Parabéns para você

Música

02.07.13

O cen­te­ná­rio de Wilson Baptista se com­ple­ta nes­te 3 de julho. O ator, can­tor e escri­tor Rodrigo Alzuguir está pre­pa­ran­do uma bio­gra­fia do com­po­si­tor a ser lan­ça­da até o fim do ano. O tex­to abai­xo é uma adap­ta­ção do per­fil que ele escre­veu para Wilson Baptista — Cancioneiro Comentado, álbum com mais de cem par­ti­tu­ras que sai em julho.

Wilson Baptista nos anos 1940, sua era de ouro, e na década seguinte

Wilson Baptista nos anos 1940, sua era de ouro, e na década seguinte

Parabéns para você/ Pelo seu aniversário/ Que Deus o faça feliz/ Bem feliz, jun­to aos seus/ São os meus arden­tes votos/ Com toda sinceridade/ Parabéns para você/ E mui­ta feli­ci­da­de…”, can­ta­va Aracy de Almeida em mea­dos de 1945.

Ao com­por esse sam­ba (“Parabéns para você”) com o par­cei­ro Roberto Martins, Wilson Baptista esta­va na cris­ta da onda. Tinha 32 anos de ida­de e uma “baga­gem” res­pei­tá­vel reche­a­da de suces­sos, pro­pa­ga­dos pelas mai­o­res vozes de seu tem­po — Francisco Alves, Carmen Miranda, Mario Reis, Dyrcinha Baptista, Orlando Silva, Linda Baptista, Moreira da Silva, Odette Amaral, Sylvio Caldas, Aracy de Almeida, Cyro Monteiro, Aracy Cortes, Luiz Barbosa, os Anjos do Inferno, o Bando da Lua, entre outros. Era conhe­ci­do no rádio, no dis­co, no tea­tro musi­ca­do, nas cha­ma­das “casas de diver­são” (caba­rés, dan­cings, gafi­ei­ras), e, sobre­tu­do, no míti­co Café Nice, pon­to de encon­tro de com­po­si­to­res na Avenida Rio Branco, onde viveu a sua melhor fase pro­fis­si­o­nal, divi­din­do mesas com os gran­des em pé de igual­da­de. Sua tro­ca de far­pas musi­cais com Noel Rosa já era coi­sa do pas­sa­do — tinham se pas­sa­do dez anos.

Vestia o fino. Sapato do Motinha, sob enco­men­da. Terno de linho 120 inglês, fei­to por alfai­a­te de con­fi­an­ça. Bigode apa­ra­di­nho. As ondas no cabe­lo cres­po fei­tas à base de vase­li­na, sua mar­ca regis­tra­da e fris­son das more­nas da Lapa. Posava, galan­te, para fotos de divul­ga­ção, dava entre­vis­tas, apa­re­cia em jor­nais e revis­tas. O com­po­si­tor Custódio Mesquita, exí­mio melo­dis­ta e cole­ga de Nice, acha­va impres­si­o­nan­tes os cami­nhos meló­di­cos e harmô­ni­cos que ele cri­a­va intui­ti­va­men­te, batu­can­do sin­ge­las cai­xi­nhas de fós­fo­ros.

Em 1945, já havi­am saí­do das cai­xi­nhas de Wilson joi­as como “Etelvina!/ Acertei no milhar/ Ganhei 500 contos/ Não vou mais tra­ba­lhar…” (“Acertei no milhar”), “Eu nasci/ Num cli­ma quente/ Você diz a toda gente/ Que eu sou more­no demais…” (“Preconceito”), “Cheguei can­sa­do do trabalho/ Logo a vizi­nha me falou/ Oh, Seu Oscar/ Tá fazen­do meia hora/ Que a sua mulher foi s´embora/ E um bilhe­te dei­xou…” (“Oh, Seu Oscar”), “Quero uma mulher/ Que sai­ba lavar e cozi­nhar…” (“Emília”), “Quem tra­ba­lha é que tem razão/ Eu digo e não tenho medo de errar…” (“O Bonde São Januário”), “Eu tiro o domin­go para descansar/ Mas não descansei/ Que lou­co fui eu…” (“E o juiz api­tou”), “Foi na Lapa que eu nasci/ Foi na Lapa que eu apren­di a ler/ Foi na Lapa que eu cresci/ E na Lapa eu que­ro mor­rer…” (“Largo da Lapa”), “Serei/ Serei leal contigo/ Quando eu can­sar dos teus bei­jos, te digo…” (“Lealdade”) e mui­tas outras. Nos anos seguin­tes, viri­am outras: “O pedrei­ro Waldemar”, “Balzaquiana”, “Chico Brito”,  “Mulato cala­do”, “Nega Luzia”, “Louco (Ela é seu mun­do)”, “Samba rubro negro”, “Mundo de zin­co” — é pro­vá­vel que você conhe­ça todas elas, mes­mo que não sai­ba de quem são.

O últi­mo ani­ver­sá­rio, em 1968, Wilson pas­sou no lei­to de um hos­pi­tal. Ninguém can­tou “Parabéns para você”. Não havia moti­vos para come­mo­rar. Pele e osso, aba­ti­do, sofren­do as con­sequên­ci­as de seu cora­ção aumen­ta­do — taqui­car­dia, náu­sea, fal­ta de ar -, ele sabia que não tinha mui­to tem­po de vida. Pior: esta­va com­ple­ta­men­te esque­ci­do. Se um ou outro o conhe­cia (a exem­plo de um dos médi­cos que o aten­deu), era pelo seu papel de anta­go­nis­ta na Polêmica com Noel Rosa — pecha que car­re­ga­va des­de a déca­da de 1950, quan­do a con­ten­da com o Poeta da Vila foi repa­gi­na­da e ganhou a pos­te­ri­da­de.

Depois de uma fuga espe­ta­cu­lar do hos­pi­tal e de pro­cu­rar um pia­nis­ta ami­go para trans­cre­ver seu sam­ba novo, o sim­bó­li­co “Transplante de cora­ção” (“Por favor, doutor/ Transplante o cora­ção do Chicão…”), Wilson entre­gou os pon­tos. Quatro dias depois de com­ple­tar 55 anos, mor­reu no Souza Aguiar.

No dia 3 de julho de 2013, Wilson Baptista faria 100 anos. É tem­po de can­tar um “Parabéns para você” espe­ci­al para ele. Não a ver­são em por­tu­guês do “Happy birth­day” ian­que, mas o sam­ba gra­va­do por Aracy. E pen­san­do no que inte­res­sa: a obra de mes­tre que ele dei­xou para todos nós, tinin­do de moder­ni­da­de em ple­no sécu­lo XXI.

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Um cam­pis­ta no Rio

Desde que che­gou ao Rio de Janeiro ain­da meni­no, num trem car­guei­ro, fugi­do da cida­de flu­mi­nen­se de Campos dos Goytacazes com a rou­pa do cor­po e o sonho de ser sapa­te­a­dor no tea­tro de revis­tas, Wilson Baptista jamais se deu ao des­fru­te de se pre­o­cu­par em cons­truir um nome ou uma obra. Tinha a urgên­cia da fome, de não ter onde dor­mir na noi­te seguin­te. Um de seus pri­mei­ros sam­bas gra­va­dos é a tri­lha sono­ra per­fei­ta para essa fase de vacas macér­ri­mas: “Querem me botar na rua/ Vejam só que pou­ca sorte/ Pois eu tenho confiança/ No meu san­to que é bem forte/ Como eu não tenho dinheiro/ Não exis­te quem me trague/ Pros cre­do­res vou dizendo/ Passe bem, que Deus lhe pague” (“Barulho no beco”).

Inteligente e per­su­a­si­vo, Wilson logo se entur­ma­ria com a fau­na do cen­tro cari­o­ca dos fins da déca­da de 1920: malan­dros, pun­guis­tas, ven­de­do­res ambu­lan­tes (che­gou a pres­tar ser­vi­ços a um deles, lavan­do pane­las numa bar­ra­qui­nha de angu), “mari­po­sas”, gen­te do tea­tro musi­ca­do, do rádio, do dis­co. À boca miú­da, dizi­am que foi meni­no de reca­dos para, segun­do um bene­vo­len­te com­po­si­tor da épo­ca, os “tra­ves­sos” Francisco e Gabriel Meira, os conhe­ci­dos irmãos Meira, atra­ves­sa­do­res de dro­gas cujo “espor­te” favo­ri­to era des­ti­lar eli­xir pare­gó­ri­co para obten­ção de ópio, o qual ven­di­am para a clas­se artís­ti­ca, às vezes em tro­ca de favo­res sexu­ais.

Vem des­se tem­po o fas­cí­nio de Wilson pelos malan­dros — espé­cie de her­dei­ros da capo­ei­ra­gem de fins do sécu­lo XIX fil­tra­dos pelo lun­far­do por­te­nho e pelos fil­mes de gângs­ter nor­te-ame­ri­ca­nos das déca­das de 1920 e 1930 -, que ain­da davam seus rabos de arraia com con­si­de­rá­vel liber­da­de pelo Rio de Janeiro. Em suas andan­ças pela região do Mangue, Lapa, Estácio, Cidade Nova, Saúde, Praça Tiradentes, Wilson con­vi­veu com alguns deles — Meia-noi­te, Miguelzinho, Edgard, Sete Coroas -, não se sabe em que nível de cama­ra­da­gem. E foi além. Homenageou-os em sam­bas, como “História de cri­an­ça”) e “História da Lapa” (“Lapa dos capoeiras/ Miguelzinho, Camisa Preta/ Meia-noi­te, Edgard/ Lapa/ Minha Lapa boêmia/ A lua só vai pra casa/ Depois do sol rai­ar…”).

Quando des­co­briu que pode­ria des­co­lar um tro­ca­do com­pon­do, mais que sapa­te­an­do, Wilson foi fun­do. Compor para ele era mui­to fácil. Bastava uma tese na cabe­ça e uma cai­xa de fós­fo­ros nas mãos, para mar­car o rit­mo. Mas a indús­tria cul­tu­ral ain­da enga­ti­nha­va, sem pres­sa de aco­lher aque­le mula­ti­nho magre­la e esfo­me­a­do.

Mais ime­di­a­to era ven­der o sam­ba — prá­ti­ca que ele levou para o res­to da vida. O com­pra­dor paga­va no ato, ele rece­bia o dinhei­ro e não esquen­ta­va a cabe­ça. A tran­sa­ção o exi­mia de toda res­pon­sa­bi­li­da­de: a bus­ca pelo intér­pre­te, a cai­ti­tu­a­gem (divul­ga­ção), a assi­na­tu­ra de con­tra­tos com edi­to­ra e gra­va­do­ra, e o con­tro­le do pin­ga-pin­ga do ínfi­mo direi­to auto­ral. (Estima-se que boa par­te de sua pro­du­ção dos anos 1930 este­ja ocul­ta sob outros nomes.)

Em 1932, Wilson con­se­guiu final­men­te a sua pri­mei­ra gra­va­ção: “Por favor, vai embo­ra”, sam­ba em par­ce­ria com Oswaldo Silva e Benedicto Lacerda, lan­ça­do em dis­co pelo vete­ra­no Patrício Teixeira. No ano seguin­te, Luiz Barbosa, um can­tor que se apre­sen­ta­va tam­bo­ri­lan­do um cha­péu de palha, “divi­dia” como nin­guém e tinha sem­pre um sor­ri­so na voz, gra­vou o sam­ba “Na estra­da da vida”, assi­na­do por Wilson sem par­cei­ros.

Mais um ano se pas­sou e Wilson empla­cou um rela­ti­vo suces­so, o sam­ba “Desacato”, lan­ça­do ao vivo no bada­la­do Programa Casé da Rádio Philips e gra­va­do em segui­da por um inu­si­ta­do trio de can­to­res: Castro Barbosa, Murillo Caldas (coau­tor do sam­ba) e Francisco Alves (o mai­or car­taz da músi­ca popu­lar bra­si­lei­ra de então). Uma con­quis­ta e tan­to.

Na medi­da em que se dis­tan­ci­ou de suas influên­ci­as ini­ci­ais — o sam­ba fei­to no Estácio e a obra revis­tei­ra de Ary Barroso -, a músi­ca de Wilson Baptista ganhou cor­po e per­so­na­li­da­de. Ali pelos anos 1940, encon­trou-se: ousa­da, irre­ve­ren­te, trans­gres­so­ra — e com ambos os pés fin­ca­dos no mun­do real.

Capas das partituras de "Acertei no milhar" e "O teu riso tem"

Capas das partituras de “Acertei no milhar” e “O teu riso tem”

Floripes, Marina, Jane, Dolores

Em mea­dos da déca­da de 1940, num bai­le de car­na­val no clu­be Filhos de Talma, no bair­ro da Saúde, Wilson conhe­ceu sua futu­ra espo­sa Marina (fan­ta­si­a­da de Princesa das Czardas). Não foi fácil con­quis­tá-la: a mãe da moça não apro­va­va o namo­ro da filha com um “artis­ta de rádio”. Mas como Marina pode­ria resis­tir a decla­ra­ções de amor que vinham em for­ma de músi­cas como “A more­na que eu gos­to”? Como não o acei­tar de vol­ta, depois de uma bri­ga, quan­do o pedi­do de des­cul­pas vinha acom­pa­nha­do de um dis­co com a gra­va­ção de “E o 56 não veio”, um sam­ba ori­gi­na­do de uma his­tó­ria acon­te­ci­da entre eles?

A pró­pria Marina con­ta o epi­só­dio: “De manhã cedo era o seguin­te: eu via­ja­va no 56, que era o bon­de Alegria. E ele (Wilson), às 7h30 da manhã, me espe­ra­va todo o dia no pon­to. Mas, quan­do a gen­te bri­ga­va, eu ia pro 58, que era o São Luiz Durão. Aí ele fica­va toda a vida me espe­ran­do e eu não apa­re­cia.”

Fui ao che­fe da Light/ Perguntei ao inspetor/ O que hou­ve com o 56?/ Esse bon­de sem­pre trou­xe o meu amor/ Será que ela não veio por­que se zangou?/ Ou o bon­de Alegria des­car­ri­lhou?” — per­gun­ta­va o sam­ba. Mais auto­bi­o­grá­fi­co impos­sí­vel. Aliás, como boa par­te da obra de Wilson.

Marina já esta­va casa­da com Wilson e ilha­da em Paquetá (onde foram morar) quan­do des­co­briu que o mari­do atu­a­va em “dupla jor­na­da”, viven­do no Rio com uma anti­ga com­pa­nhei­ra, Floripes, uma ex-dan­ça­ri­na de caba­ré e girl de tea­tro musi­ca­do, com quem tive­ra o pri­mei­ro filho, Wilton.

Wilson, Floripes, o filho do casal, além do pai de Wilson, a madras­ta, a meia-irmã e uma vira-lati­nha cha­ma­da Mocinha divi­di­am o pri­mei­ro andar de uma casa em Santa Teresa, bair­ro que ele ama­va e home­na­ge­a­ria em “Pertinho do céu”, sam­ba gra­va­do por Déo (seu can­tor mais recor­ren­te): “Eu moro no morro/ Que não tem batucada/ Não tem violão/ Mas tem rua bem calçada/ O cli­ma é bom/ E o lugar é uma beleza/ Eu moro no Morro de Santa Teresa”.

Sem saber da exis­tên­cia de Marina, a famí­lia pres­si­o­na­va Wilson a lar­gar a músi­ca e arran­jar um tra­ba­lho for­mal. A que­ri­da Irene Rosa, mulher de seu pai, vivia recla­man­do de seus hábi­tos: o ente­a­do vira­va as noi­tes na boe­mia, dor­mia de manhã, tra­ba­lha­va à tar­de (escre­ven­do letras de músi­ca num cader­no, dei­ta­do de bru­ços no chão) e que­ria silên­cio na casa nas horas mais esdrú­xu­las, além de exi­gir que ela des­ces­se e subis­se a esca­da­ria que liga Santa Teresa à Lapa, hoje conhe­ci­da pelos azu­le­jos de Jorge Selarón, só para com­prar sua man­tei­ga pre­fe­ri­da, da mar­ca Miramar. As lamú­ri­as de Irene Rosa aca­ba­ram for­ne­cen­do mate­ri­al para a per­so­na­gem viti­mi­za­da e ran­zin­za pre­sen­te nos sam­bas “Cala a boca Etelvina”, “Gênio mau”, “Inimigo do baten­te”, “Papai, não vai”, “Que malan­dro você é” e “Tá malu­ca”. Em con­tra­par­ti­da, Wilson, para a madras­ta, era o pró­prio “Hildebrando” (“sem­pre des­can­san­do…”), cujo lema bem pode­ria ser “Meu pai tra­ba­lhou tanto/ Que eu já nas­ci can­sa­do”, refrão da cômi­ca mar­chi­nha “Nasci can­sa­do”.

Depois de mui­tas idas e vin­das, e de bar­cas que che­ga­vam a Paquetá vazi­as de Wilson, Marina desis­tiu do casa­men­to, jun­tou seus tra­pi­nhos e par­tiu. No colo, leva­va o segun­do reben­to do com­po­si­tor, uma meni­na cha­ma­da Marilza.

Wilson pas­sa­ria a vida trans­for­man­do pai­xões amo­ro­sas em sam­bas. Alguns, ale­gres, como “Cadê a Jane?”, fei­to para o gran­de amor de sua vida, uma dan­ça­ri­na oxi­ge­na­da de taxi-dan­cing (cujo “nome de guer­ra” era Jane) que aca­bou se sui­ci­dan­do. Outros, melo­dra­má­ti­cos, como “Dolores Sierra”, ins­pi­ra­do numa pros­ti­tu­ta que conhe­ceu em Barcelona, em mea­dos da déca­da de 1950, numa via­gem pela Europa ban­ca­da pela arre­ca­da­ção dos arra­sa-quar­tei­rões car­na­va­les­cos “Balzaquiana”, “Sereia de Copacabana” e “Mundo de zin­co”, os três em par­ce­ria com Nássara e gra­va­dos por Jorge Goulart.

Muitas des­sas músi­cas, no entan­to, não tinham um alvo cer­to. Eram pis­ca­de­las de olho bre­jei­ras e uni­ver­sais à figu­ra femi­ni­na —  entre elas, “Boa com­pa­nhei­ra”, “Deus no céu e ela na ter­ra”, “Doce de coco”, “Filomena, cadê o meu?”, “Garota dos dis­cos”, “Lá vem o Ipanema”, “O teu riso tem”, “Rosalina”, “Você é o meu xodó” e “Volta pra casa, Emília”.

Entretanto, nem tudo eram flo­res. Wilson tam­bém sofreu por amor.  Desconfiou de com­pa­nhei­ras (“Essa mulher tem qual­quer coi­sa na cabe­ça”), reco­nhe­ceu sua pró­pria fra­gi­li­da­de (“Não sei dar adeus”, “Meu dra­ma”), ante­viu sepa­ra­ções (“O prin­cí­pio do fim”), rogou pra­gas (“Estás no meu cader­no”), deu vol­tas por cima (“Apaguei o nome dela”), tri­pu­di­ou das ex (“Lavei as mãos”), achou-se um cre­ti­no (“Fantoche”) e deses­pe­rou-se (“Sistema ner­vo­so”) — mas não mui­to. Temperou isso tudo com uma leve­za e um “dei­xe a vida levar” tipi­ca­men­te cari­o­cas.

A voz da mulher

Aos que jul­gam machis­tas alguns sam­bas de Wilson (como o gai­a­to e pidão “Emília”), uma reve­la­ção: o com­po­si­tor cam­pis­ta foi um dos pio­nei­ros no uso da pri­mei­ra pes­soa femi­ni­na, déca­das antes de Chico Buarque. Em sua obra, a mulher ganhou voz não somen­te para recla­mar do mari­do malan­dro — um caco­e­te dos sam­bas da épo­ca -, mas para cum­prir tra­qui­na­gens que dei­xa­ri­am Leila Diniz orgu­lho­sa. Tais como anun­ci­ar em alto e bom som que vai fazer misé­ria no car­na­val (“Alberto bron­que­ou”), des­cre­ver a far­ra em deta­lhes e pedir o silên­cio das tes­te­mu­nhas (“Boca de siri”), cons­ta­tar que furou a san­dá­lia de tan­to sam­bar (“Sambei 24 horas”), se defen­der de fofo­cas (“A mulher do Seu Oscar”), decla­rar a pai­xão por um mula­to (“É mato”), diva­gar sobre a trai­ção do namo­ra­do (“Carta ver­de”), dri­blar uma can­ta­da (“Eu sou de Niterói”), reco­nhe­cer que está per­den­do o juí­zo por um homem (“Eu tenho que fugir”), optar pelo sam­ba em detri­men­to de um amor care­ta (“Gosto mais do Salgueiro”), cons­ta­tar o fim de uma rela­ção (“Goodbye, amor”, “Depois da dis­cus­são”) e, por fim, se con­so­lar na cer­te­za insub­mis­sa de que “Há sem­pre um cora­ção vazio/ Pra um novo amor abrigar/ Há sem­pre um chi­ne­lo velho/ Pra um pé doen­te cal­çar” (“Chinelo velho”). Machista?

Quem ain­da não se con­ven­ceu, ouça o sam­ba “Lealdade”. Nele, um homem pro­põe a uma mulher vive­rem uma rela­ção em que a ver­da­dei­ra leal­da­de é esta­rem jun­tos por amor — mas só enquan­to ele for recí­pro­co. Isso em ple­nos anos 1940. Diz a letra: “Serei, serei leal contigo/ Quando eu can­sar dos teus bei­jos, te digo/ E tu tam­bém liber­da­de terás/ Pra quan­do quiseres/ Bater a porta/ Sem olhar para trás”.

Se ain­da assim res­tar algu­ma dúvi­da, divir­ta-se com a inver­são de papéis con­fi­gu­ra­da na mar­chi­nha “Mundo às aves­sas”: “A mulher dele arranjou/ Emprego de trocador/ Sai às oito, che­ga em casa às dezessete/ Ele é quem faz o arroz/ Ele é quem faz o feijão/ A mulher é que coman­da o pelo­tão”.

Personagens

Outra pre­di­le­ção de Wilson era inven­tar per­so­na­gens. Levava isso às últi­mas con­sequên­ci­as. Alguns de seus sam­bas são cenas com­ple­tas, qua­se mini­o­pe­re­tas, con­ten­do diá­lo­gos, à-par­tes e nar­ra­ções, como “Cosme e Damião” (uma bati­da poli­ci­al sen­do exe­cu­ta­da por dois “mega­nhas” incor­rup­tí­veis, ten­do como cená­rio a Praça Paris), “Diagnóstico” (um médi­co expli­can­do ao paci­en­te deta­lhes de uma doen­ça incu­rá­vel detec­ta­da num exa­me de raio X) e “O dou­tor quer falar com você” (sujei­to ten­tan­do con­ven­cer um ami­go a dei­xar de ser malan­dro).

De todos os “sam­bas de per­so­na­gem”, “Oh, Seu Oscar” (que, aliás, ven­ceu “Aquarela do Brasil” no con­cur­so Noite da Música Popular de 1940) é o melhor exem­plo. Já no pri­mei­ro ver­so somos apre­sen­ta­dos não a um, mas a três per­so­na­gens: Oscar, a vizi­nha e a espo­sa (na “pri­mei­ra pes­soa” de um bilhe­te). Diz o sam­ba — aqui rear­ru­ma­do como um rotei­ro de cine­ma:

OSCAR:

- Cheguei can­sa­do do tra­ba­lho, logo a vizi­nha me falou…

VIZINHA:

- Oh, Seu Oscar! Tá fazen­do meia-hora que a sua mulher foi embo­ra.

E um bilhe­te dei­xou…

OSCAR:

- O bilhe­te assim dizia…

ESPOSA (bilhe­te):

- Não pos­so mais, eu que­ro é viver na orgia!

Como já foi dito, a espo­sa fujo­na teve seu direi­to de res­pos­ta, pro­ta­go­ni­zan­do “A mulher do Seu Oscar”, sam­ba que “entrou em car­taz” no ano seguin­te. Nele, a esfo­gue­a­da mulher se expli­ca­va:

- Onde eu dizia “vou-me embo­ra pra orgia”, era pro sam­ba, sem segun­da inten­ção. Orgia de luz, de riso e ale­gria, minha gen­te! Parei! Fui con­de­na­da injus­ta­men­te!”

A turma do Café Nice, no traço de Nássara

A turma do Café Nice, no traço de Nássara

Entre todos os per­so­na­gens, Wilson tinha pre­di­le­ção por Laurindo. Orgulhava-se de ter sido o com­po­si­tor que mais fez músi­cas sobre o fic­tí­cio toca­dor de cuí­ca da Mangueira cri­a­do por Noel Rosa no sam­ba “Triste cuí­ca”. Se Herivelto Martins ampli­ou o alcan­ce de Laurindo, fazen­do dele um bam­ba dos car­na­vais da Praça Onze, Wilson levou-o ain­da mais lon­ge. Em sua série de sam­bas sobre o per­so­na­gem, fez Laurindo lutar con­tra os nazis­tas na 2ª Guerra Mundial (“Lá vem Mangueira”) e vol­tar para o Brasil “cober­to de gló­ria, tra­zen­do gar­bo­so no pei­to a cruz da vitó­ria” (“Cabo Laurindo”). Depois, retra­tou-o num comí­cio no mor­ro, com direi­to a mis­sa cam­pal e ban­dei­ra a meio pau, negan­do a con­di­ção de herói: “Heróis são aqueles/ Que tom­ba­ram por nós” (“Comício em Mangueira”).

Wilson se dizia apo­lí­ti­co, mas há quem veja fuma­ças de comu­nis­mo no “cama­ra­da Laurindo” — e tam­bém na (apa­ren­te­men­te?) inó­cua mar­chi­nha de car­na­val “O pedrei­ro Waldemar”: “Leva a mar­mi­ta embru­lha­da no jornal/ Se tem almo­ço, nem sem­pre tem jantar/ O Waldemar/ Que é mes­tre no ofício/ Constrói o edifício/ E depois não pode entrar”.

Wilson tam­bém ambi­en­tou outros “sam­bas de per­so­na­gem” no mor­ro. Alguns, espi­ri­tu­o­sos, como “Ganha-se pou­co, mas é diver­ti­do”, “Nega Luzia”, “Sabotagem no mor­ro” e “O tam­bor do Edgar (Venha man­so)”. Outros, épi­cos, como “Chico Brito” (sobre um malan­dro-filó­so­fo que “fuma uma erva do nor­te”) e “Rei Chicão” (cuja letra, som­bria, já expõe a cri­a­ção do poder para­le­lo nas fave­las cari­o­cas).

Maroto, Wilson trans­for­mou até pia­da de por­tu­guês em mar­chi­nha: “O tele­fo­ne tocou pro Manoel/ E o Manoel saiu armado/ E foi pra Niterói/ Mas na via­gem ele refletiu:/ Na cons­ci­ên­cia nada me dói/ Não sou Manoel, não sou casa­do, eu sou Joaquim/ O que é que eu vou fazer em Niterói?” (“Não sou Manoel”).

E o malan­dro de “Esta noi­te eu tive um sonho”? Ele come sal­si­cha antes de dor­mir, sofre uma indi­ges­tão e sonha que está em Berlim dis­cu­tin­do, em ale­mão, com o dono de um bote­quim! Ha ha ha!

O mais que­ri­do

Desde que che­gou ao Rio, Wilson encan­tou-se pelo time do Flamengo. Era “daque­les fla­men­guis­tas que assis­tem, inclu­si­ve, aos trei­nos” —  dis­se o joga­dor Zizinho, ído­lo do clu­be nos anos 1940. “E que, pela ami­za­de que tinha com todos os joga­do­res, prin­ci­pal­men­te comi­go, quan­do ele che­ga­va o Flávio (Costa, téc­ni­co) come­ça­va a comer as unhas, por­que sabia que nós íamos sair dali para uma noi­ta­da. Uma noi­ta­da cal­ma, de bate-papo sobre músi­ca e fute­bol… Wilson era um cara geni­al.”

Entre o final dos anos 1920, quan­do fugiu de Campos para o Rio, e 1968, ano em que pen­du­rou as chu­tei­ras da vida, não foram pou­cas as vezes em que Wilson tor­ceu “até ficar rou­co” e regres­sou do fute­bol “todo quei­ma­do de sol”. Mas valeu a pena. Testemunhou vitó­ri­as his­tó­ri­cas de seu time, com des­ta­que para os cam­pe­o­na­tos cari­o­cas de 1939, 1942, 1943, 1944, 1953, 1954, 1955, 1963 e 1965 e o Torneio Rio-São Paulo de 1961.

Como tudo vira­va sam­ba em suas mãos (e em suas cai­xi­nhas de fós­fo­ro), Wilson home­na­ge­ou o seu ado­ra­do Mengo e os ami­gos joga­do­res numa dúzia de sam­bas sen-sa-ci-o-nais.

Em “E o juiz api­tou”, des­cre­veu com gra­ça uma “tabe­li­nha” entre os ata­can­tes do time: Nandinho pas­sa a Zizinho, Zizinho ser­ve a Pirilo, que pre­pa­ra pra chu­tar. Breque. Aí, infe­liz­men­te, o juiz api­ta: é o fim do tem­po regu­la­men­tar. Que azar! (O sam­ba foi fei­to num bon­de depois de uma der­ro­ta para o Botafogo.)

Os “áure­os tem­pos” dos cra­ques Amado, Pena, Hélcio e Moderato são evo­ca­dos em “Memórias de tor­ce­dor”, que retra­ta mais uma der­ro­ta do time. Detalhe: “o tor­ce­dor” é uma mulher. No caso, a can­to­ra que mais gra­vou Wilson Baptista: Aracy de Almeida. “Eu ontem vim da Gávea tão cansada/ Com a cabe­ça inchada/ Pois o Flamengo tor­nou a per­der” — lamen­ta Aracy no iní­cio do sam­ba.

Enfim, che­ga de der­ro­tas! Sucesso na voz de Roberto Silva, “Samba rubro negro”, cri­a­do por Wilson nos anos 1950, além de ser uma vibran­te decla­ra­ção de amor, tor­nou-se uma espé­cie de hino infor­mal do time. Procure no Youtube e assis­ta ao ído­lo dos gra­ma­dos Júnior can­tar o sam­ba com orgu­lho em oca­siões vari­a­das. O gran­de João Nogueira tam­bém rea­li­zou uma gra­va­ção emble­má­ti­ca, mas fez uma tra­ves­su­ra: subs­ti­tuiu os nomes de Rubens, Dequinha e Pavão, cra­ques dos anos 1950 cita­dos por Wilson no sam­ba, pelos de Zico, Adílio e Adão, da gera­ção dos anos 1980. Ao menos a cita­ção à famo­sa Charanga do Jayme, baru­lhen­ta ban­di­nha musi­cal que ani­ma­va a tor­ci­da nos jogos, con­ti­nu­ou lá.

Em sua aqua­re­la fute­bo­lís­ti­ca, Wilson admi­tiu outras cores além do ver­me­lho e do pre­to. Sem pre­con­cei­tos, tam­bém fez músi­ca para o Vasco: “Vamos lá que hoje é de graça/ No bote­co do José/ Entra homem, entra menino/ Entra velho, entra mulher/ É só dizer que é vascaíno/ E que é ami­go do Lelé”.  Essa mar­chi­nha, “No bote­co do José”, levan­tou as tor­ci­das cruz-mal­ti­nas na voz de Linda Baptista.

Foi mais um gol de pla­ca de Wilson.

Teses de Wilson

Para um sujei­to se defen­der na vida não bas­ta “ali­sar o ban­co da ciên­cia”, é pre­ci­so cur­sar a “esco­la da cal­ça­da”. Palavras de Wilson. Apaixonado pelo (sub)mundo a seu redor, em tudo ele via poe­sia e pos­si­bi­li­da­des de “teses” — ter­mo que usa­va para defi­nir uma espé­cie de “essên­cia de pen­sa­men­to” que cada can­ção deve­ria con­ter.

Do dra­ma das “mulhe­res da vida”, cujas des­ven­tu­ras lhe eram sopra­das ao pé do ouvi­do em noi­tes de boe­mia, des­ti­lou a trá­gi­ca e ele­gan­te “Flor da Lapa”. As moças sofri­das que reche­a­vam de sui­cí­di­os o noti­ciá­rio sen­sa­ci­o­na­lis­ta foram autop­si­a­das em “Mãe sol­tei­ra” (“dizem que essas Marias/ Não têm entra­da no céu…”), “Mariposa” e “Recado que a Maria man­dou”. A éti­ca do mor­ro fren­te aos cri­mes de mor­te ren­deu o subli­me “Mulato cala­do” (“A polí­cia pro­cu­ra o matador/ Mas em Mangueira não exis­te dela­tor…”). Essa era a zona de bri­lho da lira de Wilson: a bele­za, a tra­gé­dia, o humor, a crô­ni­ca e a poe­sia do real, do não ide­a­li­za­do.

Wilson era notí­va­go, con­for­me expres­sou em “Taberna”, sam­ba que fez em tri­bu­to ao res­tau­ran­te Taberna da Glória (“A noi­te é a com­pa­nhei­ra dos aflitos/ À noi­te os sonhos são sem­pre mais boni­tos”), mas sua obra tem um cará­ter solar, “para cima”, esper­to, gai­a­to, qua­se bos­sa nova, rei­te­ra­do pela esco­lha da tona­li­da­de mai­or em 90% dos casos, mes­mo quan­do abor­da temas den­sos, como em “Mãe sol­tei­ra”. Os sam­bas “Como se faz uma cuí­ca”, “Não é eco­no­mia (Alô, padei­ro)”, “N-a-o-til (Não)”, “Oh, Dona Ignez” e “Se não fos­se eu” são exem­plos dis­so. Se esses ain­da não forem sufi­ci­en­tes, ouça os mais conhe­ci­dos “Preconceito” e “Louco (Ela é seu mun­do)” nas ver­sões de João Gilberto.

Seu tem­pe­ra­men­to indo­má­vel o leva­va a andar com valen­tia na con­tra­mão dos prin­ci­pais cli­chês do sam­ba. Boêmio, detes­ta­va os bêba­dos, a quem con­si­de­ra­va uns “pana­rí­ci­os” (cha­tos). Fugia deles como o dia­bo da cruz. Vivia pelas madru­ga­das à base de lei­te, café e refres­cos.

Quando o assun­to era reli­gião, tema carís­si­mo ao sam­ba, Wilson cho­ca­va com a tese de que “Deus é o dinhei­ro”. A bus­ca pelo “cas­ca­lho”, dizia ele, era a for­ça motriz do pla­ne­ta. Não fos­se o vil metal, nin­guém saía de casa. Apesar de não ser mate­ri­a­lis­ta (sabia que “além de flo­res, nada mais vai no cai­xão”), Wilson nega­va às reli­giões qual­quer prer­ro­ga­ti­va meta­fí­si­ca. Para ele, eram ritu­ais cri­a­dos pelo ser huma­no. Seus sam­bas jamais se cur­va­ram ao Senhor do Bonfim ou subi­ram as esca­das da Penha, como os de Ary Barroso; nada ofer­ta­ram aos ori­xás, como os de Dorival Caymmi; e, orgu­lho­sos, dis­pen­sa­ram qual­quer leni­ti­vo do Criador.

O olhar de Wilson para a cida­de à sua vol­ta era sen­sí­vel, mas não sen­ti­men­tal. Com a auto­ri­da­de de quem viveu a pobre­za na pele, dava-se ao direi­to de impli­car com a sedu­ção da inte­lec­tu­a­li­da­de pelos ambi­en­tes menos favo­re­ci­dos. Resmungava que “subúr­bio era fim de mun­do”, que não ia sujar pale­tó subin­do mor­ro e que as (até então, de fato) modes­tas esco­las de sam­ba eram “mui­to pobre­zi­nhas” (pre­fe­ria os ran­chos car­na­va­les­cos). Sua vida era o cora­ção pal­pi­tan­te do cen­tro da cida­de, defi­ni­do pelo aglo­me­ra­do de jor­nais, tea­tros, rádi­os, gra­va­do­ras, res­tau­ran­tes e caba­rés no eixo Avenida Rio Branco-Lapa-Praça Tiradentes.

Que malan­dro você é?

O para­do­xo é que, mes­mo pro­du­zin­do feroz­men­te a vida intei­ra, Wilson sem­pre foi con­si­de­ra­do um sujei­to que nun­ca tra­ba­lhou. Viver exclu­si­va­men­te de músi­ca (uma rari­da­de na sua gera­ção) era um de seus peca­dos. Estabelecer par­ce­ri­as “con­ve­ni­a­das” com com­pra­do­res de todas as pro­ce­dên­ci­as (bichei­ros, book­ma­kers, disc-jóqueis) era outro. Fez a fama de malan­dro e não quis levan­tar-se des­sa cama.  “O estô­ma­go é o pior ini­mi­go do com­po­si­tor” — jus­ti­fi­ca­va-se.

À revis­ta Cena Muda, nos anos 1940, o com­po­si­tor Mario Lago deu nome aos bois:

Há real­men­te com­pra­do­res. (…) E os ven­de­do­res não são do mor­ro. São rapa­zes cá de bai­xo, como Wilson Baptista, que se ves­te à últi­ma moda e não ven­de sua pro­du­ção por vin­te cru­zei­ros, e sim por mui­to bom pre­ço.”

Dyrcinha Baptista, Déo e Aracy de Almeida

Dyrcinha Baptista, a cantora preferida, e Déo e Aracy de Almeida, os recordistas de gravações

Em seu livro Na rolan­ça do tem­po, Mario defi­niu Wilson como uma “ver­da­dei­ra alma do cão de mis­tu­ra com um com­po­si­tor de gênio.” Por fim, na déca­da de 1980, se recu­sou a falar dele em entre­vis­ta a Luís Fernando Vieira, ale­gan­do não falar “de mar­gi­nais” (tam­bém se negou a falar de Noel Rosa).

Percebe-se que Wilson era uma pre­sen­ça incô­mo­da para o gru­po de com­po­si­to­res do qual Mario fazia par­te, oriun­dos da clas­se média e dese­jo­sos de um meio musi­cal mais ame­no. Apesar de ser ape­nas um dos mui­tos que tira­ram par­ti­do do comér­cio do sam­ba (quem ali no Nice nun­ca con­ve­ni­ou uma par­ce­ria que ati­ras­se o pri­mei­ro pão com man­tei­ga), por recu­sar-se a mudar (“Eu sou assim/ Quem qui­ser gos­tar de mim/ Eu sou assim”), e, opi­no, por um tan­to de “olho gor­do” de alguns cole­gas menos pren­da­dos, Wilson foi “pego para Cristo” como sím­bo­lo des­se ran­ço de imo­ra­li­da­de que pre­ci­sa­va ser “deso­do­ri­za­do”. E o “per­fex” do esque­ci­men­to caiu sobre ele.

Epílogo

Com o pas­sar do tem­po, a mai­o­ria dos par­cei­ros e cole­gas de Wilson pas­sou a divi­dir a roti­na, antes dedi­ca­da à boe­mia, entre famí­lia e car­gos admi­nis­tra­ti­vos em edi­to­ras e soci­e­da­des de auto­res, com­pon­do num rit­mo menos inten­so. (Nisso, esta­vam incluí­dos seus par­cei­ros de fé Ataulpho Alves, Haroldo Lobo, Marino Pinto, Antônio Nássara e Roberto Martins.)

O Nice tinha fecha­do as por­tas. O car­na­val, apos­sa­do pelas esco­las de sam­ba, pou­co ren­dia. As tur­mas, os points e as febres musi­cais iam e vinham. Mas Wilson, obs­ti­na­do, con­ti­nu­a­va fiel a seu esti­lo de vida: zan­zan­do pelos bares do cen­tro, sofren­do pelo Flamengo e com­pon­do como se o mun­do fos­se aca­bar ama­nhã.

Semanas antes de mor­rer, ten­tou par­ti­ci­par de um fes­ti­val com um sam­ba autor­re­fe­ren­te e sur­re­a­lis­ta, “Transplante de cora­ção”. Foi o últi­mo que compôs. Começava com um pedi­do: “Por favor, doutor/ Por favor, doutor/ Transplante o cora­ção do Chicão”. E ter­mi­na­va num aler­ta: “Porque o sam­bis­ta quan­do é gran­de demais/ Não deve desa­pa­re­cer”. Ficou na ten­ta­ti­va: o pra­zo de ins­cri­ção do con­cur­so já havia expi­ra­do quan­do envi­ou a fita com o sam­ba. Contentou-se com uma home­na­gem rea­li­za­da na fina­lís­si­ma do even­to, com Clementina de Jesus can­tan­do alguns suces­sos seus. Uma das pou­cas defe­rên­ci­as que rece­beu em vida. Seu sonho irre­a­li­za­do? Ver a músi­ca bra­si­lei­ra rei­nan­do nas para­das. Afinal, “esse negó­cio de biri-biri-birêi/ É pro senhor Cab Cab Calloway” (“Artigo naci­o­nal”).

Wilson teve três filhos (Wilton, Marilza e Vílson) com três de seus amo­res (Floripes, Marina e Verinha), mas ter­mi­nou sozi­nho num modes­to apar­ta­men­to na Rua Senador Dantas, em meio ao entra e sai de “mari­po­sas”, a quem apre­sen­ta­va como artis­tas, e com um cader­no trans­bor­dan­do de músi­cas iné­di­tas guar­da­do na gave­ta.

Em 2013, ano de seu cen­te­ná­rio, Wilson Baptista de Oliveira mere­ce vol­tar ao asso­vio de seu povo. Para quem qui­ser conhe­cê-lo, bas­ta ouvi-lo, tocá-lo e can­tá-lo: sua vida (e a his­tó­ria do Rio de Janeiro, sua cida­de por ado­ção, devo­ção e mere­ci­men­to) está toda espe­lha­da — e espa­lha­da — em sua obra. E que obra!

* Rodrigo Alzuguir é pro­du­tor, ator, músi­co e pes­qui­sa­dor.

Mais Wilson Baptista

Polêmica Noel Rosa x Wilson Baptista: o famo­so emba­te musi­cal entre dois gran­des com­po­si­to­res gerou um espe­tá­cu­lo com Monarco e Nelson Sargento no IMS em setem­bro de 2012. Ouça a gra­va­ção do show, apre­sen­ta­da por João Máximo, assis­ta ao vídeo inte­gral da apre­sen­ta­ção e leia um tex­to de Rodrigo Alzuguir que esmiu­ça o caso em deta­lhes.

Wilson Baptista: espe­ci­al sobre “o mai­or sam­bis­ta bra­si­lei­ro de todos os tem­pos”, segun­do Paulinho da Viola, apre­sen­ta­do por Francisco Bosco.

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