Os instintos mais primitivos

Correspondência

24.10.11

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Grande Guru,

Estava pen­san­do seri­a­men­te em me hos­pe­dar numa CTI, oxi­gê­nio e des­fi­bri­la­dor à mão, para acom­pa­nhar a reta final do Brasileirão tal como se ela se afi­gu­ra­va para o meu Botafogo. As duas últi­mas der­ro­tas, porém, indi­cam que o time vai me pou­par essa gra­na. Em com­pen­sa­ção, o seu Vasco bri­lha lá na fren­te, sem medo de ser feliz. Numa impos­si­bi­li­da­de de o alvi­ne­gro ser cam­peão, tor­ce­rei pelo cruz-mal­ti­no do meu pai.

Quanto a médi­cos, con­tu­do, acho que dei sor­te. Tive aque­le pedi­a­tra a me acom­pa­nhar qua­se até eu mes­mo virar pai. Meu den­tis­ta é o mes­mo des­de que eu era cri­an­ça, lá no Posto 5, em Copacabana. Depois que des­co­bri que era hiper­ten­so duran­te um fecha­men­to de jor­nal (quan­do e onde mais?), um ami­go me indi­cou um clí­ni­co de fé, com quem man­te­nho óti­mas rela­ções há anos. Inclusive por­que par­te da con­sul­ta é dedi­ca­da a con­ver­sar­mos sobre músi­ca clás­si­ca. Salvo o réqui­em do Mozart.

No final de sua últi­ma mis­si­va, você tocou num pon­to ful­cral.

Conforme o tem­po pas­sa, novas espe­ci­a­li­da­des médi­cas pre­ci­sam ser acres­cen­ta­das à agen­da do meu celu­lar. E o clí­ni­co indi­ca uns cole­gas por­re­tas. Uso esse adje­ti­vo em home­na­gem espe­ci­al ao meu uro­lo­gis­ta. Certa vez, liguei para ele fora da épo­ca do exa­me anu­al de PSA e toque retal. Ele aten­deu rin­do: “Ficou com sau­da­de, foi?” (ler com sota­que bai­a­no, fica ain­da mais engra­ça­do). Desse jei­to, a gen­te des­con­trai, né?

Li há tem­pos uma crô­ni­ca do Mario Prata, na qual se des­cre­via uma ida ao uro­lo­gis­ta. Ele fala­va do incô­mo­do da toa­lha de papel estra­te­gi­ca­men­te colo­ca­da caso o toque na prós­ta­ta tives­se um efei­to ful­mi­nan­te sobre sua libi­do. “É pre­cau­ção, alguns paci­en­tes gozam…”, dizia-lhe o médi­co ou uma enfer­mei­ra, já não me lem­bro bem. Sendo um exem­plar do macho lati­no-ame­ri­ca­no, Prata fica­va angus­ti­a­do com a pos­si­bi­li­da­de de ter uma rea­ção físi­ca que, supos­ta­men­te, cons­pi­ra­ria con­tra a sua mas­cu­li­ni­da­de. No tex­to, ele usa­va a angús­tia para cri­ar um sus­pen­se hit­ch­coc­ki­a­no, sobre­tu­do coc­ki­a­no, if you know what I mean. Era engra­ça­do pacas, mas ao mes­mo tem­po era trá­gi­co. Quantos bra­si­lei­ros mor­rem de um cân­cer não diag­nos­ti­ca­do a tem­po por medo de uma deda­da pro­fis­si­o­nal, sigi­lo­sa, sem fins repro­du­ti­vos nem envol­vi­men­to emo­ci­o­nal?

Há, cla­ro, o extre­mo opos­to, quem pre­ci­se se liber­tar em públi­co. Tenho um ami­go que é poli­ci­al civil no inte­ri­or de Minas Gerais e con­ta um cau­so curi­o­so. Era Natal, aque­la modor­ra, um bêba­do ron­can­do alto na car­ce­ra­gem, aque­la der­ro­ta. Eis que entra na dele­ga­cia um cara furi­o­so, que­ren­do regis­trar quei­xa por aten­ta­do vio­len­to ao pudor, velha figu­ra jurí­di­ca que se tra­duz, em lin­gua­gem bíbli­ca, por sodo­mia.

O lan­ce era o seguin­te. Ele e um cole­ga esta­vam de plan­tão na repre­sa que abas­te­ce a cida­de. Tomaram umas canas, fica­ram na mai­or água e deci­di­ram dar vazão aos seus ins­tin­tos mais pri­mi­ti­vos (não sei por que ima­gi­nei ago­ra essa his­tó­ria encar­na­da por sósi­as do Roberto Jefferson e do Zé Dirceu) um com o outro. Tiraram no par ou ímpar quem ia ser­vir pri­mei­ro o peru de Natal. O denun­ci­an­te per­deu e gen­til­men­tre fran­que­ou o ros­co­fe ao usu­fru­to do cole­ga de tra­ba­lho. Na hora da for­ra, entre­tan­to, o acu­sa­do saiu cor­ren­do mor­ro abai­xo para não retri­buir a gen­ti­le­za.

Então, ludi­bri­a­do e ain­da meio ébrio, o cida­dão diri­giu-se à dele­ga­cia a fim de regis­trar a quei­xa. Não adi­an­tou os plan­to­nis­tas expli­ca­rem, ten­tan­do não rir, que tal­vez fos­se má ideia tor­nar públi­co o fato, a cida­de era peque­na, todo mun­do sabia da vida de todo mun­do, o negó­cio podia pegar mal… Não teve jei­to. O cara ficou irre­du­tí­vel.

Moral da his­tó­ria: não bas­ta ser gay, tem que par­ti­ci­par.

Abração,

 

Arthur

 

* Na ima­gem da home que ilus­tra este post: deta­lhe da foto Salle d’attente (2007/2008), de Estelle Lagarde

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