Para um xodó no Recife, entreguei o meu coração vira-lata

Correspondência

14.02.13

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Meu bom Joaquim,

Com o cão sem plu­mas ain­da a lam­ber a res­sa­ca, aqui da mar­gem esquer­da do Capibaribe, sigo o con­se­lho do Paulinho da Viola, esse pro­fes­sor de edu­ca­ção sen­ti­men­tal e bons modos: fecho a feri­da, estan­co o san­gue e sepul­to bem lon­ge o que res­tou da cami­sa colo­ri­da que cobria a minha dor, demorô, já era, evoé, meu cama­ra­da, se Baco é por nós, quem será da tur­ma do con­tra?! Agora sigo fir­me e con­vic­to como o bone­co gigan­te do Homem da Meia-Noite pisan­do em chão de estre­las.

Para um xodó no Recife, caro Joaquim, entre­guei o meu cora­ção vira-lata. Uma jam­bo-girl que para­li­sou o Galo da Madrugada. Das dezes­se­te vari­a­ções de more­nas que cata­lo­guei em estu­do no agres­te com meu ami­go Duncan Lindsay, a minha jam­bo-girl atin­gia o grau máxi­mo, dez, nota dez. Palmas. Sobre as outras vari­a­ções, depois tira­mos a lim­po em um cho­pe com o cego de Ipanema, no bote­quim da vos­sa pre­fe­rên­cia. Só sei que tem a more­na cal­do de fei­jão mula­ti­nho, a cal­do de fei­jão ver­me­lho, a uru­cum-roots, a fogo-pagô etc etc.

Uma cal­ci­nha azul, como a que lem­bras­te, meu pre­za­do, cai bem na more­ni­da­de. E como! Aliás, meu xodó não enten­deu nada, quan­do, sonâm­bu­lo, em um casa­rão de Olinda, saí a repe­tir, como um velho tara­do de Aldeia Campista: “Ah, a cal­ci­nha azul; ah, a cal­ci­nha azul, a cal­ci­nha azul, a cal­ci­nha azul…” Meu incons­ci­en­te fez boba­gem, ô meu bom cro­nis­ta, em ple­na madru­ga da ter­ça gor­da, no que ela sor­riu, nada per­gun­tou, ser­viu suco de pitan­ga e me devol­veu ao mais pro­fun­do Morpheu com den­gos e cafu­nés.

Me belis­ca, mada­me Realidade, me belis­ca que é mui­to jam­bo, som­bra e água fres­ca para o quin­tal do meu humil­de puxa­di­nho.

E hoje, Joaquim, nem pre­ci­sei can­ta­ro­lar “Disritmia”, meu sam­ba de todas as cin­zas, ela já veio curar o nego com água de coco, cha­me­go e tapi­o­ca ao quei­jo de qua­lho. Bamba na arte de virar uma tapi­o­ca. Só de cal­ci­nha. Ah, de res­sa­ca, meu pre­za­do, todo cora­ção vaga­bun­do batu­ca uma ele­gia ao casa­men­to. Não fiz dife­ren­te. No balan­ço da rede, dis­se à moça de Olinda que que­ria todo dia sem­pre igual.

No fun­do daque­la xíca­ra mis­te­ri­o­sa que a vovó dela ganhou da baro­ne­sa do Beberibe, li o nos­so futu­ro, que não sou bes­ta. Coisas que apren­di no “Guia da lei­tu­ra no sedi­men­to do café — arte mile­nar ára­be de inter­pre­tar sua vida”, livro pre­sen­te­a­do por um sebis­ta cari­o­ca cha­pa do ami­go Alvaro Costa e Silva, El Mariscal, meu guia his­tó­ri­co e sen­ti­men­tal dos bote­quins e tíl­bu­ris da cida­de do Rio de Janeiro.

Diz que me ama, bor­ra, diz que me ama bor­ra! Dizia para mim mes­mo e sor­ria imbe­cil­men­te do tro­ca­di­lho idem. De cara vi a ima­gem de uma cebo­la no fun­do da xíca­ra da por­ra da baro­ne­sa. Isso é ruim, meu pre­za­do Joaquim, quer dizer que a nega escon­de algo, como um mari­do, por exem­plo. Um mari­do de casal moder­no que cada um brin­ca o Carnaval para um lado. Isso é pés­si­mo, ami­go, vamos ler com mais aten­ção, espe­ra um pou­co.

Como vês, me apai­xo­no como uma don­ze­la de roman­ce capa e espa­da, os reis de França, aque­las ondas. Pera, pera ai, ago­ra estou len­do direi­to a bor­ra. “Não é nada dis­so que você está pen­san­do”, ela diz e se apro­xi­ma. Me puxa para a rede na varan­da. Os coquei­ros far­fa­lham. Amo esse ver­bo qua­se baru­lho — acho que rou­bei isso do cine­as­ta Lírio Ferreira, o grão-fun­da­dor do “Me bei­ja…”, o blo­co de Quarta-fei­ra de Cinzas.

Me puxa para a rede, ami­go, e os cor­pos se enten­dem na rede, coi­sa que não é nada fácil, brother. A rede, ao con­trá­rio da cama, não é nada meta­fí­si­ca. A rede é ou não é. A rede não é para ama­do­res. A rede é um balan­ço para lá do Kama Sutra e dos amo­res tran­sa­tlân­ti­cos. A rede é mais até do que o côn­ca­vo e o con­ve­xo no dese­nho lógi­co do rei Roberto. A rede é Niemeyer rabis­can­do o sexo dos anjos ao som de Thelonious Monk ao fun­do.

Sim, Joaquim, além de virar uma tapi­o­ca como nun­ca dan­tes, meu pre­za­do, a jam­bo-girl domi­na a arte de fazer amor, digo, sexo, digo, amor, na rede. O far­fa­lhar dos coquei­ros é tão bom para fazer amor, digo, sexo, quan­to uma músi­ca açu­ca­ra­da da Sade Adu ou uma chan­son de motel do Serge Gainsbourg. Batuta! Recomendo.

Bem que me acon­se­lhas­te, meu bom, a tomar este car­na­val como rema­te de todos os males, amém, sou todo agra­de­ci­men­to.

Se há um emplas­tro para dor de amor, a jam­bo-girl ago­ra é minha ideia fixa depen­du­ra­da no tra­pé­zio do cocu­ru­to. Melhor: a bor­ra no fun­do da xíca­ra que a cada minu­to me diz uma coi­sa dife­ren­te. Diz que me ama, por­ra. Só uma inven­ção de amor cura um amor ver­da­dei­ro. Só um xodó no Recife/Olinda me seria tão lin­da­men­te ilu­só­rio quan­to o boi voa­dor do con­de holan­dês.

Não, pre­za­do rapaz, ain­da não estou apai­xo­na­do, quem dera, estou, como sem­pre, é aman­do. A man­do de uma dia­bi­nha car­na­va­les­ca que dei­xou meu cora­ção como as bati­das de bum­bo dos mara­ca­tus retar­da­dos, que vol­tam para casa can­sa­dos, com seus estan­dar­tes pro ar. Evoé, Antônio Maria, como escre­ver ao ami­go Joaquim sem dar uma palhi­nha das tuas evo­ca­ções e cla­rins?

Aqui me des­pe­ço, cora­ção enve­lhe­ci­do em bar­ris de baga­cei­ras e espe­ran­ças, ain­da ten­tan­do deci­frar o fun­do daque­la xíca­ra, ain­da fazen­do do jam­bo da moça a ben­di­ta maçã do paraí­so de Momo.

O afe­to não se encer­ra, já com a sau­da­de de todos os adeu­si­nhos das gares por­tu­gue­sas, me des­pe­ço,

Teu ami­go Francisco

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