Paranoia sem mistificação — quatro perguntas sobre Roberto Piva

Quatro perguntas

11.08.11

Iconoclasta e soci­al­men­te ina­de­qua­do, o pau­lis­ta­no Roberto Piva mar­cou a poe­sia bra­si­lei­ra. Morto em 2010, aos 72 anos, dei­xou como lega­do, em livros como Paranóia e Coxas, uma lite­ra­tu­ra vibran­te que é tam­bém retra­to de uma épo­ca em São Paulo, entre­me­a­da por expe­ri­men­ta­ções lin­guís­ti­cas e influ­en­ci­a­da pelo que ele cha­ma­va de “vida expe­ri­men­tal”. Os Dentes da Memória — Piva, Willer, Franceschi, Bicelli e uma tra­je­tó­ria pau­lis­ta de poe­sia (Azougue Editorial, 256 pági­nas, 38,90 reais), escri­to pelas jor­na­lis­tas Renata D’Elia e Camila Hungria, recons­trói a vida do poe­ta e dos seus com­pa­nhei­ros de lida Claudio Willer, Antonio Fernando de Franceschi e Roberto Bicelli. Em 40 entre­vis­ta­dos que se inter­ca­lam, são esmiu­ça­das as influên­ci­as, o pro­ces­so cri­a­ti­vo e o indis­so­ciá­vel modus viven­di do quar­te­to para com sua obra lite­rá­ria, sobre­tu­do a de Piva. Renata D’Elia, uma das auto­ras do livro, res­pon­deu a qua­tro per­gun­tas do blog do IMS. Confira abai­xo.

O poe­ta Roberto Piva (foto de Renata D’Elia)

Roberto Piva dizia que só acre­di­ta­va em poe­sia expe­ri­men­tal vin­da de quem tinha uma vida expe­ri­men­tal. Depois de estu­dar a vida do poe­ta tão a fun­do e ela­bo­rar um livro que refaz os prin­ci­pais fatos da tra­je­tó­ria de Piva, como você defi­ni­ria essa tal “vida expe­ri­men­tal”?

Essa era uma pro­vo­ca­ção bas­tan­te coe­ren­te do Piva con­tra quem dizia fazer poe­sia expe­ri­men­tal, mas vivia “pen­san­do a lin­gua­gem” de uma for­ma desi­dra­ta­da, de pala­vra pela pala­vra, sem vín­cu­lo com a vida.  A prin­ci­pal rei­vin­di­ca­ção do Piva e de sua tur­ma é a não sepa­ra­ção entre poe­sia e vida. Essa vida foi expe­ri­men­tal e des­re­gra­da em vári­os sen­ti­dos. O Piva era um homos­se­xu­al aves­so a rótu­los. Era abso­lu­ta­men­te eru­di­to e vol­ta­do a uma tra­di­ção de roman­tis­mo, mis­ti­cis­mo e rebe­lião pou­co explo­ra­da pela mai­o­ria dos poe­tas bra­si­lei­ros. Usou dro­gas psi­co­dé­li­cas, bebeu, se meteu em bri­gas pelo bas­fond pau­lis­ta­no, foi pio­nei­ro na orga­ni­za­ção de con­cer­tos de rock de São Paulo e teve expe­ri­ên­ci­as mís­ti­cas. A poe­sia do Piva dia­lo­ga com a Beat Generation, com o sur­re­a­lis­mo, com o roman­tis­mo, por­que ele viveu tudo isso à sua manei­ra, e não ape­nas por­que acu­mu­lou uma bibli­o­te­ca a res­pei­to.

Os poe­tas Claudio Willer, Antonio Fernando de Franceschi e Roberto Bicelli foram, diga­mos, par­cei­ros de Piva nas expe­ri­men­ta­ções esté­ti­cas e com­pa­nhei­ros no coti­di­a­no. Em que medi­da cada um deles con­tri­buiu para a poe­sia de Piva? Ou os qua­tro pre­ser­va­ram um tra­ço auto­ral inde­pen­den­te da con­vi­vên­cia intrin­ca­da?

O papel de Willer, Franceschi e Bicelli vai além da con­di­ção de “par­cei­ros”. Há uma enor­me tro­ca de vivên­ci­as, de refe­rên­ci­as, de lei­tu­ras e de visão de mun­do entre eles, des­de que se conhe­ce­ram. São todos ami­gos, mas tam­bém per­so­na­gens auto-cen­tra­dos, as per­so­na­li­da­des e as vozes poé­ti­cas são mui­to for­tes e auto­rais. O inter­câm­bio é mais visí­vel entre as obras de Piva e Willer, onde há mai­or pre­sen­ça de ima­gens poé­ti­cas, algu­mas asso­ci­a­ções livres, o tra­ta­men­to dado ao ero­tis­mo e ao mis­ti­cis­mo, embo­ra o Willer se dedi­que à pro­sa poé­ti­ca, o que resul­ta com­ple­ta­men­te dife­ren­te da escri­ta do Piva. Franceschi estre­ou em livro em 1985, há pou­cos ecos da Beat e do sur­re­a­lis­mo em sua obra, mas é um poe­ta mais her­mé­ti­co, que vai dia­lo­gar dire­ta­men­te com as tra­di­ções gre­gas, tra­tan­do tam­bém de temas como ero­tis­mo e mis­ti­cis­mo com um vul­to inte­lec­tu­al que pou­co se vê no Brasil. E o Bicelli é o mais oswal­di­a­no deles, ele sim um pou­co mais cro­nis­ta e nar­ra­ti­vo, que tra­ba­lha mui­to bem a mas­sa sono­ra dos poe­mas com picar­dia e humor de recor­te ita­li­a­no.

Livros como Paranóia, lan­ça­do em 1963, e Coxas, de 1979, mar­ca­ram épo­ca e ser­vi­ram para retra­tar a São Paulo de suas épo­cas. Piva era sobre­tu­do um cro­nis­ta pau­lis­ta­no?

O Piva não é ape­nas um retra­to da São Paulo de sua épo­ca.  Seu pri­mei­ro livro faz um exer­cí­cio efe­ti­va­men­te para­noi­co: ele par­te de um pon­to exis­ten­te — uma está­tua de Álvares de Azevedo, a Praça da República, um mic­tó­rio públi­co, entre outros — e enxer­ga um delí­rio, uma alu­ci­na­ção, uma cida­de ao mes­mo tem­po som­bria e subli­me, que ine­ga­vel­men­te se pro­je­tou no futu­ro.  Já no Coxas, os cená­ri­os urba­nos ser­vem para que ele esta­be­le­ça sua pró­pria tri­bo mar­gi­nal e se aven­tu­re ero­ti­ca­men­te com seus garo­tos peri­fé­ri­cos. Há um ide­al de amor gre­co-roma­no ali. Você pode ver um fil­me como Satyricon, de Fellini (com base na obra de Petrônio), e enxer­gar os poe­mas do Coxas per­fei­ta­men­te. São Paulo aqui é uma Roma oní­ri­ca, não é Rio de Janeiro do João do Rio, pra citar o tra­ba­lho de um belo cro­nis­ta, que o Piva gos­ta­va.

Os Dentes da Memória sur­giu ini­ci­al­men­te como um pro­je­to aca­dê­mi­co. Houve alte­ra­ções do pro­je­to ini­ci­al para ser adap­ta­do ao livro ago­ra lan­ça­do ou a idéia per­ma­ne­ce a ini­ci­al­men­te pla­ne­ja­da?

Sim, este foi um tra­ba­lho de con­clu­são de cur­so em jor­na­lis­mo rea­li­za­do em 2008. 90% do tex­to ori­gi­nal está lá, mas entre 2009 e 2010 ele ganhou algu­mas entre­vis­tas com­ple­men­ta­res e toda a pes­qui­sa ico­no­grá­fi­ca: fotos, mani­fes­tos, manus­cri­tos, recor­tes de jor­nal, arti­gos do Piva e do Willer para perió­di­cos under­ground como o jor­nal Artes e a Revista Rolling Stone bra­si­lei­ra dos anos 1970. É natu­ral que ago­ra todo mun­do se empol­gue e come­ce a abrir os baús, publi­can­do uma rari­da­de ou outra pela inter­net afo­ra, mas ape­sar das pes­so­as que cola­bo­ra­ram, não foi uma pes­qui­sa fácil e qua­se nin­guém foi “entre­gan­do o ouro” pra nos­sa publi­ca­ção. Devido à doen­ça e mor­te do Piva em 2010, acres­cen­ta­mos um capí­tu­lo final com a nos­sa visão sobre aqui­lo tudo que pas­sou. A cole­tâ­nea poé­ti­ca — que já exis­tia no TCC — foi ampli­a­da, ganhan­do iné­di­tos e raros.

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