Os grandes sóis violentos

No cinema

27.04.17

O sonho aca­bou; quem não dor­miu no sle­e­ping-bag nem sequer sonhou.” A fra­se da can­ção de Gilberto Gil tal­vez seja uma manei­ra de resu­mir em pou­cas pala­vras o espí­ri­to de No inten­so ago­ra. Qualquer des­cri­ção ou sinop­se será empo­bre­ce­do­ra e ilu­só­ria, inclu­si­ve esta: o docu­men­tá­rio de João Moreira Salles, exi­bi­do no Rio e em São Paulo no fes­ti­val É Tudo Verdade, orga­ni­za e dis­cu­te ima­gens fil­ma­das na China maoís­ta de 1966, na França de maio de 1968, na Tchecoslováquia da Primavera de Praga e no Brasil da dita­du­ra mili­tar.

O fil­me todo se cons­ti­tui, por­tan­to, de mate­ri­al de arqui­vo (pes­so­al ou públi­co), comen­ta­do de viva voz pelo pró­prio dire­tor. O resul­ta­do é uma obra com­ple­xa, com vári­as cama­das e inú­me­ras impli­ca­ções pos­sí­veis, a par­tir de alguns eixos fun­da­men­tais, que vou ten­tar apon­tar aqui.

Há, por um lado, des­de as pri­mei­ras ima­gens – fil­me domés­ti­co de uma famí­lia pas­se­an­do por uma rua cari­o­ca –, uma refle­xão acer­ca de tudo aqui­lo que a câme­ra reve­la a des­pei­to, ou mes­mo à reve­lia, das inten­ções de quem a ope­ra. Naquele regis­tro anô­ni­mo apa­ren­te­men­te sin­ge­lo e ino­cen­te mani­fes­tam-se, ao olhar aten­to, sinais de toda uma estra­ti­fi­ca­ção soci­al e con­fi­gu­ra­ção cul­tu­ral. O soci­al e his­tó­ri­co se infil­tra sutil­men­te no ínti­mo e pes­so­al. O públi­co inva­de o pri­va­do.

Nas bor­das do qua­dro

A mes­ma per­cep­ção agu­ça­da do que se mos­tra a con­tra­pe­lo, nas bor­das ou no fun­do do qua­dro, con­fe­rin­do outros sen­ti­dos à ima­gem, vale para os regis­tros ama­do­res da via­gem fei­ta à China pela mãe do dire­tor e um gru­po de ami­gos em 1966, em ple­na Revolução Cultural maoís­ta. Ali, as far­tas infor­ma­ções de cada toma­da são poten­ci­a­li­za­das pelos comen­tá­ri­os fei­tos à épo­ca pela então jovem senho­ra da eli­te cari­o­ca e refra­ta­das por aque­les fei­tos hoje por seu filho. Aquilo que esca­pa­va então ao gru­po de turis­tas encan­ta­dos – por exem­plo, o sig­ni­fi­ca­do de car­ta­zes e ins­cri­ções em chi­nês – tin­ge com outras cores o que eles viram sem ver com­ple­ta­men­te.

Uma ope­ra­ção aná­lo­ga, mas de cer­to modo na dire­ção con­trá­ria, dá-se no exa­me das ima­gens dos con­fron­tos de maio de 68 em Paris. Desta vez, par­te-se no mais das vezes das ima­gens “públi­cas” – de docu­men­tá­ri­os, cine­jor­nais e repor­ta­gens tele­vi­si­vas da épo­ca – para inves­ti­gar o pri­va­do, as moti­va­ções e sen­ti­men­tos dos indi­ví­du­os envol­vi­dos na con­fla­gra­ção. Há uma ten­ta­ti­va, em geral bem-suce­di­da, de des­pir essa conhe­ci­da ico­no­gra­fia da páti­na míti­co-ide­o­ló­gi­ca que a reves­tiu ao lon­go das déca­das e bus­car, por um lado, os seres de car­ne e osso que pul­sa­vam ali e, por outro, sig­ni­fi­ca­dos que as pró­pri­as ima­gens con­têm, mas que pas­sa­ram des­per­ce­bi­dos à épo­ca.

Eixo tem­po­ral

Esse eixo, diga­mos, espa­ci­al – aqui­lo que está no qua­dro e o modo como se rela­ci­o­na com o que está fora – arti­cu­la-se com outro, que pode­ría­mos cha­mar pro­vi­so­ri­a­men­te de tem­po­ral: a rela­ção do ins­tan­te cap­ta­do com o tem­po his­tó­ri­co e com a eter­ni­da­de. O pró­prio títu­lo do docu­men­tá­rio enfa­ti­za a ideia do bre­ve momen­to que, ao con­cen­trar em si tama­nha inten­si­da­de, rever­be­ra vida afo­ra, para o bem e (fre­quen­te­men­te) para o mal.

Essa per­cep­ção agu­da e dolo­ro­sa do ins­tan­te fugi­dio, de uma feli­ci­da­de radi­an­te e irre­pe­tí­vel, é comum aos jovens ati­vis­tas do maio de 68, aos tche­cos da Primavera de Praga, aos turis­tas bra­si­lei­ros na China de Mao, aos estu­dan­tes cari­o­cas que car­re­ga­ram nos ombros o secun­da­ris­ta Edson Luiz, mor­to pela dita­du­ra.

O con­tras­te entre os ápi­ces lumi­no­sos, em que bri­lham “os gran­des sóis vio­len­tos” de que fala­va Drummond, e o coti­di­a­no cin­zen­to que nos toca viver depois que eles pas­sam é insu­por­tá­vel para alguns, ou para mui­tos. No inten­so ago­ra mos­tra o caso de jovens “ses­sen­toi­tis­tas” que se sui­ci­da­ram aos vin­te e pou­cos anos quan­do o sonho mur­chou. Podemos pen­sar em casos aná­lo­gos entre os tche­cos que viram sua pri­ma­ve­ra virar um inver­no tene­bro­so, entre os opo­si­to­res da dita­du­ra mili­tar bra­si­lei­ra e mes­mo entre os turis­tas encan­ta­dos com a des­co­ber­ta da China.

Os usos da mor­te

Num docu­men­tá­rio sobre as pro­mes­sas de ple­ni­tu­de da vida, o tema da mor­te apa­re­ce como con­tra­pon­to ine­vi­tá­vel – e um dos pon­tos altos do fil­me é o cote­jo entre fune­rais de indi­ví­du­os mor­tos nos con­fli­tos na França, na Tchecoslováquia e no Brasil, des­ve­lan­do os sen­ti­dos e usos da mor­te em cada caso.

Dada a ampli­tu­de e vari­e­da­de dos temas que enfei­xa, No inten­so ago­ra dei­xa alguns deles em aber­to, outros ape­nas esbo­ça­dos, como mate­ri­ais a ser desen­vol­vi­dos pos­te­ri­or­men­te pelo pró­prio João Moreira Salles ou por outros rea­li­za­do­res. A con­di­ção soci­al bur­gue­sa dos estu­dan­tes pari­si­en­ses do maio de 68 e o cará­ter essen­ci­al­men­te mas­cu­li­no (machis­ta?) do movi­men­to são alguns exem­plos, bem como a rápi­da trans­for­ma­ção do espí­ri­to con­tes­ta­tó­rio em arti­go de con­su­mo. Tudo isso está no fil­me, mas pas­sa num ins­tan­te, o que, pen­san­do bem, tal­vez tenha tudo a ver com sua pro­pos­ta geral.

Enfim, vol­tan­do a Gilberto Gil, “o sonho aca­bou – e foi pesa­do o sono pra quem não sonhou”. Para quem sonhou, ao con­trá­rio, o que foi pesa­do, e con­ti­nua sen­do, é o des­per­tar.

, , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,