Os artistas vão salvar o mundo…

Artes

15.01.15

Para Fabio Mauri, in memo­ri­am

O aten­ta­do do dia 7 de janei­ro e seus des­do­bra­men­tos evi­den­ci­am cer­ta difi­cul­da­de de enten­der as rela­ções entre invi­si­bi­li­da­de soci­al e o pre­vi­sí­vel, porém devas­ta­dor, espe­tá­cu­lo da vio­lên­cia.

A cidade de Roubaix

Passados pou­cos dias do assas­si­na­to de 17 pes­so­as em Paris, das quais 12 no Charlie Hebdo, a bana­li­da­de do mal vol­ta à cena midiá­ti­ca no tam­bém pre­vi­sí­vel rotei­ro da exor­ci­za­ção do ter­ror.

Nos como­ve­mos ante a vitri­ne da soli­da­ri­e­da­de entre líde­res reli­gi­o­sos e polí­ti­cos, mui­tos dos quais dire­ta e indi­re­ta­men­te res­pon­sá­veis pelas guer­ras que rico­che­tei­am sobre a Europa e que, em doses cui­da­do­sa­men­te admi­nis­tra­das, con­su­mi­mos em frag­men­tos de víde­os no YouTube. Ainda assim, o ritu­al aju­da a soci­e­da­de civil a acre­di­tar que, sim, pode­rá reen­con­trar sua paz refor­çan­do a iden­ti­da­de cole­ti­va, no caso, repu­bli­ca­na.

Durante dois anos fui bol­sis­ta do Le Fresnoy – Centre National d’Arts Contemporains, um pres­ti­gi­o­so e rico labo­ra­tó­rio de artes ins­ta­la­do em Tourcoing, onde nós, os “jovens e pro­mis­so­res” artis­tas em resi­dên­cia, podía­mos acom­pa­nhar e even­tu­al­men­te cola­bo­rar nos pro­je­tos de artis­tas con­sa­gra­dos como Jean-Marie Straub, Danielle Huillet, Godard, Antoni Muntadas, Gary Hill, Fabio Mauri, Bruno Dumont, entre outros.

Enquanto tra­ba­lhei no Fresnoy, morei em Roubaix, cida­de gemi­na­da a Tourcoing, divi­din­do casas com outros bol­sis­tas daque­la ins­ti­tui­ção.

Vista de lon­ge, a cida­de pode pare­cer sin­ge­la como uma ima­gem de con­to infan­til: casi­nhas de tijo­lo em ruas de geo­me­tria cal­cu­la­da, aqui e ali uma mulher empur­ran­do um car­ri­nho de bebê, um homem sen­ta­do à fren­te da casa obser­van­do o movi­men­to das nuvens. De per­to, as ruas são sinis­tras, há mui­tas casas aban­do­na­das e o car­ri­nho de bebê leva sacos de bata­tas; quan­to ao homem que obser­va o céu, é mais um desem­pre­ga­do alcóo­la­tra e incha­do, catatô­ni­co, olhan­do para o nada. 

No sécu­lo XIX foram ins­ta­la­dos ali gran­des com­ple­xos fabris. Na vira­da do sécu­lo, Roubaix era conhe­ci­da como a Manchester fran­ce­sa. Casas padro­ni­za­das foram então cons­truí­das para abri­gar famí­li­as de ope­rá­ri­os daque­la prós­pe­ra indús­tria. O espa­ço onde hoje fun­ci­o­na a gran­de sala de expo­si­ções do Le Fresnoy, cujo pro­je­to de refor­ma é assi­na­do pelo arqui­te­to Bernard Tschumi, foi ori­gi­nal­men­te o rin­que de pati­na­ção e a pis­ta de dan­ça dos habi­tan­tes da região.

Entretanto, no final dos anos 1970 vie­ram a ban­car­ro­ta, a deca­dên­cia e a desin­dus­tri­a­li­za­ção, com seus efei­tos. Roubaix tor­nou-se então uma típi­ca cida­de mor­ta, meio fan­tas­ma, lugar de bêba­dos e, pou­co a pou­co, tam­bém de tra­fi­can­tes. Vieram então os con­tra­ban­dis­tas de armas e a fama de lugar des­gra­ça­do. Taxas altas de desem­pre­go, trá­fi­co pesa­do de heroí­na… Máfia rus­sa, chi­ne­sa, afri­ca­na. Mercados de pul­ga onde se ven­di­am obje­tos art-déco, bur­cas fura­das e bone­cas sujas com fun­gos sain­do pelas nari­nas.

O pro­je­to semi­nal de cri­a­ção de um gran­de cen­tro de pro­du­ção de arte con­tem­po­râ­nea, vol­ta­do para lin­gua­gens e téc­ni­cas audi­o­vi­su­ais (novas e anti­gas) foi pro­pos­to a pre­fei­tu­ras de diver­sas cida­des fran­ce­sas. Todos os pre­fei­tos foram refra­tá­ri­os a rece­bê-lo pois a con­di­ção exi­gi­da era a de des­ti­na­rem par­te de seu orça­men­to anu­al à insi­tui­ção. Todos, exce­to o de Tourcoing, peque­na cida­de que não dis­pu­nha de um orça­men­to espe­ci­al­men­te far­to. Seu pre­fei­to encan­tou-se pelo pro­je­to e logo man­dou ins­cre­ver nas latas de lixo “Tourcoing, la cul­tu­re”.

Em Roubaix, a ter­cei­ra casa onde morei fica­va em um bair­ro muçul­ma­no. Naquele perío­do, vi e con­vi­vi com alguns jovens Kouachis, Coulibalys mas tam­bém os Bathilys da vizi­nhan­ça. Não estou sen­do meta­fó­ri­ca.

Soube recen­te­men­te que Roubaix tor­nou-se expor­ta­do­ra de garo­tos jiha­dis­tas para as tais filiè­res ira­qui­a­nas e síri­as. Até rou­bai­si­a­nos de ascen­dên­cia por­tu­gue­sa têm adqui­ri­do fama inter­na­ci­o­nal como car­ras­cos. Aparecem em víde­os de deca­pi­ta­ção cole­ti­va que cir­cu­lam ampla­men­te na inter­net e na mídia em geral.

Por mais que tenham nas­ci­do na França, geral­men­te cres­cem em um ambi­en­te tra­di­ci­o­na­lis­ta e des­po­li­ti­za­do, com uma visão super­fi­ci­al e pou­co cla­ra da cul­tu­ra de ori­gem de seus pais. A mai­or par­te não fala nem com­pre­en­de ára­be. Muitos aca­bam por se poli­ti­zar pela via obs­cu­ra da dou­tri­na­ção reli­gi­o­sa. Ignoram a his­tó­ria das guer­ras de des­co­lo­ni­za­ção da Indochina e Argélia, e alguns não encon­tram con­for­to sufi­ci­en­te na sua iden­ti­da­de fran­ce­sa.  

Crescem ali­men­tan­do uma revol­ta con­fu­sa e des­fo­ca­da, cujo alvo ime­di­a­to aca­ba sen­do mui­tas vezes o imi­gran­te não-fran­có­fo­no recém che­ga­do ao solo fran­cês. Insultos e cus­pa­ra­das eram cenas comuns no metrô que liga Roubaix a Lille. O alvo não era o fran­cês bran­co ou pure sou­che, mas chi­ne­ses, lati­nos e afri­ca­nos de Moçambique, Guiné e Cabo Verde. Não eram inco­muns gri­tos de inter­di­ção do tipo “Falem em fran­cês, seus idi­o­tas! Vocês moram na França!” 

Sentir-se con­for­tá­vel ou à von­ta­de com sua pró­pria iden­ti­da­de, em qual­quer país, é ain­da o pri­vi­lé­gio de uma mino­ria. Esteja a ques­tão reli­gi­o­sa envol­vi­da ou não. Evidentemente a nor­ma­ti­za­ção da iden­ti­da­de e os refor­ços nar­cí­si­cos não pode­rão expli­car por intei­ro o pro­ble­ma atu­al do ter­ro­ris­mo fun­da­men­ta­lis­ta, mas a iden­ti­da­de cer­ta­men­te entra em jogo nas múl­ti­plas con­sequên­ci­as dos atos ter­ro­ris­tas.

Apesar de todas as muta­ções popu­la­ci­o­nais vivi­das pela Europa, no ima­gi­ná­rio e na polí­ti­ca, uma iden­ti­da­de naci­o­nal real­men­te con­for­tá­vel ain­da é tri­bu­tá­ria da ideia de heran­ça bio­ló­gi­ca, da lei do san­gue ou da ter­ra. Não bas­ta pos­suir cida­da­nia fran­ce­sa para se sen­tir con­for­ta­vel­men­te fran­cês.

Enquanto isso, do lado da iden­ti­da­de reli­gi­o­sa, pare­ce cada vez mais difí­cil para mui­tos muçul­ma­nos vis­lum­bra­rem abdi­car da sha­ria ou do véu inte­gral sem abdi­car da reli­gião. Não que­rem ou não podem acei­tar a dua­li­da­de de uma vida ori­en­ta­da por prin­cí­pi­os reli­gi­o­sos mas soci­al­men­te pau­ta­da pelas leis do esta­do lai­co.

Neste deba­te, uma per­gun­ta mere­ce­ria ser colo­ca­da: de que manei­ra os mui­tos Kouachis e Coulibalys apren­dem, inte­ri­o­ri­zam, adap­tam e atu­a­li­zam uma iden­ti­da­de ára­be base­a­da no empo­de­ra­men­to mili­tar e numa fé homi­ci­da-sui­ci­da?

As guer­ras finan­ci­a­das pelo Ocidente no Oriente Médio e na África têm fun­ci­o­na­do como pla­ta­for­mas des­sa radi­ca­li­za­ção. Como dizia o crí­ti­co Serge Daney, os ater­ro­ri­za­dos estão sem­pre mais aptos a se tor­na­rem ter­ro­ris­tas, por isso as guer­ras e as pri­sões cos­tu­mam ser óti­mas esco­las para o extre­mis­mo.

Não se tra­ta de recu­pe­rar o velho dis­cur­so da cul­pa his­tó­ri­ca, mas de enca­rar a exis­tên­cia de um padrão de radi­ca­li­za­ção islâ­mi­ca que encon­tra hoje, em alguns paí­ses euro­peus, ambi­en­te pro­pí­cio para se desen­vol­ver e se repro­du­zir.

Líderes e men­to­res jiha­dis­tas já não encar­nam o velho mode­lo exó­ti­co do sábio bar­bu­do de olhar sere­no. A mai­o­ria ado­ta a taqîya, o prin­cí­pio que auto­ri­za a dis­si­mu­la­ção do jiha­dis­mo. Especialistas afir­mam que, mes­mo nas pri­sões, o per­fil e o modus ope­ran­di dos dou­tri­na­do­res é dife­ren­te daque­le que se via há dez anos. Discretamente mani­pu­lam os dis­cí­pu­los e maqui­nam seus pro­je­tos de vin­gan­ça con­tra um ini­mi­go que pode rece­ber mui­tos nomes, capi­ta­lis­mo, Ocidente, Americanos, Judeus, Jyllands-Posten, Charlie Hebdo.

Se o alvo ime­di­a­to dos ter­ro­ris­tas era a equi­pe de char­gis­tas do Charlie Hebdo e a con­se­quen­te pro­du­ção de pâni­co soci­al, de temor ao islã e res­pei­to ao Profeta, o tiro que sai pela cula­tra atin­ge milha­res de ára­bes e muçul­ma­nos resi­den­tes no ter­ri­tó­rio fran­cês. Estes sofre­rão as con­sequên­ci­as da inten­si­fi­ca­ção de polí­ti­cas racis­tas por par­te da direi­ta xenó­fo­ba. 

Por outro lado, e para além das apro­pri­a­ções fas­cis­tói­des da tra­gé­dia, a liber­da­de que ago­ra o Charlie Hebdo sim­bo­li­za inco­mo­da inte­lec­tu­ais da esquer­da. De um lado por­que essa liber­da­de é, em rea­li­da­de, mui­to menos bem com­por­ta­da do que ten­ta fazer crer a bela mar­cha da união dos povos e cul­tu­ras. Se os char­gis­tas encar­na­vam uma for­ma de liber­da­de de expres­são e de impren­sa, ela impli­ca­va a radi­ca­li­da­de crí­ti­ca do escár­nio. Talvez sua gran­de vir­tu­de fos­se não dese­nhar para agra­dar a seus admi­ra­do­res, mas jus­ta­men­te man­ter pre­sen­te a pos­si­bi­li­da­de de ques­ti­o­ná-los e mais, de inco­mo­dá-los ou mes­mo insul­tá-los. Essa recu­sa é fru­to de uma con­cep­ção anár­qui­ca e pro­fun­da­men­te anti­cle­ri­cal da soci­e­da­de… 

No entan­to, é melhor não tomar o efei­to pela cau­sa. E as char­ges, embo­ra fos­sem o alvo, estão lon­ge de serem a cau­sa dos assas­si­na­tos. Tampouco é cau­sa a vio­lên­cia estig­ma­ti­zan­te ou o racis­mo que alguns inte­lec­tu­ais têm atri­buí­do aos dese­nhos.

Charlie Hebdo não era um jor­nal vol­ta­do exclu­si­va­men­te para a ques­tão islâ­mi­ca ou reli­gi­o­sa. De pou­co adi­an­ta bus­car expli­ca­ções e ten­tar jul­gar sua lin­gua­gem a par­tir das cin­co char­ges de Maomé, para con­cluir, tal­vez com cer­to alí­vio, que seus auto­res eram isla­mo­fó­bi­cos. Esse redu­ci­o­nis­mo é levi­a­no e, nes­te momen­to, tam­bém peri­go­so, pois ali­men­ta a ideia recon­for­tan­te de que a víti­ma, de cer­to modo, mere­ceu o seu des­ti­no.

Durante déca­das as pro­vo­ca­ções dos char­gis­tas Wolinski e Cabu tive­ram como prin­ci­pal alvo os cos­tu­mes, a moral sexu­al e a cena polí­ti­ca fran­ce­sa. Questões como a lega­li­za­ção do abor­to foram abor­da­das por eles de for­ma bri­a­lhan­te­men­te cru­el. Abordavam fron­tal­men­te as ide­a­li­za­ções român­ti­cas da pró­pria iden­ti­da­de fran­ce­sa, com o lema da liber­da­de, igual­da­de e fra­ter­ni­da­de. Cultivavam a viru­lên­cia e a polê­mi­ca. Para quem conhe­ce  a tra­je­tó­ria des­ses dese­nhis­tas ou os núme­ros de Charlie publi­ca­dos nos anos 1970 e 1980, o gru­po esta­va bem lon­ge de poder ser defi­ni­do como um ban­do de idi­o­tas saca­nas mais ou menos ali­e­na­dos ou irres­pon­sá­veis, mui­to menos isla­mo­fó­bi­cos.

Não estou fazen­do aqui juí­zo de gos­to, o que ence­ta­ria cer­ta­men­te um outro tipo de tex­to. Gostaria ape­nas de assi­na­lar que, à esté­ti­ca viru­len­ta e pro­vo­ca­do­ra, e à pos­tu­ra enfant ter­ri­ble do Charlie Hebdo se con­tra­põe o ide­al mui­to con­tem­po­râ­neo e bas­tan­te difun­di­do de que os artis­tas vão sal­var o mun­do. Seja repre­sen­tan­do-o atra­vés de ima­gens e sons mais jus­tos, tra­zen­do demo­cra­cia à eco­no­mia visu­al onde impe­ra o poder midiá­ti­co, seja expon­do e denun­ci­an­do a injus­ti­ça des­se mes­mo mun­do, gui­an­do-se pela ideia de que a cri­a­ção artís­ti­ca o tor­na­rá mais habi­tá­vel.

O artis­ta con­tem­po­râ­neo é ou pro­cu­ra agir tal qual bom sama­ri­ta­no. Introjetou um ide­al e uma ideia de arte polí­ti­ca inó­cua que em geral não pro­ble­ma­ti­za as estra­té­gi­as de repre­sen­ta­ção de que se vale e negli­gen­cia sua inser­ção con­for­tá­vel no cam­po mais amplo da cul­tu­ra e da inter­pre­ta­ção dos sig­nos e sím­bo­los. Suas melho­res inten­ções per­fa­zem e aju­dam a legi­ti­mar pro­je­tos de cons­tru­ção de museus impo­nen­tes e a cri­a­ção de resi­dên­ci­as artís­ti­cas nas peri­fe­ri­as mais ou menos des­gra­ça­das de todo o mun­do. Muitas vezes ser­vi­mos como boi de pira­nha num pro­je­to bem mais amplo de gen­tri­fi­ca­ção e remo­de­la­gem de cer­tas áre­as urba­nas. Assim a pobre­za pode­rá ser vis­ta, con­su­mi­da ou expe­ri­men­ta­da numa espé­cie de par­que temá­ti­co artís­ti­co-antro­po­ló­gi­co.

Esse deba­te, no entan­to, é anti­go, e no cam­po da poe­sia fran­ce­sa do pós-guer­ra opôs poe­tas huma­nis­tas e alguns expo­en­tes das van­guar­das, que enfren­ta­vam o pro­ble­ma da vio­lên­cia do pre­sen­te por meio de estra­té­gi­as esté­ti­cas que ques­ti­o­na­vam os limi­tes da repre­sen­ta­ção e o fra­cas­so comu­ni­ca­ci­o­nal do poe­ma.

Benjamin Peret sin­te­ti­zou o pro­ble­ma no pan­fle­to A deson­ra dos poe­tas, publi­ca­do em 1945 em res­pos­ta ao livro A hon­ra dos poe­tas, assi­na­do por Pierre Seghers, Paul Éluard e Jean Lescure e publi­ca­do pelas Edições de Minuit, no âmbi­to da Resistência fran­ce­sa. 

Naqueles anos Peret não foi o úni­co poe­ta a assi­na­lar publi­ca­men­te a retó­ri­ca tera­pêu­ti­ca huma­nis­ta da exal­ta­ção da dig­ni­da­de huma­na con­tra a injus­ti­ça e bus­cou afir­mar a liber­da­de poé­ti­ca como um pri­vi­lé­gio neces­sá­rio no com­ba­te às aven­tu­ras didá­ti­cas em que fra­cas­sam os escri­to­res atin­gi­dos pela injus­ti­ça soci­al. Atingidos ou pre­o­cu­pa­dos, revol­ta­dos com a injus­ti­ça…

É nes­se sen­ti­do que qual­quer dis­cus­são sobre as ima­gens do Charlie Hebdo deve­ria dis­tin­guir o jor­na­lis­mo tra­di­ci­o­nal da sáti­ra humo­rís­ti­ca. Distinguir o jor­na­lis­mo que tra­ba­lha segun­do a lógi­ca de repre­sen­ta­ção e da comu­ni­ca­ção, da char­ge satí­ri­ca que tra­ba­lha a con­tra­pe­lo, numa estra­té­gia mui­to mais artís­ti­ca – em cer­to sen­ti­do apro­xi­má­vel da Pop Art — inten­si­fi­can­do e satu­ran­do o dra­ma do seu tem­po num tipo de lin­gua­gem que simul­ta­ne­a­men­te mime­ti­za o que há de pior no mun­do e expõe cri­ti­ca­men­te o fun­do fal­so e mui­tas vezes hipó­cri­ta sobre o qual posi­ções morais, dis­cur­sos éti­cos e reli­gi­o­sos fin­gem se apoi­ar.

Muitos dirão que o resul­ta­do é infan­til e con­fun­di­rão a vio­lên­cia da lin­gua­gem satí­ri­ca com opres­são da Europa bran­ca… Outros dirão que a esté­ti­ca é de mau gos­to, que com seu jor­na­le­co só con­tri­buíam para tor­nar o mun­do mais racis­ta, etc. etc. etc. Muitas des­sas inter­pre­ta­ções e jul­ga­men­tos ansi­o­sos par­tem de uma lei­tu­ra equi­vo­ca­da do que está sen­do de fato sati­ri­za­do nas char­ges, sen­do o Charlie Hebdo um jor­nal que comen­ta acon­te­ci­men­tos recen­tes. Assim, é reco­men­dá­vel ten­tar ler e ques­ti­o­nar as char­ges reme­ten­do-as ao seu con­tex­to ori­gi­nal. 

Quanto ao argu­men­to segun­do o qual esta­ri­am pas­san­do dos limi­tes da repre­sen­ta­ção e ultra­jan­do sím­bo­los reli­gi­o­sos, é bas­tan­te ingê­nuo e em ter­mos de his­tó­ria e teo­ria das ima­gens intei­ra­men­te con­ser­va­dor. Como se ao lon­go da História da Arte as figu­ras san­tas tives­sem rece­bi­do sem­pre o mes­mo tipo de tra­ta­men­to ico­no­grá­fi­co, pau­ta­do pela mes­ma e inques­ti­o­ná­vel inter­pre­ta­ção das sagra­das escri­tu­ras. Para um pin­tor de íco­nes bizan­ti­nos que repre­sen­ta­va uma Virgem impas­sí­vel, bidi­men­si­o­nal, cober­ta por um man­to e fri­a­men­te conec­ta­da ao meni­no Jesus que traz no colo, uma Madonna renas­cen­tis­ta, de car­ne volu­mo­sa, o seio visí­vel e segu­ran­do um meni­no Jesus que toca e brin­ca com o cor­po da mãe pare­ce­ria tão ou mais escan­da­lo­sa do que uma char­ge de Charlie Hebdo repre­sen­tan­do a Santíssima Trindade fazen­do tren­zi­nho do amor.

As rea­ções às char­ges aca­bam reve­lan­do mui­to mais sobre nos­sa cul­tu­ra visu­al e seus pon­tos cegos do que sobre os pró­pri­os humo­ris­tas do jor­nal. É dese­já­vel que as pro­pos­tas de semi­o­se e de ques­ti­o­na­men­to ide­o­ló­gi­co das estra­té­gi­as síg­ni­cas des­sas sáti­ras sejam arti­cu­la­das levan­do em con­si­de­ra­ção a exis­tên­cia de uma pers­pec­ti­va de nega­ti­vi­da­de da lin­gua­gem. A resis­tên­cia ao ímpe­to edi­fi­can­te, que assu­me, às vezes inge­nu­a­men­te, a mis­são — tão cris­tã, aliás — de cons­tru­ção de um “homem melhor” atra­vés da arte. Em nome da recu­pe­ra­ção dos valo­res demo­crá­ti­cos e de uma pre­ten­sa edu­ca­ção polí­ti­ca do espec­ta­dor, mui­ta obra de arte arro­gan­te e sim­pló­ria tem sido pro­du­zi­da e cul­tu­a­da.

Em 1974, numa entre­vis­ta na qual se ques­ti­o­na­va a capa­ci­da­de do humo­ris­ta de mudar o mun­do, Georges Wolinski dizia que um humo­ris­ta trans­for­ma as coi­sas dei­xan­do as pes­so­as menos baba­cas. Eu acres­cen­ta­ria ape­nas que tal­vez não se tra­te de trans­for­mar os baba­cas em menos baba­cas, mas de não cair na arma­di­lha comu­ni­ca­ci­o­nal de enca­rar o outro (o lei­tor, o espec­ta­dor, o públi­co) como um igno­ran­te inde­fe­so pre­so no labi­rin­to de sua pró­pria idi­o­tia. 

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