O diretor François Ozon

Stefan Nimmesgern/Divulgação

O diretor François Ozon

Os fundos falsos da guerra

No cinema

14.06.17

Entre os fil­mes fran­ce­ses da nova safra exi­bi­dos no Festival Varilux, um dos mais inte­res­san­tes é sem dúvi­da Frantz, de François Ozon (em car­taz no IMS Rio nes­ta sex­ta, 16/6). O fato de ser um dra­ma de épo­ca não tira nem um pou­co de sua atu­a­li­da­de, mui­to pelo con­trá­rio: ao evo­car a ani­mo­si­da­de da atmos­fe­ra euro­peia logo após a Primeira Guerra Mundial, essa refil­ma­gem livre de um clás­si­co de Ernst Lubitsch (Não mata­rás, 1932), base­a­do por sua vez numa peça tea­tral de Maurice Rostand, colo­ca em rele­vo temas urgen­tes como o naci­o­na­lis­mo, a xeno­fo­bia, a difi­cul­da­de de enten­der e con­vi­ver com o “outro”.

A ação come­ça em 1919 no vila­re­jo ale­mão de Quedlinburg, onde a jovem Anna (Paula Beer) obser­va com estra­nha­men­to a che­ga­da de um mis­te­ri­o­so foras­tei­ro que depo­si­ta flo­res no túmu­lo de seu noi­vo Frantz (Anton von Lucke), mor­to em com­ba­te. Ela des­co­bre tra­tar-se do fran­cês Adrien Rivoire (Pierre Niney), que reme­mo­ra para ela os tem­pos em que ele e Frantz explo­ra­ram jun­tos a vida cul­tu­ral e fes­ti­va de Paris antes da guer­ra.

Um qua­dro, um tiro

Esse pon­to de par­ti­da dra­má­ti­co, apre­sen­ta­do de modo obje­ti­vo, ence­na­do de modo clás­si­co e foto­gra­fa­do num pre­to e bran­co lím­pi­do, com todo o qua­dro niti­da­men­te em foco, vai reve­lar ao lon­go da nar­ra­ti­va um punha­do de fun­dos fal­sos e de revi­ra­vol­tas des­con­cer­tan­tes, que obvi­a­men­te não cabe ante­ci­par aqui.

Basta dizer que, ao ado­tar uma mise-en-scè­ne clás­si­ca, qua­se con­ven­ci­o­nal, e depois ir des­cons­truin­do aos pou­cos a “ver­da­de” que ela esta­be­le­ce, Ozon pare­ce ins­ti­gar o espec­ta­dor a des­con­fi­ar das apa­rên­ci­as, das ver­da­des ins­ti­tuí­das, da ima­gem trans­lú­ci­da. Com a mes­ma suti­le­za como que a foto­gra­fia pas­sa, de quan­do em quan­do, do pre­to e bran­co às cores (des­sa­tu­ra­das, em tons pas­tel), os fatos e os sen­ti­men­tos even­tu­al­men­te mudam de sinal.

Qual era, afi­nal, a rela­ção entre Adrien e Frantz? O que os dois fize­ram jun­tos em Paris antes da guer­ra? Qual o papel da músi­ca na vida dos dois? Onde entra cer­ta visi­ta ao Louvre, cer­ta tela de Manet (O sui­ci­da) ali expos­ta?

No pro­ces­so de depu­ra­ção de Ozon/Lubitsch/Rostand, um úni­co qua­dro resu­me todo o sen­ti­do de uma tra­je­tó­ria esté­ti­co-exis­ten­ci­al, e um úni­co tiro defi­ne a guer­ra e seu absur­do. É em tor­no des­ses dois ele­men­tos, o qua­dro e o tiro, que se orga­ni­zam as ver­da­des e men­ti­ras des­se rela­to.

Distribuídos pela nar­ra­ti­va, alguns pares simé­tri­cos de cenas, como ecos ou rimas inter­nas, cha­mam a aten­ção: duas vezes um per­so­na­gem (ora Adrien, ora Anna) sen­te-se acu­a­do num bar de um país estran­gei­ro onde se os fre­gue­ses can­tam um hino patrió­ti­co; duas vezes alguém pas­sa mal ao tocar seu ins­tru­men­to; duas vezes mer­gu­lha-se num lago.

Édouard Manet

Le sui­ci­de [O sui­ci­da] (1877–1881)

Culpa e ran­cor

Mais do que valo­res como a cora­gem e seu opos­to, a covar­dia, que cos­tu­mam povo­ar os fil­mes em tor­no da guer­ra, os sen­ti­men­tos bási­cos que per­pas­sam esse dra­ma são o ran­cor, a cul­pa, a com­pai­xão e, de um modo tor­to, o amor. O patri­o­tis­mo é vis­to, essen­ci­al­men­te, como últi­mo refú­gio dos res­sen­ti­dos – tal como sin­te­ti­za­do no tris­te pre­ten­den­te à mão de Anna, Kreutz (Johann von Bülow).

Com uma obra pro­vo­ca­do­ra e irre­gu­lar, em que poli­ci­ais como Swimming pool se alter­nam com paró­di­as musi­cais como 8 mulhe­res e comé­di­as áci­das como Gotas d’água em pedras escal­dan­tes e Potiche – Esposa tro­féu, qua­se sem­pre com uma esté­ti­ca extra­va­gan­te e até estri­den­te, esta apa­ren­te con­ver­são de Ozon à sobri­e­da­de clás­si­ca pare­ce ter uma dupla inten­ção: con­fe­rir peso e gra­vi­da­de a seu tema e, ao mes­mo tem­po, sur­pre­en­der os espec­ta­do­res com uma maes­tria maro­ta da con­ven­ção. É como se o dire­tor dis­ses­se: vejam, sei mui­to bem con­tar uma his­tó­ria; tão bem que vou con­tá-la, des­fa­zê-la e recon­tá-la de outro modo.

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