Antonio Pitanga em Pitanga

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Antonio Pitanga em Pitanga

Paterson, Pitanga e poéticas

No cinema

24.10.16

No oce­a­no de fil­mes da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, mui­ta gen­te esco­lhe o que vai ver com base nas sinop­ses divul­ga­das na impren­sa ou no catá­lo­go da pró­pria mos­tra. Nesse con­tex­to uma obra como Paterson, de Jim Jarmusch, ten­de a ficar em segun­do pla­no, pois não tra­ta de nenhum “tema gran­di­o­so”, não desen­vol­ve um entre­cho espe­ta­cu­lar, nem con­ta com ato­res famo­sos. É uma peque­na joia escon­di­da em meio ao bri­lho fal­so de biju­te­ri­as mais vis­to­sas.

O encan­to do fil­me vem jus­ta­men­te de sua suti­le­za e dis­cri­ção, da capa­ci­da­de de encon­trar o poé­ti­co no pro­sai­co. Paterson é o nome da cida­de do esta­do de Nova Jersey onde se pas­sa a ação e tam­bém o pre­no­me do pro­ta­go­nis­ta (Adam Driver), lacô­ni­co moto­ris­ta de ôni­bus que escre­ve poe­sia nas horas vagas. A nar­ra­ti­va se con­cen­tra em uma sema­na da vida des­se per­so­na­gem e de sua inqui­e­ta mulher (Golshifeth Farahani), divi­di­da entre seus supos­tos talen­tos para a deco­ra­ção, a culi­ná­ria e a músi­ca.

Rotina e poe­sia

Ao lon­go des­ses sete dias nada de mui­to espe­ta­cu­lar acon­te­ce. Repete-se, com ligei­ras e sig­ni­fi­ca­ti­vas vari­a­ções, a roti­na de Paterson: ele acor­da ao lado da mulher, ouve os sonhos que esta tem para con­tar, toma seu lei­te com sucri­lhos, escu­ta o encar­re­ga­do da gara­gem lamen­tar seus infor­tú­ni­os, con­duz o ôni­bus pelas ruas tran­qui­las da cida­de, leva o cachor­ro para pas­se­ar, reen­con­tra no bar os mes­mos conhe­ci­dos de sem­pre etc.

Mas a roti­na tem seu encan­to, como já sabia o mes­tre Ozu, e a bele­za está nos deta­lhes, for­ne­ci­dos sem estar­da­lha­ço: nas con­ver­sas entre pas­sa­gei­ros (numa das quais fica­mos saben­do do pas­sa­do da cida­de como ber­ço do movi­men­to anar­quis­ta íta­lo-ame­ri­ca­no), nos ver­sos deli­ca­dos escri­tos por Paterson, na gale­ria dos gran­des nomes que nas­ce­ram ou pas­sa­ram por lá (William Carlos Williams, Allen Ginsberg, Lou Costello), na recor­rên­cia dos pares de gême­os de vári­as ida­des etc.

Ainda que os poe­mas de Paterson tenham mui­to de pro­sa, lem­bram no espí­ri­to os hai­cais japo­ne­ses, com sua aten­ção ao banal, seu des­po­ja­men­to con­tem­pla­ti­vo, sua ten­ta­ti­va de cap­tar o ins­tan­te efê­me­ro. Essa apro­xi­ma­ção poé­ti­ca com o Japão se enfa­ti­za no encon­tro for­tui­to de Paterson com um escri­tor japo­nês que, como ele, é lei­tor afi­ci­o­na­do de William Carlos Williams (autor de um livro cha­ma­do Paterson).

Em meio ao ala­ri­do de guer­ras, cri­mes e des­gra­ças diver­sas que povo­am os fil­mes da mos­tra, Paterson, em tudo e por tudo, é um momen­to de silên­cio refle­xi­vo e revi­go­ran­te.

Pitanga

Igualmente revi­go­ran­te, mas por moti­vos qua­se opos­tos, é Pitanga, de Beto Brant e Camila Pitanga. Não se tra­ta pro­pri­a­men­te de um docu­men­tá­rio sobre, mas sim com Antonio Pitanga. A par­tir de encon­tros do gran­de ator bai­a­no com ami­gos de vári­as épo­cas, o fil­me orga­ni­za sua tra­je­tó­ria, que se con­fun­de com a do cine­ma bra­si­lei­ro des­de 1960.

Figura solar, sen­su­al e dio­ni­sía­ca, mas tam­bém de com­ba­te pela liber­da­de e pela afir­ma­ção do negro em nos­sa soci­e­da­de, Pitanga ilu­mi­na com sua pre­sen­ça e sua memó­ria boa par­te da cul­tu­ra bra­si­lei­ra das últi­mas déca­das, do cine­ma novo ao tea­tro Oficina, do can­dom­blé às esco­las de sam­ba, do under­ground às tele­no­ve­las.

É difí­cil esco­lher entre diá­lo­gos tão sabo­ro­sos, mas tal­vez o mais diver­ti­do e reve­la­dor seja entre Pitanga e Zé Celso Martinez Corrêa, pela afi­ni­da­de eró­ti­co-liber­tá­ria entre ambos, ape­sar das imen­sas dife­ren­ças de pos­tu­ra e for­ma­ção. Mas a nata da nos­sa cul­tu­ra está nes­sas con­ver­sas, de Caetano e Gil a Ruth de Souza, de Jards Macalé ao fute­bo­lis­ta Claudio Adão, de Chico Buarque a mães de san­to e fei­ran­tes de Salvador.

Organizado mais ou menos em blo­cos temá­ti­cos (a for­ma­ção na Bahia, as namo­ra­das, o cine­ma, o tea­tro, as rela­ções com a África, a mudan­ça para a fave­la cari­o­ca etc.), o fil­me flui com uma for­ça e uma natu­ra­li­da­de irre­sis­tí­veis. Para quem anda desa­ni­ma­do com os per­cal­ços que asso­lam o país, Pitanga é uma inje­ção de âni­mo na veia.

A seguir, alguns bre­ves comen­tá­ri­os sobre outros fil­mes vis­tos na 40ª Mostra de São Paulo:

O apar­ta­men­to

Forte can­di­da­to a ser um dos pre­fe­ri­dos do públi­co, o novo fil­me do ira­ni­a­no Asghar Farhadi (de A sepa­ra­ção) fala do estu­pro de uma atriz de tea­tro ama­dor, casa­da com um pro­fes­sor que tam­bém atua e diri­ge uma ence­na­ção de A mor­te do cai­xei­ro via­jan­te. A dire­ção de Farhadi, hábil e segu­ra, faz emer­gir ques­tões morais e polí­ti­cas dolo­ro­sas, mas ten­de a mani­pu­lar demais os sen­ti­men­tos do espec­ta­dor.

Poesia sem fim

A exem­plo de seu lon­ga ante­ri­or (A dan­ça da rea­li­da­de), o novo fil­me do chi­le­no radi­ca­do na Europa Alejandro Jodorowsky mes­cla remi­nis­cên­ci­as auto­bi­o­grá­fi­cas com uma des­bra­ga­da fan­ta­sia. Visualmente des­lum­bran­te – e por vezes geni­al na ima­gi­na­ção ceno­grá­fi­ca –, o fil­me pade­ce entre­tan­to de uma retó­ri­ca poé­ti­ca um tan­to gas­ta, uma espé­cie de sur­re­a­lis­mo can­sa­do, ao incor­po­rar à fic­ção per­so­na­gens reais, como os poe­tas Nicanor Parra, Enrique Lihn e Stella Díaz Varín.

Aranha ver­me­lha

Uma das boas sur­pre­sas no “foco Polônia” da 40ª Mostra é Aranha ver­me­lha, pri­mei­ro lon­ga de fic­ção do dire­tor de foto­gra­fia Marcin Koszalka. A ação se pas­sa em Cracóvia em 1967 e gira em tor­no de um rapaz, cam­peão de sal­tos orna­men­tais, que fica obce­ca­do por um bru­tal e frio seri­al kil­ler a pon­to de se iden­ti­fi­car com ele. Narrativa seca e elíp­ti­ca, com ambi­en­ta­ção notur­na, anda­men­to sóbrio, pou­cos diá­lo­gos e sobre­tu­do nenhu­ma expli­ca­ção (psi­co­ló­gi­ca, soci­o­ló­gi­ca), é um fil­me des­con­cer­tan­te que, em alguns momen­tos, reme­te ao Não mata­rás de Kieslowski. Por falar em Kieslowski, a mos­tra está exi­bin­do o mag­ní­fi­co Decálogo do dire­tor polo­nês.

Conspiração da fé

Depois do vio­len­to, diver­ti­do e ori­gi­nal O cida­dão do ano, exi­bi­do na Mostra de 2014, o novo fil­me do noru­e­guês Hans Petter Moland é uma gran­de decep­ção. É vio­len­to, mas não é diver­ti­do e mui­to menos ori­gi­nal. A his­tó­ria de um psi­co­pa­ta que se pas­sa por reli­gi­o­so para seques­trar e matar cri­an­ças com requin­tes cruéis tem todos os cli­chês mani­queís­tas e tru­ques de mani­pu­la­ção do gêne­ro, incluin­do uma canhes­tra expli­ca­ção psi­co­ló­gi­ca para a pato­lo­gia do cri­mi­no­so. Numa aula sobre éti­ca do cine­ma, vale­ria como con­tra­pon­to simé­tri­co ao polo­nês Aranha ver­me­lha.

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