Orson Welles, o desmesurado

No cinema

30.12.15

O ano de 2015 encer­rou-se, para os ciné­fi­los, com dois sinais con­tra­di­tó­ri­os. Por um lado, o fecha­men­to da 2001, a mai­or loca­do­ra pau­lis­ta­na de DVDs e Blu-Rays de fil­mes auto­rais, “de arte”, inde­pen­den­tes, alter­na­ti­vos ou como se quei­ra cha­mar tudo aqui­lo que esca­pa da hege­mo­nia esma­ga­do­ra do cine­mão des­car­tá­vel. Má notí­cia que foi acom­pa­nha­da, ao que pare­ce, pelo fecha­men­to de loca­do­ras simi­la­res em metró­po­les como Rio de Janeiro e Recife.

Ao mes­mo tem­po, porém, che­gam ao mer­ca­do de DVDs algu­mas pre­ci­o­si­da­des, a mos­trar que o for­ma­to pode cum­prir hoje, nas ven­das dire­tas, pelo menos uma par­te do papel dos anti­gos cine­clu­bes no que se refe­re à for­ma­ção de reper­tó­rio e enri­que­ci­men­to da cul­tu­ra cine­ma­to­grá­fi­ca.

Cito ape­nas duas des­sas alen­ta­do­ras novi­da­des: Nostalgia da luz, o sober­bo docu­men­tá­rio de Patricio Guzmán, em lan­ça­men­to do Instituto Moreira Salles, e duas cai­xas com fil­mes de Orson Welles, lan­ça­das pela Versátil. Sobre o pri­mei­ro, nin­guém escre­veu melhor do que José Carlos Avellar, aqui mes­mo nes­te blog. Falemos então de Orson Welles.

Desmesurado Welles

Das duas cai­xas lan­ça­das ago­ra, uma reú­ne os três notá­veis lon­gas-metra­gens rea­li­za­dos pelo dire­tor a par­tir de peças de Shakespeare: Macbeth (1948), Othello (1952) e Falstaff (1965). Na outra, clás­si­cos como Soberba (1942), A dama de Shanghai (1948) e O pro­ces­so (1962). São ao todo nove fil­mes, um melhor que o outro. Só fica­ram de fora, entre as obras de pri­mei­ra gran­de­za, Cidadão Kane A mar­ca da mal­da­de, lan­ça­dos ante­ri­or­men­te por outras dis­tri­bui­do­ras.

É impos­sí­vel dis­so­ci­ar o cine­ma de Orson Welles da figu­ra de seu rea­li­za­dor: ambos bri­lhan­tes, des­me­su­ra­dos, incô­mo­dos, indo­má­veis. Toda a sua fil­mo­gra­fia, des­de Cidadão Kane (1941), pode ser vis­ta como vari­a­ções em tor­no do tema da gran­de­za e da fra­gi­li­da­de huma­nas, do cará­ter vão da rique­za, da fuga­ci­da­de do poder. Ascensão e que­da de indi­ví­du­os “mai­o­res que a vida”: Kane, Amberson, Arkadin, Quinlan… E tam­bém Macbeth, Othello, Falstaff, cla­ro. Não foi por aca­so que Welles tan­to se iden­ti­fi­cou com a obra de Shakespeare.

Welles viveu na pró­pria pele, como se sabe, essa his­tó­ria de apo­geu e ruí­na. Aos 25 anos, era um gênio mima­do que tinha Hollywood a seus pés. Ou assim pare­cia. Bastou um pas­so em fal­so – cutu­car, com Kane, o mag­na­ta da mídia William Randolph Hearst – para cair em des­gra­ça, des­per­tan­do a des­con­fi­an­ça dos estú­di­os e o des­pei­to de cole­gas. Criou-se então o estig­ma do cine­as­ta megalô­ma­no, ego­cên­tri­co, capri­cho­so e per­du­lá­rio, do qual ele nun­ca se recu­pe­ra­ria.

Não cabe aqui falar de cada um dos títu­los des­sa obra extra­or­di­ná­ria, fei­ta de inven­ti­vi­da­de nar­ra­ti­va, exu­be­rân­cia plás­ti­ca e potên­cia dra­má­ti­ca. Destaco os dois docu­men­tá­ri­os do lote, que aju­dam a conhe­cer melhor o cine­as­ta e sua cir­cuns­tân­cia: It’s all true (1942/93) e Verdades e men­ti­ras (1973). O pri­mei­ro res­ga­ta e dis­cu­te o docu­men­tá­rio em epi­só­di­os que Welles rea­li­za­ria no Brasil e no México em 1942 e que res­tou ina­ca­ba­do – e aban­do­na­do duran­te meio sécu­lo, até que alguém encon­trou por aca­so par­te do mate­ri­al roda­do aqui, incluin­do o epi­só­dio com­ple­toJangadeiros.

Brasil, ver­da­des, men­ti­ras

Além de toda a recons­ti­tui­ção dos con­tur­ba­dos acon­te­ci­men­tos da épo­ca, que resul­ta­ram na dupla muti­la­ção de It’s all true e de Soberba, cuja mon­ta­gem o dire­tor super­vi­si­o­na­va à dis­tân­cia, o docu­men­tá­rio vale sobre­tu­do pelas ima­gens da saga dos pes­ca­do­res cea­ren­ses que per­cor­re­ram numa jan­ga­da milha­res de quilô­me­tros da cos­ta bra­si­lei­ra para con­ver­sar com o pre­si­den­te Getúlio Vargas e pedir direi­tos tra­ba­lhis­tas para sua cate­go­ria. Na reen­ce­na­ção de Welles, com os pró­pri­os per­so­na­gens da epo­peia, as cenas são de uma bele­za plás­ti­ca e de uma pro­fun­di­da­de huma­na que só encon­tram para­le­lo no Tabu de Murnau e em Que viva México!, de Eisenstein. Aqui, o epi­só­dio com­ple­to (do qual, infe­liz­men­te, o som ori­gi­nal se per­deu):

Pelos depoi­men­tos de quem viveu a aven­tu­ra bra­si­lei­ra de Welles (entre eles Grande Otelo), e do pró­prio dire­tor, sen­ti­mos que ele, de algu­ma manei­ra, foi feliz entre nós. Para o bem ou para o mal, sua vida nun­ca mais seria a mes­ma depois des­sa tór­ri­da tem­po­ra­da nos tró­pi­cos.

O outro docu­men­tá­rio, Verdades e men­ti­ras, é uma deli­ci­o­sa – e incri­vel­men­te moder­na – decla­ra­ção de amor e humor de Welles aos gran­des fal­sá­ri­os, a come­çar por ele pró­prio. Uma dis­cus­são sobre os con­cei­tos de auto­ria e auten­ti­ci­da­de na arte e, simul­ta­ne­a­men­te, sobre o poder ilu­si­o­nis­ta do pró­prio cine­ma. Neste fil­me, um dos últi­mos que o dire­tor che­gou a con­cluir, ele apa­re­ce intei­ro, em toda a sua gran­de­za con­tra­di­tó­ria, ao mes­mo tem­po gênio e char­la­tão. É ver para crer.

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