Patrick Modiano: o esquecido e os esquecimentos

Literatura

09.10.14

Hoje foi divul­ga­do o ven­ce­dor do Prêmio Nobel de Literatura de 2014, o fran­cês Patrick Modiano, nas­ci­do em 1945. Está ape­nas come­çan­do, por­tan­to, o movi­men­to de des­co­ber­ta e, para alguns, de res­ga­te do autor. A ideia de “res­ga­te” se jus­ti­fi­ca na medi­da em que Modiano seria, em tese, um escri­tor bas­tan­te conhe­ci­do no Brasil, uma vez que a edi­to­ra Rocco publi­cou vári­os de seus livros entre 1985 e 2003 (hoje ele sequer figu­ra no catá­lo­go no site da edi­to­ra). A iro­nia da situ­a­ção – um autor tra­du­zi­do e publi­ca­do duran­te um perío­do, em segui­da dei­xa­do de lado, com seus livros ago­ra só dis­po­ní­veis em sebos, res­sur­ge, da noi­te para o dia, com o peso de um Nobel – cer­ta­men­te agra­da­ria ao pró­prio Modiano, já que a mai­o­ria de seus livros tra­ta jus­ta­men­te dis­so, a dinâ­mi­ca tan­to his­tó­ri­ca quan­to sub­je­ti­va da memó­ria e do esque­ci­men­to.

Um tema mui­to pre­sen­te na fic­ção de Modiano é a ocu­pa­ção nazis­ta na França duran­te a Segunda Guerra Mundial – espe­ci­al­men­te na cha­ma­da “Trilogia da Ocupação”, com­pos­ta por seus três pri­mei­ros roman­ces, La Place de l’Étoile, de 1968, Ronda da noi­te, de 1969, e Les Boulevards de Ceinture, de 1972. A ocu­pa­ção nazis­ta lhe dá aces­so a três gran­des temas que serão con­ti­nu­a­men­te retra­ba­lha­dos nos livros pos­te­ri­o­res: 1) o trau­ma his­tó­ri­co como vivên­cia cole­ti­va, como ver­go­nha naci­o­nal a ser recal­ca­da; 2) as estra­té­gi­as de sobre­vi­vên­cia (tan­to físi­ca quan­to psí­qui­ca) desen­vol­vi­das pelos indi­ví­du­os expos­tos a esse trau­ma cole­ti­vo; 3) as ori­gens fami­li­a­res dele pró­prio, Modiano, que, ten­do nas­ci­do ao final da guer­ra, só pôde pre­en­cher as lacu­nas atra­vés da ima­gi­na­ção.

Em Ronda da noi­te, cuja edi­ção bra­si­lei­ra é de 1985, os três temas con­ver­gem na cons­tru­ção do nar­ra­dor e da his­tó­ria que con­ta. Trata-se de um agen­te duplo, que tra­ba­lha para a Resistência e para a Gestapo, sem pro­fes­sar qual­quer tipo de per­ten­ci­men­to que não seja da ordem do simu­la­cro e do fal­so. Mesmo o momen­to de sua deci­são care­ce de pro­fun­di­da­de, de las­tro sub­je­ti­vo: “Relendo naque­la noi­te a Antologia dos trai­do­res, de Alcibíades ao capi­tão Dreyfus, pare­ceu-me que, afi­nal, o jogo duplo e – por que não? – a trai­ção con­vi­ri­am ao meu cará­ter irre­qui­e­to”. Em para­le­lo a esse regis­tro bas­tan­te cola­do à aven­tu­ra iden­ti­tá­ria do nar­ra­dor, a nar­ra­ti­va apre­sen­ta tons dete­ti­ves­cos, com con­fron­tos, diá­lo­gos rápi­dos e a per­ma­nen­te ten­são da guer­ra em sur­di­na entre os nazis­tas e os resis­ten­tes – aque­le ambi­en­te que Jean-Pierre Melville cap­tu­rou em seus fil­mes, mais ou menos na mes­ma épo­ca, como O Exército das som­bras, de 1969.

Com a figu­ra do agen­te duplo em Ronda da noi­te, Modiano arti­cu­la um dra­ma huma­no de amplas pro­por­ções, que se repe­te nos mais vari­a­dos con­tex­tos: a pos­si­bi­li­da­de do sujei­to, dian­te de uma situ­a­ção extre­ma, vio­len­tar aqui­lo que lhe é mais caro, mais ínti­mo, mais pes­so­al. É o que está em jogo na cola­bo­ra­ção, por exem­plo, quan­do fran­ce­ses aju­dam ale­mães a per­se­guir e matar fran­ce­ses; mas tam­bém no nível pes­so­al do antis­se­mi­tis­mo, outro tema caro a Modiano, como pode­mos per­ce­ber na cita­ção de Ronda da noi­te, com a men­ção ao “capi­tão Dreyfus” – uma men­ção que é, de cer­ta for­ma, um res­ga­te do roman­ce ante­ri­or, La Place de l’Étoile, cujo nar­ra­dor é um judeu antis­se­mi­ta que tra­ba­lha para a Gestapo.

A memó­ria em sua obra, por­tan­to, não é liga­da à nos­tal­gia, mas a uma espé­cie de des­con­for­tá­vel cons­ci­ên­cia de que não temos cer­te­za daqui­lo que pode­mos ser, ou mes­mo daqui­lo que fomos. Nesse pon­to, e tam­bém por con­ta do perío­do his­tó­ri­co con­si­de­ra­do, Modiano pode ser tal­vez apro­xi­ma­do a W. G. Sebald, ain­da que o ale­mão seja conhe­ci­do por suas fra­ses lon­gas e asso­ci­a­ções cul­tu­ras, enquan­to Modiano inves­te em um esti­lo mais dire­to e con­ci­so. O Nobel fran­cês não des­toa de cer­ta ten­dên­cia da lite­ra­tu­ra fran­ce­sa con­tem­po­râ­nea que inves­te na cons­tru­ção de per­so­na­gens meno­res, dis­cre­tos, sobre o pano de fun­do de uma tênue recons­tru­ção his­tó­ri­ca – algo que come­çou com Emmanuel Bove e con­ti­nu­ou com Jean Echenoz, Pierre Michon e Andreï Makine.

Em um de seus melho­res roman­ces – que são sem­pre con­ci­sos e alu­si­vos, mais mos­tran­do do que dizen­do –, Rue des Boutiques Obscures, de 1978, que ganhou no Brasil o títu­lo Uma rua de Roma, Modiano con­ta a his­tó­ria de Guy Roland, um dete­ti­ve que deci­de inves­ti­gar sua pró­pria his­tó­ria, obli­te­ra­da depois de um aci­den­te que o dei­xou amné­si­co. É a movi­men­ta­ção físi­ca no espa­ço – as cami­nha­das, as via­gens, os des­lo­ca­men­tos – que per­mi­ti­rá a Roland com­pre­en­der melhor as vári­as cama­das tem­po­rais de sua his­tó­ria, uma cons­tru­ção fic­ci­o­nal que lem­bra Noturno indi­a­no, de Antonio Tabucchi.

Em outro exce­len­te livro, Dora Bruder, de 1997, Modiano com­ple­xi­fi­ca seu cená­rio recor­ren­te com o ques­ti­o­na­men­to da iden­ti­da­de não do nar­ra­dor, mas de uma vida des­co­nhe­ci­da, per­di­da no pas­sa­do, que é res­ga­ta­da a par­tir de um recor­te de jor­nal: “Procura-se uma jovem, Dora Bruder, 15 anos”, diz o anún­cio de 1941, e aí come­ça o roman­ce. Começa o roman­ce? Não seria exa­to ou jus­to com Modiano pen­sar seus livros como even­tos iso­la­dos den­tro de uma car­rei­ra. Dora Bruder inten­si­fi­ca suges­tões apre­sen­ta­das em livros ante­ri­o­res, por exem­plo. Acredito que par­te da expli­ca­ção do Nobel de Literatura ser, hoje, de Patrick Modiano está pre­ci­sa­men­te aí, nes­se pon­to em que uma car­rei­ra se enca­mi­nha em dire­ção a uma poé­ti­ca, ou seja, um flu­xo mais ou menos coe­so, que se con­fi­gu­ra para o lei­tor a par­tir des­sa recor­rên­cia tão par­ti­cu­lar de temas e ques­ti­o­na­men­tos.  

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