O tudo e o todo na filosofia hoje

Colunistas

23.09.15

Livros são car­tas escri­tas aos ami­gos, argu­men­ta o filó­so­fo ale­mão Peter Sloterdijk, e cer­tos livros são car­tas que ani­mam a tro­ca de cor­res­pon­dên­cia entre ami­gos. A ins­pi­ra­ção para esse meu peque­no arti­go de filo­so­fia epis­to­lar é um ami­go – Claudio Oliveira, filó­so­fo, tra­du­tor e pro­fes­sor da UFF – e seu livro Do tudo e do todoou De uma nota de roda­pé do Parágrafo 48 de Ser e tem­po (uma dis­cus­são com Heidegger e os Gregos). Sem pre­ten­der ante­ci­par toda a bele­za da argu­men­ta­ção de sua tese – defen­di­da em 2000 na UFRJ e recém-publi­ca­da pela edi­to­ra Circuito com apoio da Faperj –, minha inten­ção é ao mes­mo tem­po menor e mai­or. Menor por­que não esta­ria à altu­ra de seu tra­ba­lho qual­quer res­ti­tui­ção bre­ve da sua pes­qui­sa sobre a dife­ren­ça entre o tudo e o todo. Maior não por qual­quer aspi­ra­ção pes­so­al, mas por que foi a sua com­bi­na­ção entre deli­ca­de­za e rigor que me levou a pen­sar sobre ser filó­so­fa hoje, ques­tão para além do tema do livro, embo­ra este­ja ali con­ti­da.

Paradoxalmente, o estu­do da filo­so­fia está tan­to rele­ga­do ao lugar secun­dá­rio no qual se encon­tram todas as cha­ma­das Humanidades, quan­to ele­va­do ao pos­to pri­vi­le­gi­a­do de pri­mei­ro saber que ela mes­ma, a filo­so­fia, se desig­nou des­de os gre­gos. Pensar o tudo e o todo que dão títu­lo ao livro de Oliveira seria tare­fa indi­ca­ti­va des­ta dig­ni­da­de inau­gu­ral. No entan­to, é quan­do ele toma – com rigor aca­dê­mi­co inve­já­vel – a dife­ren­ça entre o tudo e o todo a par­tir de uma nota de roda­pé, ou do que seria uma peque­na insig­ni­fi­cân­cia den­tro do gran­de Ser e Tempo, a obra semi­nal de Heidegger, leva a pen­sar que fazer filo­so­fia hoje é ocu­par um lugar – os roda­pés dos tex­tos, as mar­gens das pági­nas, as bre­chas de livros canô­ni­cos – e ter um méto­do – encon­trar aqui­lo que ain­da não foi lido, nem nota­do ou ano­ta­do e não mor­re no escri­to e na escri­ta.

Nessa estra­nha con­jun­ção, tal­vez o filó­so­fo de hoje pos­sa se reen­con­trar com algum sen­ti­do que não seja mais nem o do tudo, nem o do todo, e assim se recon­ci­li­ar com as ambi­ções mais sim­ples e por isso mes­mo, mais ousa­das: pen­sar e fazer pen­sar, brin­car e fazer brin­car, “para nada, por nada, mas mes­mo assim”. Mesmo assim, mes­mo com a fal­ta de ver­bas para a pes­qui­sa nas uni­ver­si­da­des públi­cas, mes­mo com a insig­ni­fi­cân­cia das huma­ni­da­des num mun­do pós-huma­no; mes­mo assim, mes­mo com as exi­gên­ci­as de indi­ca­do­res de pro­du­ti­vi­da­de na con­tra­mão do pen­sa­men­to; mes­mo assim, para nada e por nada, pen­sar, com rigor e deli­ca­de­za, com seri­e­da­de e ale­gria, a nos­sa pro­va dos nove.

Em um cer­to momen­to de O que é o dis­po­si­ti­vo, o filó­so­fo ita­li­a­no Giorgio Agamben – de quem Claudio Oliveira é comen­ta­dor e tra­du­tor – diz que dali em dian­te se tor­na­rá impos­sí­vel dis­tin­guir seu pen­sa­men­to do seu comen­tá­rio sobre o pen­sa­men­to de Michel Foucault. Performatiza a mor­te do autor, sobre a qual Foucault escre­veu, e se entre­la­ça ao filó­so­fo fran­cês como eu gos­ta­ria de me entre­la­çar ao livro de Claudio Oliveira. A bele­za das pos­si­bi­li­da­des des­se laço é a do fazer filo­só­fi­co, vin­cu­lar-se aos auto­res tan­to e a tal pon­to de aban­do­nar a qual­quer ten­ta­ti­va de dife­ren­ça entre auto­ria e comen­tá­rio, um reco­nhe­cen­do ser impos­sí­vel pen­sar sem o outro.

O filósofo italiano Giorgio Agamben

Ser filó­so­fa hoje seria ates­tar o impos­sí­vel des­sa sepa­ra­ção. Pensar com e a par­tir de Claudio Oliveira e de todos os auto­res que ele mobi­li­za – Heidegger, Aristóteles, Platão, Agamben, Derrida, Levinas, Hegel – é me ins­cre­ver como her­dei­ra de pen­sa­do­res que pen­sa­ram o impen­sá­vel, e só por que não com­ple­tam o sen­ti­do do tudo e do todo, podem levar o pen­sa­men­to ao pon­to com o qual ele encer­ra seu livro: a liga­ção entre a lin­gua­gem e a mor­te. Se, como diz Heidegger, mor­rer é o modo pró­prio como a vida se rea­li­za, viver na lin­gua­gem, com ela, a par­tir dela, tra­ba­lhar em tor­no da lin­gua­gem, esgar­çan­do suas (im)possibilidades, bus­can­do o que­rer dizer cujo tudo e o todo nun­ca são ditos, é viver “a expe­ri­ên­cia do limi­te impos­to à lin­gua­gem pelo fato de o homem não ser (todo) falan­te”.

Ser filó­so­fa hoje é reco­nhe­cer a impos­si­bi­li­da­de de falar do tudo e do todo, é fazer des­se reco­nhe­ci­men­to o motor de um pen­sa­men­to cuja tare­fa pas­sa a ser sair da impo­tên­cia para o impos­sí­vel, para usar a expres­são laca­ni­a­na tão per­ti­nen­te ao momen­to filo­só­fi­co-polí­ti­co e tão ade­qua­da ao tra­ba­lho de Claudio Oliveira. A potên­cia do impos­sí­vel tal­vez seja a úni­ca que res­ta ao filó­so­fo hoje, mais do que nun­ca con­fron­ta­do com a estrei­ta liga­ção entre a lin­gua­gem e a mor­te. O desa­fio pas­sa a ser nem se dei­xar inti­mi­dar pela lin­gua­gem nem se para­li­sar pela mor­te ine­vi­tá­vel. Se do tudo e do todo só pode­mos falar, é tam­bém por poder­mos falar que “agi­mos como os ini­ci­a­dos nes­se mis­té­rio” de ser­mos falan­tes e mor­tais. É como seres falan­tes e mor­tais que pode­mos nos enla­çar em expe­ri­ên­ci­as éti­cas, poé­ti­cas e polí­ti­cas, expe­ri­ên­ci­as do comum que, de Hegel a Agamben, se per­dem e se refa­zem a cada vez.

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