O varal de Ian Curtis

Música

19.06.12

Como toda pes­soa mode­ra­da­men­te obce­ca­da pela vida de Ian Curtis, o líder da ban­da Joy Division que come­teu sui­cí­dio aos 23 anos após ter lan­ça­do dois dis­cos que muda­ram para sem­pre o rumo da músi­ca popu­lar oci­den­tal, tenho o hábi­to de rever o fil­me Control de tem­pos em tem­pos.

Minha rela­ção com o fil­me de Anton Corbijn é no míni­mo ambi­va­len­te. Sei que Control está lon­ge de ser uma gran­de obra cine­ma­to­grá­fi­ca, e que o fil­me me cati­va em espe­ci­al por ser a mais deta­lha­da repre­sen­ta­ção fic­ci­o­nal da vida de Ian Curtis dis­po­ní­vel — o músi­co já tinha apa­re­ci­do em 24 Hour Party People, do bri­tâ­ni­co Michael Winterbottom, mas sua mor­te acon­te­ce na meta­de do fil­me. Tenho inclu­si­ve dúvi­das se con­si­de­ro a per­for­man­ce de Sam Riley em Control melhor que a de Sean Harris em 24 Hour Party People (cli­que aqui para assis­tir a um bom vídeo com­pa­ra­ti­vo). Estou cien­te, tam­bém, de que a bio­pic não é a repre­sen­ta­ção mais fiel da vida de Curtis, mas levo isso numa boa. Penso que fil­mes, ain­da que de teor bio­grá­fi­co, sem­pre ofe­re­cem inter­pre­ta­ções e recor­tes. Se que­ro uma visão dis­tan­ci­a­da da car­rei­ra do Joy Division e da cena musi­cal de Manchester, assis­to ao docu­men­tá­rio Joy Division, de Grant Gee.

E, no entan­to, é ao fil­me Control que sem­pre retor­no. É ele que me emo­ci­o­na, pois ape­sar de cen­trar a ação na figu­ra de Ian Curtis, e não na cena efer­ves­cen­te de Manchester, aca­ba não ofe­re­cen­do nenhu­ma solu­ção para o “enig­ma Curtis”. Por que dia­bos Ian Curtis se matou? A epi­lep­sia? Uma depres­são não diag­nos­ti­ca­da nem tra­ta­da? O dra­ma fami­li­ar de ter se casa­do mui­to cedo e não con­se­guir lidar com o fato de que se apai­xo­nou por outra mulher? Uma soma de todos esses fato­res?

Todas as vezes que assis­ti ao fil­me de Corbijn, saía da expe­ri­ên­cia com­pre­en­den­do menos ain­da a figu­ra de Ian Curtis. Apesar de a obra dar uma aten­ção espe­ci­al aos pro­ble­mas amo­ro­sos do músi­co, sem­pre me pare­ceu um tan­to absur­do alguém se matar por­que a mulher com quem se casou na ado­les­cên­cia quer o divór­cio. O ano era de 1980, não 1950.

Sim, há algo de ingê­nuo e até mes­mo estú­pi­do em ten­tar bus­car uma expli­ca­ção em uma obra de fic­ção. No entan­to, o impul­so é ine­vi­tá­vel. Os fãs de Joy Division — eu inclu­so — sem­pre pro­cu­ra­ram razões para o sui­cí­dio nas letras, além de indí­ci­os pro­fé­ti­cos (e o dis­co Closer é um pra­to cheio para isso — come­çan­do pelo títu­lo). No entan­to, com o acú­mu­lo de novas infor­ma­ções sobre Curtis (o livro escri­to pela viú­va, o volu­me da série 33 e 1/3 sobre o Uknown ple­a­su­res, os fil­mes já cita­dos), fui ten­tan­do encai­xar peças de que­bra-cabe­ça con­tra­di­tó­ri­as e qui­çá enga­no­sas.

Semana pas­sa­da, reven­do Control, per­ce­bi algo que não tinha nota­do até então. O fil­me pro­põe, sim, uma inter­pre­ta­ção para o sui­cí­dio. Está nas ima­gens, ou melhor, na edi­ção. Está na repre­sen­ta­ção de um varal de teto para esten­der rou­pas.

O varal apa­re­ce em três momen­tos: logo que Ian Curtis casa com Deborah e se muda para a nova resi­dên­cia. Lá está o varal repre­sen­tan­do a vida con­ju­gal, uma vida fami­li­ar que nenhum outro mem­bro da ban­da tinha (todos os outros esta­vam mais pre­o­cu­pa­dos em tran­sar com o mai­or núme­ro de grou­pi­es pos­sí­vel).

 

Foto de casa­men­to do ver­da­dei­ro Ian Curtis.

O varal rea­pa­re­ce em segui­da, quan­do nas­ce a filha de Ian Curtis. Desta vez, as rou­pas esten­di­das no varal são as fral­das. Mais um peso em sua vida — ago­ra Ian Curtis é for­ça­do a assu­mir o papel de pai de famí­lia, papel que con­tras­ta radi­cal­men­te com a de rocks­tar que come­ça­va a ser exi­gi­do dele, com o suces­so que fazia o Joy Division. A sepa­ra­ção entre a vida regra­da de um epi­lé­ti­co casa­do e as per­for­man­ces des­re­gra­das no pal­co vai aumen­tan­do até se tor­nar insus­ten­tá­vel. As deci­sões que tomou no pas­sa­do (casar, ter filhos) não podem ser igno­ra­das ou des­car­ta­das. Não para uma pes­soa com o míni­mo sen­so moral, ao menos. “The past is now part of my future/ The pre­sent is well out of hand”. E Ian Curtis era um sujei­to de cons­ci­ên­cia pesa­da. Todas suas ações o ator­men­ta­vam, e a cada novo equí­vo­co que come­tia, o deses­pe­ro aumen­ta­va, atin­gin­do todas as par­tes de sua vida. O resul­ta­do? A ter­cei­ra apa­ri­ção do varal no fil­me. É nes­te íco­ne de vida con­ju­gal e fami­li­ar que Ian Curtis se enfor­ca.

***

Uma peque­na digres­são que juro que fará sen­ti­do: li, no iní­cio do ano, A tra­ma do casa­men­to, de Jeffrey Eugenides. Não gos­tei mui­to do livro (os moti­vos não inte­res­sam), mas foi um roman­ce que me emo­ci­o­nou pro­fun­da­men­te em um tre­cho. O tre­cho é aque­le em que o nar­ra­dor de Eugenides des­cre­ve a rela­ção do per­so­na­gem Leonard Bankhead com o trans­tor­no bipo­lar — o avan­ço da doen­ça, a ten­ta­ti­va de se medi­car etc. Apesar de Eugenides ter nega­do em entre­vis­tas, Bankhead tem deze­nas de seme­lhan­ças com David Foster Wallace, o autor ame­ri­ca­no de Breves entre­vis­tas com homens hedi­on­dos que come­teu sui­cí­dio em 2008 e era ami­go pes­so­al de Eugenides.

As seme­lhan­ças não dizem ape­nas res­pei­to às opi­niões, mas tam­bém à des­cri­ção físi­ca. Bankhead che­ga até a usar ban­da­na, um sím­bo­lo sem­pre asso­ci­a­do a Wallace. O des­ti­no do per­so­na­gem de A tra­ma do casa­men­to não fica cla­ro, até mes­mo por­que a tra­ma se pas­sa nos anos 80 e não vai até os dias de hoje. Porém, len­do o livro de Eugenides com a ima­gem de David Foster Wallace na cabe­ça, foi difí­cil não me emo­ci­o­nar com a des­cri­ção dos tor­men­tos men­tais pelos quais Bankhead pas­sa. Eu cons­tan­te­men­te pen­sa­va que sim, ape­sar do que o autor afir­mou na vida real, aque­le era Foster Wallace, e ele, como Ian Curtis, iria se enfor­car no final da estra­da. O des­fe­cho trá­gi­co está escri­to na vida real. Sim, A tra­ma do casa­men­to é uma obra de fic­ção, mas uma obra de fic­ção que para mim aca­bou geran­do o “efei­to Control”: come­cei a pro­cu­rar na nar­ra­ção da vida de Bankhead uma expli­ca­ção para o sui­cí­dio de Foster Wallace. Loucura minha? Muito pos­si­vel­men­te. Mas, se o livro de Eugenides me empol­gou em algum momen­to, foi por se apoi­ar nes­se refe­ren­ci­al.

***

Nunca vou saber os moti­vos que leva­ram Ian Curtis ao sui­cí­dio. Nem se eu fos­se ami­go dele. Nenhum inte­gran­te da ban­da ima­gi­na­va que ele ia fazer isso, nem mes­mo após a pri­mei­ra ten­ta­ti­va (com pílu­las). Deborah Curtis não ima­gi­na­va que, ao retor­nar à sua casa e ver a luz ace­sa, encon­tra­ria o cadá­ver pen­du­ra­do de Ian na área de ser­vi­ço. É isso que tor­na as nar­ra­ti­vas de sui­cí­dio tão inte­res­san­tes, e é por isso que retor­no com frequên­cia ao fil­me Control: o final é igual­men­te hor­ren­do e ine­vi­tá­vel, e nun­ca dei­xa­rá de ser um mis­té­rio inson­dá­vel para todos nós.

* Antônio Xerxenesky é reda­tor do site do IMS.

* Na ima­gem que ilus­tra o post: cena do fil­me Control, de Anton Corbijn.

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