O Twitter é expressionista — quatro perguntas para Beatriz Sarlo

Quatro perguntas

04.05.11

A pro­fes­so­ra, escri­to­ra e crí­ti­ca lite­rá­ria argen­ti­na Beatriz Sarlo, de 69 anos, é uma das inte­lec­tu­ais públi­cas de mai­or pro­je­ção da América Latina. Autora de 16 livros de fic­ção, ensai­os e crí­ti­cas, pro­fes­so­ra visi­tan­te das uni­ver­si­da­des de Colúmbia, Berkeley, Maryland e Cambridge, Beatriz dedi­cou-se des­de sem­pre à com­pre­en­são dos fenô­me­nos cul­tu­rais e da moder­ni­da­de. Escreveu nume­ro­sos ensai­os sobre o pero­nis­mo, esmiu­çou a obra de Jorge Luis Borges e publi­cou tex­tos fun­da­men­tais sobre comu­ni­ca­ção.

A argentina Beatriz Sarlo

A argen­ti­na Beatriz Sarlo

Em ensaio recen­te publi­ca­do na revis­ta ser­ro­te, “O ani­mal polí­ti­co na web”, Beatriz tece crí­ti­cas con­tun­den­tes às redes soci­ais, fer­ra­men­tas que ela jul­ga caren­tes de pro­fun­di­da­de e atra­ves­sa­das por vai­da­des pes­so­ais. As redes, diz Beatriz, são um retra­to do nos­so tem­po, em que a mobi­li­za­ção e a ilu­são de inti­mi­da­de se trans­for­mam em obs­tá­cu­los ao apro­fun­da­men­to do deba­te de idei­as.

Em con­ver­sa com o blog do IMS, Beatriz, que tra­ba­lha em um escri­tó­rio na char­mo­sa ave­ni­da Corrientes, em Buenos Aires, falou sobre os prin­ci­pais mode­los des­sas redes, sobre o uso da inter­net duran­te a cam­pa­nha de Barack Obama, em 2008, e sobre e rela­ção entre a web e o sur­gi­men­to de novos escri­to­res.

 

No ensaio “O ani­mal polí­ti­co na web”, a senho­ra afir­ma que a inter­net pena­li­za o out­si­der, pois é “uma tec­no­lo­gia de pon­ta que valo­ri­za o juve­li­nis­mo em voga nas soci­e­da­des con­tem­po­râ­ne­as”. Ela não seria, no entan­to, uma for­ma de inte­gra­ção soci­al como tan­tas outras?

O Twitter, para exem­pli­fi­car uma das redes soci­ais que eu ana­li­so, é par­ti­cu­lar­men­te pró­xi­mo de uma cul­tu­ra juve­nil que se defi­ne, em pri­mei­ro lugar, jus­ta­men­te por essa carac­te­rís­ti­ca: é o ter­ri­tó­rio dos explo­ra­do­res, dos evan­ge­li­za­do­res da novi­da­de. Se defi­ne tam­bém pela bus­ca do pun­ch, do gol­pe for­te, mais ou menos como a cul­tu­ra do rock. A segu­ran­ça de que é pos­sí­vel opi­nar sobre tudo em 140 carac­te­res é uma apos­ta na for­ma cur­ta, caren­te de argu­men­ta­ção e pro­pos­tas, bem ao esti­lo moder­no. É per­fei­ta­men­te pos­sí­vel con­vo­car uma mani­fes­ta­ção no Twitter, como demons­tram os êxi­tos recen­tes no Egito, mas é impro­vá­vel pen­sar alter­na­ti­vas polí­ti­cas ou explo­rar e implan­tar idei­as mais apro­fun­da­das. O Twitter é expres­si­o­nis­ta, no sen­ti­do de alto con­tras­te da opo­si­ção cate­gó­ri­ca, onde os con­fli­tos se apre­sen­tam deses­pe­ra­da­men­te com­pre­en­si­veis e sim­pli­fi­ca­dos. É como um slo­gan de ade­são rápi­da ou nega­ções enfá­ti­cas.

O Facebook, entre­tan­to, é mais ami­gá­vel para cul­tu­ras extraweb. Mesmo os emba­tes polí­ti­cos no Facebook per­mi­tem lon­gos dis­cur­sos, como se hou­ves­se a pos­si­bi­li­da­de de escu­tar sem liqui­dar o dis­cur­so do outro. Por outro lado, o Facebook é per­fei­ta­men­te ade­qua­do para as for­mas con­tem­po­râ­ne­as de con­su­mo e do mer­ca­do de bens mate­ri­ais e sim­bó­li­cos.

Sobre blogs, é qua­se impos­sí­vel gene­ra­li­zar, exce­to se cri­ar­mos um cri­té­rio mui­to espe­cí­fi­co (jor­na­lís­ti­co, lite­rá­rio, polí­ti­co, espor­tes). A faci­li­da­de téc­ni­ca de cri­a­ção e pro­du­ção de um blog per­mi­te todas as alter­na­ti­vas em todos os níveis, des­de o ama­do­ris­mo puro até a lite­ra­tu­ra, para as efu­sões de blo­guei­ros-poe­tas, que des­per­ta­ram a crí­ti­ca edi­to­ri­al. O que cha­ma­mos hoje de “roman­ce” ou “jor­na­lis­mo” é o que sobre­vi­veu a uma quan­ti­da­de enor­me de escri­to­res ama­do­res, obs­ses­si­vos, lou­cos e gen­te de quem nin­guém se lem­bra. Enfim, foi algo neces­sá­rio, por­que envol­via o movi­men­to soci­al de um ins­tru­men­to (a con­fi­gu­ra­ção grá­fi­ca da pala­vra), que há sécu­los havia sido reser­va­do para a eli­te. É o que deve ocor­rer com esse tipo de pro­du­ção atu­al­men­te, mas em cin­quen­ta anos, quan­do ana­li­sa­do por espe­ci­a­lis­tas, é que será com­pre­en­di­do.

 

Quando a senho­ra diz que mui­tos polí­ti­cos não enten­dem a rede por­que a rede não foi cri­a­da para o dis­cur­so polí­ti­co em ter­mos moder­nos, lis­ta a sub­je­ti­vi­da­de e a inti­mi­da­de como dois fato­res con­di­ci­o­nan­tes. É pos­sí­vel que o cená­rio se alte­re ou a comu­ni­ca­ção por esse meio está con­de­na­da à fal­sa impres­são de inti­mi­da­de?

Vivemos na era da rota­ção sub­je­ti­va. Isso não sig­ni­fi­ca sim­ples­men­te que se escre­ve mais do que nun­ca, mas que a nar­ra­ti­va em pri­mei­ra pes­soa é apre­sen­ta­da como pro­va da ver­da­de do que é dito. É como se o Ocidente tives­se esque­ci­do Freud e Nietzsche e vives­se seu últi­mo tes­te da ver­da­de. É difí­cil sepa­rar isso da pri­va­ci­da­de. Cada vez mais a pri­va­ci­da­de das pes­so­as pare­ce mais inte­res­san­te do que suas vidas públi­cas. Finalmente, todos têm pri­va­ci­da­de, mas nem todos têm posi­ções sobre ques­tões com­ple­xas e nem sem­pre as idei­as são expos­tas com a mes­ma faci­li­da­de com que expo­mos os nos­sos sen­ti­men­tos. Desse pon­to de vis­ta, a pri­va­ci­da­de é anti-hie­rár­qui­ca. A ale­ga­ção da pri­va­ci­da­de é, em últi­ma ins­tân­cia, a vin­gan­ça anti­e­li­tis­ta e anti­po­pu­lis­ta.

 

A cam­pa­nha de Barack Obama em 2008 se tor­nou uma espé­cie de mode­lo do uso da rede por polí­ti­cos. A inter­net, para esses fins, é efi­caz ou o que hou­ve nes­se caso pode ser expli­ca­do por fato­res alhei­os à rede?

Em pri­mei­ro lugar, é pre­ci­so fri­sar que os ame­ri­ca­nos estão mui­to mais fami­li­a­ri­za­dos com a doa­ção de dinhei­ro. Essas ações se tor­nam ain­da mais estra­nhas e sur­pre­en­den­tes para alguém da América Latina que as tes­te­mu­nha in loco, nos EUA. Estações de rádio públi­cas fazem cam­pa­nhas finan­ci­a­das por con­tri­bui­ções anu­ais dos seus ouvin­tes, as cele­bri­da­des estão sem­pre rela­ci­o­na­das a uma cau­sa soci­al comum, todas as pro­gra­ma­ções de tea­tro têm lon­gas lis­tas de doa­do­res que cimen­tam a sua repu­ta­ção e o seu com­pro­mis­so com a comu­ni­da­de. Bill Gates é o exem­plo mais espe­ta­cu­lar des­se cos­tu­me, mas não o mais excep­ci­o­nal. Por outro lado, há uma legis­la­ção fis­cal que per­mi­te a dedu­ção de qua­se todas as doa­ções em impos­tos pes­so­ais e empre­sa­ri­ais. Existe uma cul­tu­ra de sécu­los que expli­ca o empe­nho em empre­en­di­men­tos cole­ti­vos. Nesse sen­ti­do, as cam­pa­nhas polí­ti­cas não são con­tra esse tipo comum de inter­ven­ção na vida da comu­ni­da­de. Outro pon­to a con­si­de­rar é que os ame­ri­ca­nos estão mui­to mais acos­tu­ma­dos a com­prar, ven­der, pagar, sacar dinhei­ro, envi­ar ou rece­bê-lo atra­vés da inter­net do que nós, lati­no-ame­ri­ca­nos. Em ter­cei­ro lugar, o aces­so a inter­net nos EUA é mui­to mai­or do que em qual­quer outro país des­se hemis­fé­rio. Dessa for­ma, a cam­pa­nha elei­to­ral de Obama não teve de inven­tar ou impor um esti­lo, antes dis­so, con­se­guiu recur­sos dra­ma­ti­ca­men­te ao refor­çar as doa­ções com o desa­fio extra­or­di­ná­rio que sig­ni­fi­ca­va car­re­gar um polí­ti­co negro, jovem e libe­ral [no sen­ti­do ame­ri­ca­no] até a pre­si­dên­cia. A cam­pa­nha se mos­trou, por­tan­to, con­vin­cen­te. Ainda mais, por [em se tra­tan­do da dis­pu­ta inter­na do Partido Democrata], uti­li­zar posi­ti­va­men­te dois ter­mos: uma mulher e um negro. A esco­lha em Obama não sig­ni­fi­cou uma sal­va­ção do peri­go ou do retro­ces­so, ape­nas uma apos­ta no melhor dos dois.

 

A senho­ra tam­bém desen­vol­ve uma pro­fí­cua ati­vi­da­de de crí­ti­ca lite­rá­ria. Nos últi­mos dez anos, tam­bém no Brasil, vári­as dis­cus­sões foram tra­va­das sobre o papel da inter­net para o sur­gi­men­to de novos escri­to­res. Até que pon­to a senho­ra acha que isso acon­te­ceu de fato?

 

Nenhum dos novos escri­to­res que eu li (e leio mui­to, pois tra­to dis­so em uma colu­na sobre novos escri­to­res no jor­nal Perfil), é oriun­do des­sas novas tec­no­lo­gi­as. Se che­gam de um lugar-comum, é a uni­ver­si­da­de, a esco­la de letras, um ambi­en­te hiper­li­te­rá­rio. Essa for­ma­ção eu con­si­go iden­ti­fi­car na segu­ran­ça dos novos escri­to­res que, se pode gos­tar ou não, mas se equi­vo­cam pou­co em ter­mos téc­ni­cos. Talvez eu este­ja per­den­do o que é pro­du­zi­do na inter­net, mas não é algo sobre o qual eu tenha ouvi­do falar. Fragmentos de tex­tos de todo o mun­do estão na web, mas não sig­ni­fi­ca que eles foram pro­du­zi­dos lá. Na inter­net, se pro­pa­ga a his­tó­ria da cul­tu­ra em frag­men­tos e recor­tes: uma bibli­o­te­ca sem índi­ce, ou melhor, ade­qua­da à for­ça da tec­no­lo­gia.

 

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