Os limites dos poderes

Colunistas

17.06.15

Dia des­ses, con­ver­san­do com uma ami­ga, fiquei espan­ta­da e assus­ta­da ao des­co­brir que a pala­vra empo­de­ra­men­to esta­va na moda. Espantada por que, para mim, essa pala­vra já este­ve na cris­ta da onda nos anos 1990 nos movi­men­tos soci­ais no Brasil e havia caí­do em desu­so, como as ombrei­ras dos anos 1980 ou as jar­di­nei­ras dos 90. Assustada por per­ce­ber como os anos 1990 já são um pas­sa­do dis­tan­te… Empoderar é uma tra­du­ção ruim do inglês empower­ment e está liga­da à emer­gên­cia de movi­men­tos iden­ti­tá­ri­os no con­tex­to nor­te-ame­ri­ca­no nos anos 1970. Por aqui, mui­tas vezes foi tra­du­zi­da por for­ta­le­ci­men­to, como ter­mo de opo­si­ção ao enfra­que­ci­men­to, mas que per­de na tra­du­ção por se afas­tar de poder e se apro­xi­mar de for­ça.

Com o pas­sar do tem­po, é comum cer­tas pala­vras per­de­rem seu impac­to ou sim­ples­men­te saí­rem do voca­bu­lá­rio cor­ren­te para dar lugar a outras, nem sem­pre melho­res, nem sem­pre mais ade­qua­das, mas em geral mar­ca­das por dinâ­mi­cas soci­ais que expli­cam sua entra­da na cena da lin­gua­gem. Empoderar entrou na moda como for­ma de mar­car a neces­si­da­de de eli­mi­nar a pre­ca­ri­e­da­de e a invi­si­bi­li­da­de de deter­mi­na­dos gru­pos soci­ais. Mulheres, negros, mulhe­res negras e pobres, indí­ge­nas, mora­do­res de fave­las, peri­fe­ri­as e outros aglo­me­ra­dos sub­nor­mais – para usar a cate­go­ria do IBGE –, pes­so­as por­ta­do­ras de defi­ci­ên­cia são alguns dos exem­plos de gru­pos que come­ça­ram a nave­gar nes­ta onda do empo­de­ra­men­to nos anos 1990, numa agen­da mui­to cola­da à das con­fe­rên­ci­as inter­na­ci­o­nais da ONU (meio ambi­en­te, 1992; popu­la­ção, mulhe­res, segu­ran­ça ali­men­tar, pobre­za, racis­mo).

Mas se con­si­de­rar­mos todos os avan­ços na dire­ção de for­ta­le­cer soci­al­men­te todos esses gru­pos como insu­fi­ci­en­tes, pare­ce fazer sen­ti­do que a pala­vra empo­de­ra­men­to tenha fei­to seu retor­no à pau­ta polí­ti­ca. Meu espan­to, no entan­to, veio da imen­sa dis­tân­cia entre a pala­vra empo­de­ra­men­to e duas dis­cus­sões que já seguem avan­ça­das na poli­ti­ca. Primeiro, os limi­tes da estra­té­gia que exi­ge a for­ma­ção de um gru­po iden­ti­tá­rio que rei­vin­di­ca seu for­ta­le­ci­men­to. Depois, por­que rei­vin­di­car empo­de­ra­men­to é ocul­tar da pau­ta de deba­tes de que for­ma de poder esta­mos falan­do.

O pro­ble­ma do exer­cí­cio do poder não é um entre outros. Ao con­trá­rio, a liga­ção entre poder e for­ça, que apro­xi­ma empo­de­ra­men­to e for­ta­le­ci­men­to, exi­ge trans­for­mar em polí­ti­cos os pró­pri­os ter­mos do que se bus­ca com o poder e a for­ça. Sem isso, empo­de­rar arris­ca a ser uma dupla arma­di­lha. A pri­mei­ra, a de que empo­de­rar quem não tem poder aca­be sen­do como enxu­gar gelo, para usar uma expres­são cara a uma das minhas ami­gas femi­nis­tas: sem­pre será pre­ci­so dar poder a algum gru­po iden­ti­tá­rio excluí­do, mere­ce­dor de repa­ra­ção e com­pen­sa­ção, em um pro­ces­so ao mes­mo tem­po infi­ni­to e inó­cuo, por­que rea­fir­ma os limi­tes da com­pen­sa­ção enquan­to os meca­nis­mos de desi­gual­da­de e exclu­são con­ti­nu­am pro­du­zin­do poten­ci­al­men­te novos gru­pos a serem empo­de­ra­dos. Se empo­de­rar não con­tem­plar a pró­pria refle­xão da trans­for­ma­ção nas for­mas de poder, ape­nas repe­te-se a injun­ção poder e for­ça sem, a rigor, pro­du­zir nenhu­ma trans­for­ma­ção polí­ti­ca ou soci­al rele­van­te.

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Por fim,  me pare­ce fácil asso­ci­ar as deman­das por empo­de­ra­men­to, for­ta­le­ci­men­to e reco­nhe­ci­men­to soci­al. Trata-se de exis­tir e de se legi­ti­mar soci­al­men­te, par­tin­do do prin­cí­pio de que uma polí­ti­ca de direi­tos uni­ver­sais fra­cas­sou fra­go­ro­sa­men­te. De fato, essa cons­ta­ta­ção é difí­cil refu­tar. O meu pro­ble­ma polí­ti­co é como pen­sar uma polí­ti­ca de empo­de­ra­men­to, for­ta­le­ci­men­to ou reco­nhe­ci­men­to não limi­ta­das a estra­té­gi­as com­pen­sa­tó­ri­as, des­sas que per­mi­tem às boas cons­ci­ên­ci­as – seguin­do aqui a iro­nia do ter­mo em Nietzsche – dor­mir em paz, enquan­to a esquer­da ten­ta “alcan­çar seus obje­ti­vos clás­si­cos de jus­ti­ça e eman­ci­pa­ção por meio do foco na repa­ra­ção dos hor­ro­res do pas­sa­do”. Para mim, o pro­ble­ma fica ain­da mais gra­ve e difí­cil por que não pre­ten­do des­qua­li­fi­car as polí­ti­cas com­pen­sa­tó­ri­as, mas ape­nas apon­tar suas insu­fi­ci­ên­ci­as.

Compartilho da opi­nião de que as polí­ti­cas iden­ti­tá­ri­as che­ga­ram ao mes­mo esgo­ta­men­to que mar­cam sua ori­gem, ou seja, esta­ri­am tão esgo­ta­das quan­to já este­ve a luta de clas­ses, cujos limi­tes estão mui­to bem demar­ca­dos por Vladimir Safatle. Se o momen­to polí­ti­co pede o ques­ti­o­na­men­to as cha­ma­das polí­ti­cas da dife­ren­ça é por indi­car um para­do­xo cujos ter­mos são, eles mes­mos, polí­ti­cos: a exi­gên­cia de pri­mei­ro fixar os sujei­tos polí­ti­cos em para­dig­mas iden­ti­tá­ri­os para depois poder empo­de­rá-los ou for­ta­le­cê-los. O que só é um pro­ble­ma quan­do, a par­tir daí, a roda gira sobre si mes­ma, e o empo­de­ra­do de ontem cami­nha céle­re para tor­nar-se o auto­ri­tá­rio de ama­nhã. 

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