Os penetras, ou a malandragem atualizada

No cinema

30.11.12

Alguns crí­ti­cos bra­si­lei­ros, apa­ren­te­men­te aco­me­ti­dos por um estra­nho e peri­go­so auto­ma­tis­mo, apres­sa­ram-se em rele­gar Os pene­tras, de Andrucha Waddington, à vala comum do bes­tei­rol, ao lado de coi­sas como Até que a sor­te nos sepa­re e o pro­gra­ma tele­vi­si­vo Zorra total. Eu me per­gun­to se eles viram o mes­mo fil­me que eu.

O que eu vi foi uma sabo­ro­sa sáti­ra de cos­tu­mes, uma atu­a­li­za­ção bas­tan­te efi­caz de um veio fecun­do da nos­sa cul­tu­ra, a comé­dia de malan­dra­gem, que vem des­de Memórias de um sar­gen­to de milí­ci­as, pas­sa pela chan­cha­da, pelos fil­mes de Hugo Carvana, por tele­no­ve­las como Beto Rockfeller e até, esten­den­do um pou­co o con­cei­to, por clás­si­cos como Macunaíma O auto da Compadecida. No pla­no inter­na­ci­o­nal, o gêne­ro pro­du­ziu péro­las como Aquele que sabe viver (Dino Risi, 1962) e Os safa­dos (Frank Oz, 1988).

O malan­dro é o píca­ro atu­a­li­za­do e acli­ma­ta­do ao Brasil, o sujei­to que vive de gol­pes e arti­ma­nhas, que assu­me iden­ti­da­des fal­sas e simu­la per­ten­cer a uma clas­se mais ele­va­da que a sua.

Pícaro bra­si­lei­ro

É exa­ta­men­te isso o que faz o jovem cari­o­ca Marco Polo (Marcelo Adnet). Coadjuvado por um viga­ris­ta vete­ra­no (Stepan Nercessian) e por um boba­lhão recém-che­ga­do do inte­ri­or (Eduardo Sterblich), ele arran­ca dinhei­ro de turis­tas incau­tos, pas­sa a lábia nas garo­tas mais belas e ten­ta pene­trar nas fes­tas de fim de ano mais grã-finas e exclu­si­vas do Rio de Janeiro.

http://www.youtube.com/watch?v=KR6ZAprpTqE

A ação, rocam­bo­les­ca como cos­tu­ma acon­te­cer nes­ses casos, con­cen­tra-se nos pou­cos dias em tor­no de um Réveillon. Há uma recep­ção chi­que no Palácio do Catete e depois, no dia 31 pro­pri­a­men­te dito, uma fes­ta na casa de um mili­o­ná­rio colu­ná­vel, e é em tor­no des­ses dois even­tos que se orga­ni­zam as con­fu­sões do enre­do.

O humor, como já se dis­se aqui, é algo mui­to sub­je­ti­vo. Ou seja, pode-se não achar gra­ça nenhu­ma nos qui­proquós de Os pene­tras. Mas não se pode dizer que seja um fil­me raso, des­pro­vi­do de cama­das inte­res­san­tes de sig­ni­fi­ca­ção.

Proponho aqui uma linha pos­sí­vel de lei­tu­ra. Todo mun­do con­cen­trou a aten­ção no par de jovens come­di­an­tes pro­ta­go­nis­tas (Adnet e Sterblich, aliás exce­len­tes), mas a esco­lha dos coad­ju­van­tes é, a meu ver, uma cha­ve para apre­ci­ar melhor o fil­me. Stepan Nercessian, sobre­tu­do quan­do osten­ta um bigo­de pos­ti­ço na recep­ção no Catete, lem­bra irre­sis­ti­vel­men­te o gran­de cômi­co Zé Trindade, malan­dro típi­co da chan­cha­da, como se pode ver nes­te tre­cho de Entrei de gai­a­to (J. B. Tanko, 1959), em que ele con­tra­ce­na com Costinha e Chico Anysio:

http://www.youtube.com/watch?v=J53blhBOpvI

A bre­ve apa­ri­ção de Andrea Beltrão nos reme­te à sau­do­sa série tele­vi­si­va Armação ili­mi­ta­da, bem como a pon­ta de Kate Lyra nos lem­bra a eter­na bel­da­de estran­gei­ra para quem “bra­si­lei­ro é tão bon­zi­nho”.

Mais sig­ni­fi­ca­ti­va ain­da é a esca­la­ção de dois outros malan­dros para­dig­má­ti­cos, Miele e Luiz Gustavo (o Beto Rockfeller, pene­tra dos pene­tras), o pri­mei­ro como um gran­de empre­sá­rio, o segun­do como lati­fun­diá­rio do Mato Grosso, ambos envol­vi­dos em gol­pes gigan­tes­cos. Malandros “com con­tra­to, com gra­va­ta e capi­tal”, como can­tou Chico Buarque.

Invasão de ter­re­no

Eis o emba­te cen­tral de Os pene­tras: os peque­nos viga­ris­tas ten­tan­do inva­dir um bai­le domi­na­do por gran­des pene­tras ins­ti­tu­ci­o­na­li­za­dos, que estão no poder de uma manei­ra ou de outra des­de as capi­ta­ni­as here­di­tá­ri­as.

É nes­se pon­to que o fil­me de Andrucha se sin­to­ni­za per­fei­ta­men­te com os tem­pos que cor­rem, de emer­gên­cia de uma nova clas­se média, de “inva­são”, por um novo con­tin­gen­te, de áre­as que até ontem eram con­si­de­ra­das exclu­si­vas dos happy few. Esse sub­tex­to “polí­ti­co” é subli­nha­do na tri­lha sono­ra pelo rock pre­mo­ni­tó­rio do Ultraje a Rigor, Nós vamos inva­dir sua praia.

Outro acha­do inte­res­san­te foi o de fazer do jovem matu­to encar­na­do por Sterblich o sósia de um gran­de astro inter­na­ci­o­nal, reci­clan­do assim para a era das cele­bri­da­des um anti­go cli­chê cômi­co (pelo menos des­de o Chaplin de The idle class), o da tro­ca de iden­ti­da­de. Explicita-se assim o que há de car­na­va­les­co, de lógi­ca da fan­ta­sia, nes­se tipo de comé­dia.

Se há obje­ções legí­ti­mas a fazer a Os pene­tras, a meu ver elas são basi­ca­men­te duas. Primeira: teria sido mais con­se­quen­te, tan­to do pon­to de vis­ta polí­ti­co como moral, dei­xar cla­ro que Adnet e seus com­par­sas são os malan­dros otá­ri­os, que per­dem no fim, pois os “que nun­ca se dão mal” são os outros, os com retra­to na colu­na soci­al. Mas o fil­me ter­mi­na lite­ral­men­te no ar, como que anun­ci­an­do uma pro­vá­vel con­ti­nu­a­ção.

A outra limi­ta­ção, a meu ver, é de lin­gua­gem. Embora Os pene­tras seja “bem fil­ma­do”, den­tro do padrão de qua­li­da­de da Conspiração Filmes, seu humor depen­de basi­ca­men­te dos diá­lo­gos e do talen­to dos ato­res, e não de gags visu­ais, de um rit­mo e de uma ence­na­ção espe­ci­fi­ca­men­te cine­ma­to­grá­fi­cos — com exce­ções notá­veis, como a alu­ci­na­da cena do car­ro de polí­cia na con­tra­mão, deli­ci­o­sa paró­dia das cenas de per­se­gui­ção do cine­ma ame­ri­ca­no. A sequên­cia toda, aliás, tem uma qua­li­da­de alu­ci­nó­ge­na suge­ri­da pela dro­ga toma­da inad­ver­ti­da­men­te por todos, far­da­dos e à pai­sa­na.

Seja como for, é um fil­me que está a anos-luz de dis­tân­cia do his­té­ri­co e esté­ril bes­tei­rol que inva­diu nos­sas telas.

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