Os livros e autores decisivos de Calcanhotto, Scott e Lila

IMS na FLIP

06.07.13

IMS  na Flip

No segundo dia da programação da Casa do IMS, na sexta-feira, os gaúchos Adriana Calcanhotto e Paulo Scott e a franco-iraniana Lila Azam Zanganeh falaram de livros e escritores que marcaram decisivamente suas vidas. No caso de Adriana, que está na Flip para lançar Antologia ilustrada da poesia brasileira (com seleção e desenhos dela), a marca deixada por Mario Quintana a remete à infância em Porto Alegre.

“Ele era um flâneur, ficava andando pela cidade. Minha mãe dizia: ‘É o poeta!’. Uma vez eu o vi com uma meia de cada cor. Pensei: ‘Ah, poeta é o cara que pode usar uma meia de cada cor”, contou ela para a plateia que lotou a casa.

Na antologia, ela desenhou, na parte dedicada a Quintana, um menino com meias de cores diferentes. Os poemas que escolheu para o livro são “Biografia” e “Canção da aia para o filho do rei”. Adriana leu os dois na conversa do IMS e alguns outros.

Respondendo a uma pergunta da mediadora Alice Sant’Anna, editora assistente da revista serrote e poeta que participa da programação oficial da Flip, a cantora e compositora reconheceu que seu projeto Adriana Partimpim, de discos mais voltados para crianças, está ligado a Quintana e demais autores que leu na infância, além de músicas que ouviu.

“Cheguei à poesia através da música. E é uma coisa bem brasileira, porque o Brasil tem alta poesia em forma de música”, disse ela, lembrando que, ao contrário do que fez com vários poetas, nunca conseguiu pôr melodia em versos de Quintana. “Não ouço a música quando leio os poemas dele.” Ouça o áudio da mesa na íntegra.

Paulo Scott, primeiro a falar na sexta-feira, disse que ler A náusea, de Jean-Paul Sartre, determinou sua vida. “Fundou minha opção pela literatura.”

Segundo ele, de 47 anos, era até motivo de exclusão de seu grupo de conhecidos não ter lido A náusea. “Como todo moleque, eu pensava em ser um popstar, um desportista, um surfista. Mas com 14 anos o que eu queria mesmo era ser Sartre”, contou ao mediador Daniel Pellizzari, redator do site do IMS e escritor.

Para Scott, todos os seus livros, os de poesia e os de prosa, dialogam com A náusea. “Narelle é a versão feminina de Antoine Roquentin”, afirmou ele, aproximando a personagem de Ithaca Road, seu romance recém-lançado, do protagonista do livro de Sartre, publicado em 1938.

Segundo o escritor gaúcho, A náusea, embora melancólico, dá ao leitor a sensação de que o peso de existir não é exclusividade dele, e sim uma condição da vida. “O jovem é ignorante em relação à fragilidade da vida. Aos 20 anos, não sabe que é finito. Aos 40 anos, na grande curva, já sabe que a vida está acabando.” Ouça o áudio da mesa na íntegra.

Lila Azam Zanganeh, no bom português que vem aprendendo, falou mais de felicidade. O livro que está lançando na Flip é O encantador – Nabokov e a felicidade. Ela escolheu para a conversa com Samuel Titan Jr., coordenador executivo cultural do IMS, o romance Ada ou ardor, que Vladimir Nabokov (russo que emigrou para os EUA e se tornou um dos principais escritores de língua inglesa) publicou em 1969.

“Estou convencido de que Nabokov é o grande escritor da felicidade”, afirmou.

Ela lembrou que, para Nabokov, o outro mundo era aqui e que não adiantava criar um paraíso pós-vida. Isto não significa disfarçar dores profundas, como algumas que enfrentou (a fuga do nazismo é um dos exemplos) e as de seus personagens, caso do Humbert Humbert de Lolita (1955), seu romance mais conhecido.

“Por causa de Lolita e de outros personagens dele, como Ada, de 14 anos, acha-se que Nabokov era até um pedófilo. E não era. Ele se interessava por essa fase da vida porque teve um amor quando era adolescente, e isso provocou sua primeira explosão de consciência”, disse Lila, destacando a paixão absoluta do escritor por Vera, sua mulher. “Toda mulher sonharia com as cartas que ele escreveu para ela, cheias de ‘te amo’. E apenas um de seus livros não foi dedicado a ela.” Ouça o áudio da mesa na íntegra.

Assim como a primeira, a segunda noite da Casa do IMS terminou com sambas de compositores da Portela, interpretados por Paulão 7 Cordas (violão e voz), Alessandro Cardozo (cavaquinho) e Rodrigo de Jesus (percussão). Foram incluídas no repertório músicas que não tinham sido cantadas na noite de abertura, como “Cocorocó” (Paulo da Portela).

Outro destaque da casa é a exposição de fotos de David Drew Zingg (1923-2000), cujo acervo está sob a guarda da IMS. Com curadoria de Paulo Roberto Pires, a mostra reúne fotos que Zingg, americano que se radicou no Brasil na década de 1960, fez de nomes importantes da música brasileira. Pixinguinha, Dorival Caymmi, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Baden Powell, Chico Buarque e Caetano Veloso estão entre os personagens retratados.

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