Os olhos de Eisenstein

Cinema

29.01.14

Para mape­ar o ano em que se impôs a dita­du­ra mili­tar no Brasil, o cine­ma do IMS-RJ exi­biu, no dia 1o de feve­rei­ro de 2014, três fil­mes como par­te da Mostra Em 1964, den­tre eles Ivan, o Terrível — par­te 2.

Não foi pro­pri­a­men­te como um fil­me que Ivan, o Terrível — par­te 2, de Sergei Eisenstein, foi rece­bi­do ao estre­ar nos cine­mas do Rio, na meta­de de feve­rei­ro de 1964. Foi toma­do como um dado a mais para o deba­te polí­ti­co entre esquer­da e direi­ta, que fecha­va o cer­co em tor­no do gover­no João Goulart.

Nas ruas, car­ta­zes do Comando de Caça aos Comunistas: uma cavei­ra com a excla­ma­ção “Eu sou comu­nis­ta, está na cara!”, ou a per­gun­ta “Já matou seu comu­nis­ta hoje?”. Nos jor­nais, a des­va­lo­ri­za­ção da moe­da (um dólar valia 600 cru­zei­ros), a infla­ção (80% ao ano), as ten­ta­ti­vas de acor­do para a dívi­da exter­na (300 milhões de dóla­res de encar­gos), o raci­o­na­men­to de ener­gia, as gre­ves, os enfren­ta­men­tos no cam­po, a lei de remes­sa de lucros. Carlos Lacerda acu­sa­va: “o Presidente desen­ca­deia a desor­dem como pre­lú­dio à implan­ta­ção de um gover­no sin­di­ca­lis­ta”. Darcy Ribeiro defen­dia: “atra­vés das refor­mas agrá­ria, elei­to­ral, tari­fá­ria, ban­cá­ria e cons­ti­tu­ci­o­nal”, o Governo quer trans­for­mar o país “numa nação que per­ten­ça efe­ti­va­men­te aos seus 80 milhões de habi­tan­tes” e dei­xe de ser “um clu­be fecha­do para cin­co milhões de pri­vi­le­gi­a­dos”. O depu­ta­do Último de Carvalho adver­tia: “se o Presidente con­fis­car nos­sas pro­pri­e­da­des, ou se per­mi­tir que alguém as con­fis­que, have­rá tam­bém quem con­fis­que o seu man­da­to de Presidente”.

Em feve­rei­ro de 1964 Goulart anun­ci­a­va um gran­de comí­cio em mar­ço, “nas esca­da­ri­as da esta­ção da Central do Brasil, dian­te da mul­ti­dão ope­rá­ria esten­di­da à sua fren­te”, em favor das Reformas de Base. Circulavam rumo­res: “mar­ço está sen­do vis­to nas rodas polí­ti­cas da opo­si­ção como o mês do gol­pe”; a Marinha come­ça­va a pre­o­cu­par-se com “o pro­ces­so de comu­ni­za­ção do Brasil”.

Lançado numa úni­ca sala, o cine­ma da Maison de France, e sem as cores ori­gi­nais, o tre­cho colo­ri­do copi­a­do em pre­to e bran­co, a segun­da par­te de Ivan, o Terrível foi vis­ta como uma opor­tu­ni­da­de de des­lo­car a dis­cus­são da obra para o con­tex­to em tor­no dela, de modo a inse­ri-la no deba­te ide­o­ló­gi­co daque­le momen­to. Indiretamente, dis­cu­tia-se no fil­me a luta entre a tra­je­tó­ria do per­so­na­gem, então, como ima­gem das inten­ções do Governo: “Um cor­te trá­gi­co sem qual­quer escrú­pu­lo his­tó­ri­co para uma exal­ta­ção da figu­ra de Ivan, que pode ser toma­da como ten­ta­ti­va de jus­ti­fi­car, indi­re­ta­men­te, os cri­mes de Stalin e endeu­sar os pode­res abso­lu­tos do Estado” (Armindo Blanco, O Globo, 2 janei­ro); a do rea­li­za­dor, como ima­gem da ame­a­ça que pai­ra­va sobre todos, caso o Governo con­cre­ti­zas­se seus pla­nos: “A sua épo­ca foi de negru­me. Shumiatsky, então dita­dor do cine­ma sovié­ti­co, pre­ten­dia encai­xar todas as mani­fes­ta­ções artís­ti­cas den­tro de dog­mas polí­ti­cos em que qual­quer não con­for­mis­mo era tacha­do de here­sia” (Octavio Bonfim, O Globo, 24 de feve­rei­ro).

As rese­nhas e crô­ni­cas ocu­pa­ram-se um pou­co mais de Stalin (que na ver­da­de ins­pi­rou o dese­nho do per­so­na­gem) do que de Ivan. Ou um pou­co mais de Eisenstein que do Terrível. Fundamental, para isso, assi­na­lar que o dire­tor, “sin­ce­ro em sua ide­o­lo­gia bási­ca, gozan­do da admi­ra­ção pes­so­al de Stalin”, foi víti­ma “do pior momen­to do ter­ror cul­tu­ral staliniano”(Octavio de Faria, Correio da Manhã, 3 de mar­ço);  que “o segun­do Ivan proi­bi­do, a tri­lo­gia para­li­sa­da, o artis­ta em defi­ni­ti­va des­gra­ça foi com­pe­li­do a reco­nhe­cer publi­ca­men­te os erros que come­te­ra, por não haver segui­do ao pé da letra ?o méto­do Lenin-Stalin de per­cep­ção da vida real e da his­tó­ria’ em arti­go no qual foi obri­ga­do tam­bém a elo­gi­ar seus algo­zes, con­si­de­ran­do jus­ta a deci­são do Comitê Central”, (Moniz Vianna, Correio da Manhã, 16 de feve­rei­ro); que o fil­me “mar­cou o final da car­rei­ra ati­va de um dos mai­o­res gêni­os (para nós o mai­or) da cine­ma­to­gra­fia. Desde essa oca­sião, Eisenstein, então com 48 anos, até sua mor­te, ficou redu­zi­do a escre­ver livros e dar aulas de teo­ria cine­ma­to­grá­fi­ca” (Tati de Moraes, Última Hora, 24 janei­ro).

Desse modo, men­ções ligei­ras à “ela­bo­ra­ção requin­ta­da e o pre­ci­o­sis­mo esté­ti­co” do cine­ma de Eisenstein, como na cita­da crô­ni­ca de Armindo Blanco: “a rique­za plás­ti­ca do fil­me fre­quen­te­men­te nos dei­xa atô­ni­tos, pro­vo­can­do um des­lum­bra­men­to que per­ma­ne­ce­rá como uma ines­que­cí­vel expe­ri­ên­cia”. Essa, tal­vez, a sen­sa­ção que pri­mei­ro sal­ta aos olhos des­se fil­me rea­li­za­do na pri­mei­ra meta­de da déca­da de 1940 e proi­bi­do pela cen­su­ra sovié­ti­ca até 1958, a sen­sa­ção de que hoje, em boa par­te, vemos cine­ma pelos olhos de Eisenstein, “pelos ensi­na­men­tos que ele nos ofe­re­ce no cam­po da sín­te­se audi­o­vi­su­al e da uti­li­za­ção cri­a­do­ra dos recur­sos de mon­ta­gem”. Saltar aos olhos é bem a expres­são ide­al, por­que o espec­ta­dor, em Ivan, o Terrível, está todo o tem­po dian­te de per­so­na­gens que agem pelo olhar num cená­rio de pare­des cober­tas de pin­tu­ras em que, como nos íco­nes das igre­jas rus­sas, des­ta­cam-se os olhos bem aber­tos.

Assim como numa ópe­ra, onde é todo ouvi­dos, o espec­ta­dor é colo­ca­do dian­te de per­so­na­gens que agem dra­ma­ti­ca­men­te fazen­do exa­ta­men­te o que ele faz na pla­teia, ouvir — tal como em La Bohème Mimi se escon­de por trás de uma árvo­re para ouvir o diá­lo­go entre Rodolfo e Marcello -, assim como numa escul­tu­ra bar­ro­ca o obser­va­dor é colo­ca­do fren­te a figu­ras em que se des­ta­cam os movi­men­tos das mãos, des­se mes­mo modo, em Ivan, o Terrível os espec­ta­do­res estão dian­te de per­so­na­gens que fazem exa­ta­men­te o que eles mes­mos estão fazen­do no cine­ma: olham. São mui­tas as cenas em que os olhos se des­ta­cam nas pin­tu­ras das pare­des do cas­te­lo de Ivan e, prin­ci­pal­men­te, mui­tas as cenas em que a luz e a com­po­si­ção do qua­dro con­cen­tram a aten­ção nos olhos do per­so­na­gem — Ivan, Efrosínia, Vladimir, Basmanov. Ópera visu­al, Ivan, o ter­rí­vel se carac­te­ri­za pela musi­ca­li­da­de do espa­ço, do ges­to dos per­so­na­gens e do entre­la­ça­men­to dos pla­nos — a músi­ca aqui sen­ti­da como o que é capaz de dese­nhar o que não con­se­gue se expres­sar de outro modo.

Há no cine­ma os que fazem cine­ma (Chaplin), os que fazem escul­tu­ra (Resnais), os que fazem roman­ces (Visconti), os que fazem tea­tro (Bergman), os que fazem músi­ca (Antonioni), os que fazem cir­co (Fellini), os que fazem poe­sia (Godard), os que fazem ensai­os (Rosi), os que filo­so­fam (Rosselini) e os que mate­ri­a­li­zam o sonho (Buñuel), enu­me­rou cer­ta vez Glauber Rocha. Eisenstein, para Glauber, no cine­ma fazia pin­tu­ra.

Fevereiro de 1964, nos cine­mas, ao lado do fil­me de Eisenstein: O aten­ta­do, de Jerzy Passendorf, A guer­ra dos botões, de Yves Robert, Regresso ao lar, de Luigi Comencini. E mais: o Kafka de Orson Welles, O pro­ces­so; a músi­ca de Antonioni, A noi­te; e o cir­co de Fellini, Os boas vidas. Enquanto isso, Glauber, com a esca­da­ria de Odessa na cabe­ça e uma câme­ra na mão, na mon­ta­gem de Deus e o dia­bo na ter­ra do sol cita­va Eisenstein na cena em que Antônio das Mortes mata os bea­tos do san­to Sebastião no alto da esca­da­ria do Monte Santo.

* José Carlos Avellar é coor­de­na­dor de cine­ma do IMS.

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