Os loucos do link

Internet

04.10.15

Nem quin­ze anos de aná­li­se con­se­gui­ram resu­mir mais exem­plar­men­te minhas fobi­as do que a fra­se “o mun­do ano­ta­do”. Trata-se do mis­si­on sta­te­ment do genius, um site que pre­ten­de isso mes­mo, cri­ar notas expli­ca­ti­vas para o que se can­ta, escre­ve ou diz por aí. É o infer­no da nota de pé de pági­na, da bula cul­tu­ral, da expli­ca­ção fas­ci­na­da por si mes­ma. E uma espé­cie de paraí­so nerd, pon­to de encon­tro de gen­te que, como aque­le per­so­na­gem da Praça da Alegria, gos­ta de tudo bee­e­em expli­ca­di­nho, nos seus mííííííí­ni­mos deta­lhes.

[Se este tex­to tives­se sido publi­ca­do no genius, você já veria ilu­mi­na­do no pará­gra­fo ante­ri­or “Praça da Alegria” (com a devi­da his­tó­ria do velho pro­gra­ma humo­rís­ti­co) e a des­cri­ção do seu Explicadinho (per­so­na­gem de Rony Rios, o ator que fazia a Velha Surda, oppppps, olha eu aqui me expli­can­do)]

O site exis­te des­de 2009 e nas­ceu para mape­ar, cola­bo­ra­ti­va­men­te, as refe­rên­ci­as das lon­gas letras de rap – que, ao que pare­ce, pre­ci­sam mais de expli­ca­ção do que letras do Djavan. Mas o negó­cio pros­pe­rou e, com uma inje­ção de módi­cos 40 milhões de dóla­res, des­de o ano pas­sa­do o pes­so­al pas­sou a ano­tar lite­ra­tu­ra, geo­gra­fia, cenas de fil­me, dis­cur­sos de polí­ti­cos. É o pesa­de­lo da eru­di­ção, em si mes­ma uma tra­gé­dia, repe­ti­do como far­sa nerd.

Sobre as ano­ta­ções do rap, não tenho inte­res­se e mui­to menos con­di­ções para fazer qual­quer comen­tá­rio. Numa bus­ca por Kanye West, rece­bo 4.424 ocor­rên­ci­as, de sim­ples men­ções às letras ano­ta­das. Descobri que a tur­ma lá ano­ta até dis­cur­so de agra­de­ci­men­to do senhor Kardashian.

Quando o assun­to é lite­ra­tu­ra, o site ganha em iro­nia – invo­lun­tá­ria, diga-se. Na prá­ti­ca, aca­ba sen­do uma ver­são decu­pli­ca­da das edi­ções ano­ta­das, gêne­ro nobre e tra­di­ci­o­nal, em geral dedi­ca­do a clás­si­cos, que cer­ca o tex­to ori­gi­nal de comen­tá­ri­os fei­tos por um espe­ci­a­lis­ta que, menos por pal­pi­te do que por evi­dên­ci­as con­cre­tas, bus­ca elu­ci­dar as refe­rên­ci­as que de algu­ma for­ma ampli­em a con­tex­tu­a­li­za­ção da obra. Na ver­são digi­tal, cli­cou no subli­nha­do ama­re­lo, ganhou uma nota. Que nem sem­pre vale o esfor­ço de arras­tar o cur­sor até lá.

Em arti­go na New Republic, Evan Kindley sepa­ra o joio do tri­go com um exem­plo bem con­cre­to. Uma par­te sig­ni­fi­ca­ti­va das ano­ta­ções fei­tas pelos usuá­ri­os do genius às Alices de Lewis Carroll recor­re à clás­si­ca edi­ção comen­ta­da de Martin Gardner, publi­ca­da no Brasil pela Zahar. Ou seja, ape­sar de não ser um cri­té­rio des­te e de outros sites cola­bo­ra­ti­vos, a rele­vân­cia da infor­ma­ção é o que, no final, deci­de o jogo.

Bem faz Margaret Atwood, que resol­veu “comen­tar” um capí­tu­lo de seu novo livro, The heart goes last, ao modo do genius. “Pixel Dust é o nome do bar”, escre­ve ela. E ano­ta: “Existe um bar com esse nome numa região de novas empre­sas digi­tais? Se não, deve­ri­am abrir um”. E, mais adi­an­te: “só os ricos têm con­di­ções de dis­por de poli­cia”. Comentário: “o que infe­liz­men­te é ver­da­de em diver­sas par­tes do mun­do”. Nessa bati­da, pare­ce mos­trar a total inu­ti­li­da­de de gran­de par­te das tais ano­ta­ções.

O genius já está che­gan­do ao Brasil. Por enquan­to, o for­te é, como no ori­gi­nal, as ano­ta­ções às letras de rap bra­si­lei­ro – e, em menor esca­la, tra­du­ções de artis­tas estran­gei­ros. Vamos espe­rar que deve vir por aí lite­ra­tu­ra e, fica a dica, rótu­los de cer­ve­jas arte­sa­nais, grãos de café sele­ci­o­na­dos e outros ímãs de ner­di­ce.

Gostaria, no entan­to, de suge­rir um novo lema. No lugar de “o mun­do ano­ta­do”, o genius bra­si­lei­ro pode­ria citar Millôr Fernandes: “Chato é o cara que con­ta tudo tin­tim e depois entra em deta­lhes”.

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