneway, em 1894 (um ano antes da inven­ção do cine­ma­tó­gra­fo). Igualmente não por aca­so, o últi­mo fil­me de Perlov, Minhas ima­gens (My Stills, 2003) se orga­ni­za como uma refle­xão sobre a ima­gem (o cine­ma­tó­gra­fo então já cen­te­ná­rio). Mais pre­ci­sa­men­te, Minhas ima­gens é uma con­ver­sa sobre os fotó­gra­fos que ele admi­ra­va (Lartigue, Seymour) e sobre as fotos fei­tas de sua mesa num café de Tel-Aviv, sem­pre de um mes­mo ângu­lo. Na tela, um cader­no de foto­gra­fi­as não mui­to dis­tan­te do cader­no de dese­nhos da meni­na do final do sécu­lo 19. Entre um fil­me e outro o dire­tor dese­nhou, fil­mou a pai­sa­gem vis­ta de sua jane­la, foto­gra­fou o bar da esqui­na, regis­trou encon­tros com ami­gos e conhe­ci­dos, num cui­da­do­so pro­ces­so de edu­ca­ção do olhar para des­co­brir o geral no par­ti­cu­lar, o mun­do na esqui­na de sua casa: no peque­no aquá­rio de pei­xi­nhos ver­me­lhos do bebê dos Lumière, a pes­ca de tuba­rão na Aran de Flaherty.

* José Carlos Avellar é coor­de­na­dor de cine­ma do IMS.

MAIS

David Perlov: a pai­xão do coti­di­a­no — tes­te­mu­nhos e refle­xões de Perlov, segui­dos de excer­tos de uma entre­vis­ta con­ce­di­da a Uri Klein, do jor­nal isra­e­len­se Haaretz

, ,