Os oito odiados, réquiem por uma nação

No cinema

08.01.16

Pois bem, fale­mos de Tarantino e de seu Os oito odi­a­dos. No Brasil, para come­çar, temos uma expe­ri­ên­cia muti­la­da do fil­me, pois não há mais no país cine­mas capa­ci­ta­dos a exi­bir pelí­cu­las de 70mm, for­ma­to em que a obra foi con­ce­bi­da. Há tam­bém a tra­du­ção infe­liz do títu­lo, uma vez que o hate­ful ori­gi­nal está mais para “odi­o­sos”, “detes­tá­veis” ou, alter­na­ti­va­men­te, “chei­os de ódio”.

Passemos ao lar­go dis­so tudo. Segue a car­ru­a­gem, aliás, a dili­gên­cia. Assim come­ça o fil­me: uma dili­gên­cia no meio do nada, ou melhor, da neve. Nela vão se jun­tar homens sin­gu­la­res: caça­do­res de recom­pen­sas, uma cri­mi­no­sa pro­cu­ra­da, um rene­ga­do sulis­ta pres­tes a virar xeri­fe numa cida­de do nor­te, um cochei­ro mal-humo­ra­do. Fugindo da nevas­ca que se avi­zi­nha, param numa espé­cie de res­tau­ran­te de bei­ra de estra­da, onde se jun­tam a outro punha­do de estra­nhos.

De Ford a Tarantino

Não cabe entrar em deta­lhes do enre­do. Por supers­ti­ção numé­ri­ca, ou por pura pre­gui­ça, anda­ram dizen­do que o novo wes­tern de Tarantino era uma home­na­gem a “clás­si­cos do gêne­ro” como Sete homens e um des­ti­no Os doze con­de­na­dos (este últi­mo ambi­en­ta­do na Segunda Guerra!). Mas, pela situ­a­ção de per­so­na­gens dís­pa­res for­ça­dos ao con­fi­na­men­to numa car­ru­a­gem e depois numa esta­la­gem, me pare­ce mais fru­tí­fe­ro cote­já-lo com um faro­es­te real­men­te clás­si­co, fun­da­dor: No tem­po das dili­gên­ci­as (1939), de John Ford, por sua vez vaga­men­te ins­pi­ra­do no con­to “Bola de sebo”, de Guy de Maupassant. O mes­mo esque­ma, diga-se de pas­sa­gem, foi apro­vei­ta­do tam­bém por Ettore Scola em Casanova e a revo­lu­ção (1982). Ou seja, é qua­se um gêne­ro à par­te.

Sim, é con­ver­sa de gen­te gran­de. No fil­me de Ford, os per­so­na­gens obri­ga­dos a con­vi­ver são um pis­to­lei­ro fora­gi­do da cadeia, uma pros­ti­tu­ta, um médi­co bêba­do, um joga­dor almo­fa­di­nha, um ban­quei­ro ladrão, um ven­de­dor de uís­que, um xeri­fe e a mulher de um ofi­ci­al da cava­la­ria. (Só ago­ra me dou con­ta de que são oito.) Numa ati­tu­de tipi­ca­men­te for­di­a­na, os ini­ci­al­men­te mais des­clas­si­fi­ca­dos – a pros­ti­tu­ta, o pis­to­lei­ro, o bêba­do – aca­bam reve­lan­do sua fibra e sua nobre­za de cará­ter.

O impor­tan­te, porém, é que com esse micro­cos­mo John Ford cria uma ideia de comu­ni­da­de, de nas­ci­men­to de uma nação, ape­sar – ou por cau­sa – das dife­ren­ças soci­ais, psi­co­ló­gi­cas e morais. (Só que são todos bran­cos: os índi­os são o “outro” irre­du­tí­vel, os negros estão ausen­tes, mas esta é outra ques­tão, que Ford enca­ra­ria de manei­ras diver­sas em obras pos­te­ri­o­res.)

No fil­me de Tarantino, ao con­trá­rio, o que pare­ce nas­cer (se “nas­cer” é um ver­bo que se apli­ca) é uma nação dila­ce­ra­da, de todos con­tra todos, em que cada um se move ape­nas pelo ódio e pela cobi­ça. O negro, o mexi­ca­no, a mulher, o ian­que, o sulis­ta – todos são sujei­to e obje­to do ódio homi­ci­da em algum momen­to, se não o tem­po todo. Não há sen­ti­men­to pos­sí­vel de comu­ni­da­de. É o pre­co­ce oca­so de uma nação.

Para quem qui­ser ver ou rever o clás­si­co de John Ford cita­do, ele está dis­po­ní­vel com legen­das cli­can­do aqui

Sentido lúdi­co

Houve quem dis­ses­se que Tarantino se repe­te, requen­ta velhas fór­mu­las, pla­gia a si mes­mo. Discordo fron­tal­men­te. Em Os oito odi­a­dos, a meu ver, ele leva ao extre­mo a segu­ran­ça nar­ra­ti­va, a inte­gra­ção orgâ­ni­ca entre rotei­ro e mise-en-scè­ne, com abso­lu­to con­tro­le do rit­mo e das mudan­ças de gêne­ro: faro­es­te (clás­si­co e espa­gue­te), sus­pen­se, comé­dia, mis­té­rio à Agatha Christie etc.

Claro que o que per­meia o con­jun­to, o que lhe con­fe­re uma espi­nha dor­sal, é o sen­ti­do lúdi­co do cine­ma, o pra­zer de jogar com as for­mas con­sa­gra­das e sur­pre­en­der o espec­ta­dor com a sub­ver­são delas. Mas esta­mos lon­ge do exi­bi­ci­o­nis­mo de refe­rên­ci­as, do feti­chis­mo ciné­fi­lo de outras obras do dire­tor. A brin­ca­dei­ra aqui sem­pre ser­ve a um pro­pó­si­to mai­or.

Em vári­os momen­tos há uma rever­são daqui­lo que foi dito antes, obri­gan­do a uma relei­tu­ra do que se pas­sou. Uma sequên­cia, em espe­ci­al, é memo­rá­vel nes­se sen­ti­do: aque­la em que vemos do lado de den­tro da esta­la­gem o que vimos antes do lado de fora. Agora só pode­mos ouvir, fora do qua­dro, o que antes vimos, e vemos ago­ra o que nem sus­pei­tá­va­mos. O efei­to é ver­ti­gi­no­so.

Terreno move­di­ço

O chão em que pisa­mos não é segu­ro, como se reve­la­rá lite­ral­men­te a cer­ta altu­ra. Essa cons­tan­te puxa­da de tape­te sob os pés dos per­so­na­gens e do espec­ta­dor está em per­fei­ta sin­to­nia com a ideia de que não há fatos, ape­nas ver­sões (“impri­ma-se a len­da”, já dizia o outro). Cada um cons­trói o seu rela­to, ela­bo­ra seu pas­sa­do, eri­ge o país de seus sonhos ou pesa­de­los.

Há uma pas­sa­gem em que Tarantino che­ga à fron­tei­ra da meta­lin­gua­gem. O per­so­na­gem negro (Samuel L. Jackson) des­cre­ve em deta­lhes  ao filho de um gene­ral sulis­ta (Bruce Dern) como foi seu vio­len­to encon­tro com o filho do velho. Olha então para a câme­ra (como se enca­ras­se o gene­ral, mas falan­do tam­bém com a pla­teia): “Você está ima­gi­nan­do a cena, não está?” Se o que ele nar­ra é ver­da­de ou men­ti­ra, pou­co impor­ta: é algo que exis­te na tela e na ima­gi­na­ção do espec­ta­dor. Estamos dian­te de uma obra de fic­ção, não da “rea­li­da­de”.

As fra­tu­ras raci­ais e soci­ais, o indi­vi­du­a­lis­mo feroz, as tor­tu­o­sas noções de lei e direi­to, tudo isso está pre­sen­te no fil­me, mas em per­pé­tuo movi­men­to, como num car­ros­sel. Não há dis­cur­so polí­ti­co pron­to, nem lição de moral.

Tudo soma­do, Os oito odi­a­dos pode ser vis­to como uma comé­dia cru­el, mas com um final melan­có­li­co, onde a lei­tu­ra de uma céle­bre car­ta men­ci­o­na­da ao lon­go de toda a nar­ra­ti­va tin­ge-se de uma tris­te iro­nia. É qua­se um réqui­em pelo país que pode­ria ter sido.

Diplomacia

Sobrou pou­co espa­ço para falar de outro fil­me notá­vel que está entran­do em car­taz, Diplomacia, de Volker Schlöndorff. Seu tema é o mes­mo de Paris está em cha­mas?, rea­li­za­do em 1967 por René Clement: os dias de ten­são, em agos­to de 1944, em que os ale­mães, pre­pa­ran­do-se para aban­do­nar Paris dian­te do avan­ço dos ali­a­dos, esti­ve­ram pres­tes a explo­dir e incen­di­ar a cida­de.

Mas se o fil­me de Clément se dis­per­sa­va numa por­ção de focos nar­ra­ti­vos, com deze­nas de per­so­na­gens (decer­to para aco­mo­dar seu elen­co este­lar inter­na­ci­o­nal), Schlöndorff se con­cen­tra no emba­te entre dois homens, o gene­ral ale­mão Dietrich von Choltitz (Niels Arestrup), gover­na­dor nazis­ta da Paris ocu­pa­da, e o côn­sul-geral da Suécia, Raoul Nordling (André Dussolier), que ten­ta demo­vê-lo da deci­são de des­truir a cida­de.

A ação toda se pas­sa no inte­ri­or do luxu­o­so hotel Meurice, trans­for­ma­do em quar­tel-gene­ral nazis­ta. Embora com bre­ves flashes dos con­fron­tos entre ale­mães e mem­bros da resis­tên­cia nas ruas e sub­ter­râ­ne­os, o fil­me não escon­de sua ori­gem tea­tral (peça de Ciryl Gely) e não per­de nada de sua for­ça por isso.

A con­cen­tra­ção dra­má­ti­ca se reve­la um gran­de acer­to: a pre­ci­são de enqua­dra­men­tos, a den­si­da­de dos diá­lo­gos e, sobre­tu­do, a sober­ba atu­a­ção dos pro­ta­go­nis­tas garan­tem um fil­me ele­tri­zan­te e inte­li­gen­te, que faz pen­sar nas razões béli­cas de cada nação e no papel essen­ci­al, jus­ta­men­te, da diplo­ma­cia. Em tem­pos de ten­são inter­na­ci­o­nal e cor­ri­da arma­men­tis­ta, nada mais per­ti­nen­te.

, , ,