Pagode, o samba que faz escola

Séries

28.01.13

Pagode, o sam­ba que faz esco­la” é a quar­ta e últi­ma par­te da série Escolas e sam­ba: Crônica de um divór­cio anun­ci­a­do. Leia os capí­tu­los ante­ri­o­res:

Parte 1: Do ran­cho-esco­la ao “Professor” Paulo

Parte 2: Certidões de vida e iden­ti­da­de

Parte 3: Da difu­são ao des­com­pas­so — por Nei Lopes

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Pagode, o sam­ba que faz esco­la

No dia 11 de dezem­bro de 1955, a Portela pro­mo­via em sua sede a degus­ta­ção de uma “sucu­len­ta pei­xa­da”, ten­do como con­vi­da­dos, além dos mui­tos sam­bis­tas rela­ci­o­na­dos no pros­pec­to (hoje se diz flyer), as dire­to­ri­as de diver­sas agre­mi­a­ções coir­mãs. No mes­mo for­ma­to, no dia 7 de janei­ro, a então peque­na Beija-Flor rea­li­za­va, no clu­be Para Todos, uma “Grande Noite Dançante”.

O bai­le de Nilópolis, com mag­ní­fi­ca orques­tra, ocor­ria na vés­pe­ra do “Grande Torneio de Partido-alto”, sob o coman­do do can­tor Jamelão, pro­mo­vi­do em Oswaldo Cruz pelos por­te­len­ses. Os quais, no fim daque­le ano, rea­li­za­vam um “Festival Dançante” em bene­fí­cio da viú­va de Paulo da Portela.

Por essa épo­ca, os tor­nei­os de fute­bol, os pique­ni­ques em Paquetá e os pas­sei­os marí­ti­mos pela baia de Guanabara, a bor­do do legen­dá­rio navio Mocanguê, eram pro­gra­ma­ções habi­tu­ais no mun­do do sam­ba. E isso for­ne­ce uma impor­tan­te pis­ta para o que que­re­mos demons­trar: que, a par­tir da déca­da de 1970, quan­do opta­ram radi­cal­men­te pelo espe­tá­cu­lo car­na­va­les­co, em detri­men­to de ini­ci­a­ti­vas de soci­a­li­za­ção e con­gra­ça­men­to, as esco­las de sam­ba nun­ca mais con­se­gui­ram ele­var ao estre­la­do da nos­sa músi­ca popu­lar um artis­ta do seu meio.

Lembremos o esfor­ço de Paulo da Portela (1901–49) no sen­ti­do da pro­fis­si­o­na­li­za­ção do então cha­ma­do “sam­ba de mor­ro”, num con­tex­to em que o sam­ba “do asfal­to” já exer­cia hege­mo­nia nos uni­ver­sos do rádio, do dis­co e dos direi­tos auto­rais, até mes­mo, de cer­ta for­ma, colo­ni­zan­do os auto­res das esco­las. Apesar dis­so, e de outros fato­res adver­sos, bri­lha­ram os hoje cul­tu­a­dos Cartola, Ismael Silva, Geraldo Pereira, Candeia, Monsueto, Zé Kéti, etc.

 

Paulinho, Nelson, Nescarzinho, Jair e Elton no “Rosa de Ouro”: todos liga­dos a esco­las

Em 1965, o legen­dá­rio espe­tá­cu­lo “Rosa de Ouro” dava visi­bi­li­da­de aos sam­bis­tas Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Nelson Sargento, Nescarzinho do Salgueiro e Paulinho da Viola — então recém-che­ga­do à Portela. Três anos depois, um dos “fes­ti­vais da can­ção” então em voga pos­si­bi­li­ta­va o ingres­so no meio artís­ti­co pro­fis­si­o­nal, como can­tor e com­po­si­tor, do sam­bis­ta Martinho da Vila, até hoje um dos mai­o­res nomes de nos­sa músi­ca popu­lar.

Na pri­mei­ra meta­de da déca­da seguin­te, então, sur­ge Ivone Lara, excep­ci­o­nal com­po­si­to­ra e can­to­ra, oriun­da do núcleo fun­da­dor da esco­la de sam­ba Império Serrano; qua­se ao mes­mo tem­po do ingres­so de Leci Brandão na Mangueira. E isto num momen­to em que já tinha “mor­ri­do” para a gran­de indús­tria do dis­co um dos mai­o­res can­to­res popu­la­res do Brasil em todos os tem­pos, o tam­bém sam­bis­ta Jamelão (1913 — 2008).

Sobre esse gran­de can­tor e cro­o­ner de orques­tra, pedi­mos licen­ça para dizer, como já o fize­mos em outra opor­tu­ni­da­de, o seguin­te: para nós, se não se tives­se man­ti­do tão fiel ao uni­ver­so das esco­las, Jamelão tal­vez fos­se, no final de sua tra­je­tó­ria, mais admi­ra­do, endeu­sa­do e miti­fi­ca­do do que ape­nas lem­bra­do como “puxa­dor”, qua­li­fi­ca­ti­vo que abo­mi­na­va.

O fato é que, hoje, infe­liz­men­te, entre os artis­tas mais pres­ti­gi­a­dos de nos­sa músi­ca popu­lar sur­gi­dos depois de Dona Ivone Lara, não há nenhum — mes­mo entre aque­les com­ple­ta­men­te iden­ti­fi­ca­dos com deter­mi­na­das esco­las e ardo­ro­sos defen­so­res de suas cores — cujo suces­so tenha sido pro­pi­ci­a­do por atu­a­ção no seio de uma delas. E os que vie­ram depois, mes­mo ten­do con­quis­ta­do algu­ma ascen­são soci­al e econô­mi­ca como can­to­res, dan­ça­ri­nos, coris­tas etc., só são efe­ti­va­men­te conhe­ci­dos, além do car­na­val, no pró­prio cír­cu­lo — que com­pre­en­de casas de espe­tá­cu­los e até outras agre­mi­a­ções, em inú­me­ras cida­des bra­si­lei­ras.

O porquê, então, de as esco­las não serem mais “celei­ros de bam­bas” como orgu­lho­sa­men­te can­ta­vam os sam­bas anti­gos, é o obje­to da refle­xão que ago­ra faze­mos.

Comecemos por repe­tir que, nos anos 1970–80, no Rio, mui­tos sam­bis­tas impor­tan­tes sur­gi­ram. Mas, embo­ra alguns man­ti­ves­sem liga­ções com esco­las, a base de lan­ça­men­to de qua­se todos foi um blo­co, o Cacique de Ramos. E a visi­bi­li­da­de por eles alcan­ça­da não veio da “ave­ni­da”, e sim de uma mani­fes­ta­ção não car­na­va­les­ca do ambi­en­te musi­cal cari­o­ca: o “pago­de de fun­do de quin­tal” ou “de mesa”.

Surgido como sinô­ni­mo de diver­ti­men­to, patus­ca­da, far­ra, o ter­mo “pago­de” ganhou, no Rio de Janeiro, a acep­ção de reu­nião de sam­bis­tas, em subs­ti­tui­ção a “roda de sam­ba”, deno­mi­na­ção antes em voga. Realizado pre­fe­ren­ci­al­men­te em tor­no de uma mesa, onde são ser­vi­das bebi­das e comi­di­nhas, esse tipo de reu­nião popu­la­ri­zou-se tam­bém com o nome de “pago­de de mesa”. E, daí, a par­tir dos encon­tros rea­li­za­dos no quin­tal do blo­co Cacique de Ramos, o ter­mo “pago­de” pas­sou a defi­nir, ao mes­mo tem­po, um esti­lo de inter­pre­ta­ção do sam­ba e um sub­gê­ne­ro de can­ção popu­lar.

A che­ga­da des­se novo esti­lo de sam­ba ao mer­ca­do deu-se com as pri­mei­ras gra­va­ções do Grupo Fundo de Quintal e se con­so­li­dou a par­tir do lan­ça­men­to, em 1985, do LP “Raça bra­si­lei­ra”. Neste dis­co, apa­re­ce, para o gran­de públi­co, entre outros, o nome de Zeca Pagodinho. Privilegiando, tam­bém, a tra­di­ção do par­ti­do-alto, o esti­lo pago­de colo­cou em des­ta­que com­po­si­to­res e intér­pre­tes como Almir Guineto, Arlindo Cruz, Jorge Aragão, Jovelina Pérola Negra, Luiz Carlos da Vila e, mais tar­de, o jovem Dudu Nobre.

 

Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho no iní­cio da car­rei­ra, lan­ça­da nos pago­des no Cacique de Ramos

Na segun­da meta­de da déca­da de 90, o sub­gê­ne­ro de can­ção rotu­la­do pela indús­tria fono­grá­fi­ca como “pago­de”, com as ine­vi­tá­veis dilui­ções e asso­ci­a­ções ao pop glo­ba­li­za­do, colo­cou em evi­dên­cia e tor­nou artis­tas bem remu­ne­ra­dos vári­os jovens sam­bis­tas das peri­fe­ri­as de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Mas não guin­dou ao estre­la­to, pelo menos no Rio, nenhum artis­ta liga­do ao uni­ver­so das esco­las de sam­ba.

Tentemos, então, expli­car o suces­so da for­ma “pago­de” de com­por e inter­pre­tar o sam­ba, dian­te do empo­bre­ci­men­to e esva­zi­a­men­to da for­ma con­sa­gra­do nas esco­las:

O caso é que, mais do que sim­ples locais de diver­ti­men­to, os ambi­en­tes dos pago­des foram, a par­tir do final da déca­da de 1970, cen­tros irra­di­a­do­res de uma nova lin­gua­gem musi­cal, expres­sa numa nova músi­ca; num sam­ba com uma nova bos­sa, com um balan­ço total­men­te reno­va­do. E, além da reno­va­ção da lin­gua­gem musi­cal, os pago­des (ambi­en­tes e pro­du­tos) tor­na­ram-se a face mais natu­ral e visí­vel da cul­tu­ra do sam­ba, aque­la que con­ju­ga moda, lin­gua­gem ver­bal, culi­ná­ria e gas­tro­no­mia, com­por­ta­men­to etc.

Através do pago­de difun­di­do a par­tir do quin­tal do Bloco Cacique de Ramos foi que o sam­ba, mar­gi­na­li­za­do em pro­vei­to de um supos­to bom gos­to pas­teu­ri­za­do e inter­na­ci­o­na­li­zan­te, se recri­ou, de boca em boca, sem micro­fo­ne, na voz e na alma do cari­o­ca de hoje (prin­ci­pal­men­te do negro subur­ba­no); e é, ain­da, exem­plo de resis­tên­cia.

Isto foi per­ce­bi­do pela revis­ta “Veja” (edi­ção de 7/3/84, pág. 84) em maté­ria sobre a can­to­ra Beth Carvalho: “… enquan­to, na mai­o­ria dos paí­ses, a mais autên­ti­ca músi­ca popu­lar tem a ten­dên­cia de cada vez mais virar fol­clo­re, no Brasil, embo­ra atra­ves­se perío­dos de mai­or ou menor popu­la­ri­da­de, o sam­ba tra­di­ci­o­nal, legí­ti­mo e de raí­zes, é uma for­ta­le­za inex­pug­ná­vel” — dis­se a maté­ria.

Foi, então, atra­vés do pago­de que o sam­ba melhor evi­den­ci­ou seu anti­go cará­ter guer­ri­lhei­ro, de música/comportamento que apa­nhou da polí­cia e foi can­tar no mor­ro; que foi bani­do da esco­la e se refez no ter­re­no bal­dio; que dri­blou a indús­tria fono­grá­fi­ca trans­na­ci­o­nal e, mes­mo ali­ja­do das para­das de suces­so, con­se­guiu man­ter um nume­ro­so públi­co, seu, pró­prio, fiel e sem­pre cati­vo.

No momen­to em que escre­ve­mos estas linhas, conhe­ci­da mar­ca de cer­ve­ja lan­ça um pro­je­to de mar­ke­ting, no qual repro­duz em uma das peças uma afir­ma­ção de nos­so par­cei­ro e ami­go músi­co Luís Filipe de Lima: “Quem olha de fora nem sem­pre per­ce­be, mas o sam­ba inde­pen­de do car­na­val (…); há no sam­ba uma gran­de plu­ra­li­da­de de esti­los. O sam­ba é vivo, dinâ­mi­co e mul­ti­fa­ce­ta­do”.

Tomara que, assim como a cer­ve­ja­ria, as esco­las vol­tem a enten­der que o sam­ba “exis­te e ope­ra” o ano intei­ro e em todo lugar.

* Nei Lopes é com­po­si­tor e escri­tor; ex-com­po­nen­te dos Acadêmicos do Salgueiro; e ex-diri­gen­te da Unidos de Vila Isabel.

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