Oswaldo Goeldi, Chuva

Quadro a quadro

11.11.11

O homem do guar­da-chu­va ver­me­lho é o exem­plar típi­co do sujei­to anô­ni­mo uni­ver­sal. Todos nós, cada um de nós, resu­mi­do à sua con­di­ção bási­ca — o homem sozi­nho den­tro do mun­do, dian­te da vida, a enfren­tar como pode os ele­men­tos. À sua manei­ra con­ci­sa, nada gran­di­lo­quen­te, a peque­na gra­vu­ra nos reen­si­na a ver o mun­do, a sen­ti-lo como uma cena móvel e trai­ço­ei­ra, cer­ca­da de inten­ções e pres­sá­gi­os inqui­e­tan­tes. O homem do guar­da-chu­va ver­me­lho expe­ri­men­ta, nes­se ins­tan­te, a cri­se de cons­ci­ên­cia sobre essa ver­da­de ine­lu­tá­vel. Daí tal­vez sua imo­bi­li­da­de per­ple­xa, um tan­to inde­ci­sa, a posi­ção de tra­vés face ao real — se algu­ma coi­sa, ele fita o muro à direi­ta, e não o hori­zon­te à fren­te. Horizonte que se con­trai, pres­tes a se trans­for­mar num impas­se. O pla­no de pro­je­ção é amplo (Goeldi inter­rom­pe o muro, nes­se intui­to, antes que alcan­ce a bor­da da gra­vu­ra), mas con­ver­ge de modo drás­ti­co: ali, onde deve­ría­mos encon­trar o pon­to de fuga, a aber­tu­ra ao infi­ni­to, depa­ra­mos com uma pas­sa­gem estrei­ta e inde­fi­ni­da. Uma nes­ga de céu, mas­sa recor­ta­da de nuvens cin­za-esver­de­a­das, des­ce até a rua e tran­ca a figu­ra den­tro da cena. Essa man­cha de cor meio inve­ros­sí­mil pros­se­gue ao lon­go do muro e jun­ta o pla­no ver­ti­cal ao pla­no hori­zon­tal. Provoca ain­da o con­tras­te com a enor­me man­cha ver­me­lha des­se guar­da-chu­va que, mui­to mais que pro­te­gê-lo, encer­ra o homem em seu dile­ma exis­ten­ci­al. O que dizer des­sa extra­or­di­ná­ria nota de cor? Sem dúvi­da, ela ilu­mi­na, dra­ma­ti­za, acres­cen­ta cer­ta cono­ta­ção sim­bó­li­ca à obra. Só não sabe­mos bem qual. De todo jei­to, con­cen­tra o núcleo plás­ti­co da gra­vu­ra: obser­va­mos o con­jun­to a par­tir de seu bri­lho. Também sua for­ma cir­cu­lar con­tra­ria o sen­ti­do line­ar da cena e seus ele­men­tos mar­ca­da­men­te hori­zon­tais e ver­ti­cais. Sábia mano­bra arbi­trá­ria, cer­tei­ra, que intri­ga nos­so olho e o leva a bus­car har­mo­ni­zá-la com o entor­no. Em vão, é cla­ro, pas­sa­re­mos a vida a ten­tá-lo. O guar­da-chu­va é uma cúpu­la sol­ta no espa­ço. Instintivamente, ansi­a­mos por conhe­cer o ros­to cober­to do homem, exa­mi­nar sua fisi­o­no­mia. Tal qual um balão, o guar­da-chu­va flu­tua e atrai o olhar para o alto, e ao mes­mo tem­po radi­ca ain­da mais o homem na ter­ra. De cos­tu­me, esses obje­tos emble­má­ti­cos da poé­ti­ca de Goeldi osci­lam, balan­çam jun­to a seus des­gar­ra­dos usuá­ri­os fus­ti­ga­dos pela oni­pre­sen­te tem­pes­ta­de tro­pi­cal. Aqui, não. Extático, sobe­ra­no, ele pre­va­le­ce sobre o res­to e afir­ma sua indi­vi­du­a­li­da­de enig­má­ti­ca.

Goeldi-interna

Chuva, de Oswaldo Goeldi
Xilogravura colo­ri­da sobre papel japo­nês. Acervo IMS.

A essa altu­ra — a obra-pri­ma é de 1957 — o expres­si­o­nis­mo con­gê­ni­to de Oswaldo Goeldi (1895–1961) domi­na­va à per­fei­ção a eco­no­mia esté­ti­ca do sus­pen­se. Por mais agi­ta­dos que fos­sem seus dese­nhos e gra­vu­ras, api­nha­dos de dile­tos escom­bros e detri­tos, pas­sa­vam sobre­tu­do a sen­sa­ção de vazio. Vazio opres­si­vo, porém, outra for­ma de claus­tro, a céu aber­to. Reina aí, abso­lu­ta, a soli­dão inco­mu­ni­cá­vel. Eis exa­ta­men­te o que se comu­ni­ca com fer­vor, o que se trans­mi­te com pun­gen­te inten­si­da­de. Presa de demo­ra­da urgên­cia, a nar­ra­ti­va para no momen­to pro­pí­cio e dei­xa em sus­pen­so o des­fe­cho. Olhamos, per­sis­ti­mos a olhar para todo o sem­pre o homem do guar­da-chu­va ver­me­lho, des­po­ja­da gra­vu­ra que ganhou o lacô­ni­co títu­lo Chuva, na expec­ta­ti­va de que algo afi­nal acon­te­ça, quan­do sabe­mos mui­to bem que tal expec­ta­ti­va é o seu per­pé­tuo acon­te­ci­men­to. A ela irre­sis­ti­vel­men­te vol­ta­mos gra­ças à sua infa­lí­vel inte­li­gên­cia expres­si­va. Em prin­cí­pio, a estra­té­gia é sim­ples e mani­fes­ta: inver­ter, tor­cer, pro­ble­ma­ti­zar ao máxi­mo, com recur­sos míni­mos, nos­sos arrai­ga­dos hábi­tos per­cep­ti­vos. A come­çar pelo ver­me­lho lumi­no­so des­se ins­tru­men­to, à épo­ca, pre­to por decre­to — o pro­ver­bi­al­men­te anti­pá­ti­co guar­da-chu­va, ao qual Goeldi dedi­ca ao lon­go de sua exten­sa obra um amor incon­di­ci­o­nal. No caso, é óbvio, ele não repre­sen­ta o frí­vo­lo aces­só­rio do gen­tle­man: é o far­do indis­pen­sá­vel ao homem comum em sua fai­na coti­di­a­na. E rei­te­ra a voca­ção do artis­ta ina­dap­ta­do, na con­tra­cor­ren­te do mun­do bur­guês. Ele e só ele con­se­gui­ria dis­cer­nir o lugar onde menos se espe­ra, e por­tan­to se des­ta­ca, um deci­di­do ver­me­lho de cád­mio. Goeldi o apli­ca a con­tra­pe­lo — de fora para den­tro, qua­se cha­pa­do, seguin­do o cami­nho inver­so ao dos sul­cos tumul­tu­a­dos pro­du­zi­dos por sua goi­va, a extrair efei­tos expres­si­vos das poten­ci­a­li­da­des intrín­se­cas à madei­ra elei­ta. Teríamos aqui o segun­do e, a meu ver, de lon­ge o melhor par­ti­do da cor na obra de Goeldi. Em vez de mime­ti­zar os lan­ces sinu­o­sos da tra­ma em pre­to e bran­co, pro­cu­ran­do seu equi­va­len­te cro­má­ti­co em tons dis­cor­dan­tes, ele a estam­pa como sinal de impac­to ime­di­a­to, como fazi­am os car­ta­zes expres­si­o­nis­tas.

Notem a extre­ma sobri­e­da­de com que Goeldi con­tro­la a dinâ­mi­ca con­tur­ba­da da cena. Enquanto, à esquer­da, o casa­rão de ares assom­bra­dos pare­ce afas­tar-se, o muro à direi­ta avan­ça em nos­sa dire­ção: o homem do guar­da-chu­va ver­me­lho se des­co­bre assim entre for­ças antagô­ni­cas. Quem sabe, por essa razão, hesi­te, cati­vo des­se limi­ar: segui­rá ou não os even­tu­ais tri­lhos do bon­de e a filei­ra incer­ta de árvo­res à fren­te, isto é, o cur­so teme­rá­rio de seu des­ti­no? Sairá alguém, fur­ti­vo, de trás do muro? A jul­gar pelo cli­ma gra­ve, o homem do guar­da-chu­va ver­me­lho vive a cha­ma­da hora da ver­da­de; há que tomar enfim uma deci­são. Uma série de indí­ci­os par­ti­cu­la­res ates­ta­ria, por outro lado, o cará­ter pedes­tre da situ­a­ção, alu­di­ria às incon­tá­veis miú­das inde­ci­sões que infer­ni­zam o dia a dia do ser huma­no. A esco­lha entre as alter­na­ti­vas é que é fal­sa, ilu­só­ria — segun­do essa éti­ca exi­gen­te, mas infi­ni­ta­men­te soli­dá­ria ao sofri­men­to do pró­xi­mo, toda hora é a hora da ver­da­de.

 

* Ronaldo Brito (1949) é crí­ti­co de arte e poe­ta. Autor de ensai­os que são refe­rên­cia sobre o movi­men­to neo­con­cre­to e sobre artis­tas como Amilcar de Castro e Sergio Camargo, tem par­te impor­tan­te de sua pro­du­ção ensaís­ti­ca reu­ni­da em Experiência crí­ti­ca (Cosac Naify, 2005). Na ser­ro­te #6, estre­ou como fic­ci­o­nis­ta com o con­to “Memórias Póstumas Jr.”

 

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