Paisagem na janela — Por Ilana Feldman

Cinema

09.03.11

Ilana Feldman é cura­do­ra da mos­tra “David Perlov: epi­fa­ni­as do coti­di­a­no”, que esta­rá em car­taz no cine­ma do IMS-RJ entre os dias 11 e 20 de mar­ço de 2011.

Em maio de 1973, David Perlov com­pra uma câme­ra 16mm e come­ça a fil­mar atra­vés das jane­las de seu apar­ta­men­to. São anos difí­ceis. Brasileiro, filho de um mági­co iti­ne­ran­te e de uma mãe ile­tra­da, Perlov, ten­do pas­sa­do pela França nos anos 50 (quan­do fora assis­ten­te de Henri Langlois e de Joris Ivens), emi­gra para Israel em 1958, onde se tor­na, a par­tir do fil­me Em Jerusalém(ganha­dor de um prê­mio no Festival de Veneza de 1963), “o pai do cine­ma moder­no isra­e­len­se”. O enga­ja­men­to na moder­ni­da­de do cine­ma em um momen­to his­tó­ri­co em que as ima­gens pro­du­zi­das no país são enca­ra­das como veí­cu­los de pro­pa­gan­da ide­o­ló­gi­ca traz-lhe pro­ble­mas. A par­tir de Em Jerusalém, Perlov é então dei­xa­do na “gela­dei­ra” pela polí­ti­ca ofi­ci­al do país, viven­do uma espé­cie de exí­lio for­ça­do den­tro de seu pró­prio apar­ta­men­to, quan­do então come­ça a fil­mar seu diá­rio atra­vés dos enqua­dra­men­tos de suas jane­las.

Considerado pela crí­ti­ca uma das mai­o­res expres­sões da cul­tu­ra isra­e­len­se, Diário 1973–1983 acom­pa­nha dez anos da vida da famí­lia, os acon­te­ci­men­tos polí­ti­cos de Israel, as via­gens à França e ao Brasil, e os encon­tros com ami­gos, como o pró­prio Ivens, Klaus Kinski, Claude Lanzmann, Nathan Zach, entre outros. Mais do que uma inves­ti­ga­ção bio­grá­fi­ca e auto­ex­plo­ra­tó­ria, Diário 1973–1983 é uma inves­ti­ga­ção da lin­gua­gem em que, pla­no a pla­no, Perlov desen­vol­ve uma meto­do­lo­gia de obser­va­ção docu­men­tal. “Filmar a sopa ou comer a sopa?” é ques­tão — éti­ca, esté­ti­ca e polí­ti­ca — que diz res­pei­to ao posi­ci­o­na­men­to do cine­as­ta dian­te do mun­do. É seu “ser ou não ser”.

A pri­mei­ra vez que tive con­ta­to com a obra de David Perlov foi em 2006, quan­do por aca­so entrei às escu­ras em uma sala miú­da do cen­tro da cida­de, em meio a outras qua­tro­cen­tas ses­sões de cine­ma do Festival do Rio. Como se não bas­tas­se a opção, entrei para assis­tir ao últi­mo capí­tu­lo de um fil­me do qual ain­da não tinha vis­to nenhum dos cin­co ante­ri­o­res. Não me recor­do a moti­va­ção — e nem mes­mo sabia que David Perlov era bra­si­lei­ro. Terminados os 60 minu­tos da ses­são, lem­bro-me de, ao ver Mira Perlov (pro­du­to­ra do Diário e então já viú­va) pró­xi­ma à por­ta da sali­nha de cine­ma do Centro Cultural Justiça Federal, ten­tar lhe falar algo, mani­fes­tar minha abso­lu­ta como­ção. Mas as pala­vras não saíam, o diá­lo­go fra­cas­sa­va e, quan­to mais eu sen­tia, menos podia nome­ar. Desisti do con­ta­to e, enca­bu­la­da com minha pró­pria rea­ção, segui para o pon­to de ôni­bus.

Nesse mes­mo ano de 2006, depois de ter vis­to e revis­to todos os seis capí­tu­los do Diário 1973–1983, no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo, eu e Cléber Eduardo escre­ve­mos um tex­to na revis­ta Cinética, cha­ma­do “Paisagens afe­ti­vas”, tex­to a par­tir do qual teve iní­cio uma lon­ga tro­ca epis­to­lar com Mira Perlov. Três anos depois, em julho de 2009, eu “atra­ves­sa­va” a ima­gem: che­ga­va em Tel Aviv e aden­tra­va a sala de estar da casa do cine­as­ta. Mergulhada nos arqui­vos, fil­mes, dese­nhos e foto­gra­fi­as de Perlov, con­ver­san­do por horas a fio com Mira e fazen­do entre­vis­tas pela casa, vivi duas sema­nas como se fos­sem dois anos. Nas pou­cas vezes em que colo­quei os pés na rua, pro­cu­rei inge­nu­a­men­te o ori­en­te. Mas só o encon­trei no enor­me sol de verão que vio­len­ta­men­te ris­ca­va a ima­gem.

Hoje, dois anos depois, as mar­can­tes pai­sa­gens vis­tas da jane­la de Perlov devem ter sido cober­tas por um empre­en­di­men­to imo­bi­liá­rio mili­o­ná­rio.

Mas, no fre­ne­si rit­ma­do da cons­tru­ção, sem­pre pode­mos vol­tar aos mis­té­ri­os do Diário 1973–83 e à sen­sa­ção, que não dei­xa de ser boa, de que na vida tudo aca­ba. Quando, em 1993, dez anos após a últi­ma fil­ma­gem do Diário, o crí­ti­co Uri Klein, em uma entre­vis­ta ao jor­nal Haaretz, per­gun­ta a Perlov o que ele que anda fazen­do, Perlov lhe res­pon­de: “Não tenho esta­do no melhor dos humo­res. Quando você fil­ma um diá­rio, o fil­me subs­ti­tui a vida. É uma gran­de expe­ri­ên­cia. E enquan­to você está na mesa de edi­ção tam­bém é mui­to pra­ze­ro­so, por­que você tem con­tro­le sobre a vida — suas cri­ses, suas dores. Você pode recri­ar a vida ou frag­men­tá-la. Sobretudo, você pode cri­ar har­mo­nia. Quando você retor­na à vida real, ela é mui­to menos har­mo­ni­o­sa, dura mui­to mais do que seis horas.”

Mesmo que a vida dure mais do que seis horas e que seis horas não dêem con­ta de uma vida, o Diário 1973–1983 é uma expe­ri­ên­cia que, se cro­no­lo­gi­ca­men­te pode até aca­bar, na ver­da­de nun­ca ter­mi­na.

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