Andrea Pazienza

Andrea Pazienza

Andrea Pazienza

Pazienza: derrota e niilismo

Quadrinhos

28.12.16

Numa tar­de de feve­rei­ro de 1991, o cara saiu da ban­ca de jor­nal, sen­tou-se no bar da esqui­na e come­çou a ler o gibi que tinha aca­ba­do de com­prar. Em “Cinderela 1987”, qua­dri­nho estre­la­do pela tur­ma do Zanardi (era a série pre­di­le­ta do cara), o gos­to­são Colas (ou Colasanti) sedu­zia uma garo­ta, con­ven­cen­do-a a par­ti­ci­par da brin­ca­dei­ra do cober­tor, espé­cie de rito de ini­ci­a­ção na esco­la secun­dá­ria que todos da tur­ma fre­quen­ta­vam. Ela devia ficar nua e de qua­tro sob um cober­tor e ser apal­pa­da. Se não rea­gis­se, entra­ria pra tur­ma. A garo­ta, além de apai­xo­na­da por Colas, era irmã de Palmiro, ini­mi­go da tur­ma do Zanardi. De debai­xo do cober­tor, em meio ao bur­bu­ri­nho, ela reco­nhe­ce a voz do irmão: ele aca­ba­ra de che­gar, tra­zi­do por Zanardi, que ergue o cober­tor e lhe mos­tra o “pre­sen­te” em sinal de tré­gua. Enquanto Palmiro estu­pra a garo­ta ilu­di­da, o cober­tor é total­men­te arran­ca­do e ele des­co­bre que faz isto com a pró­pria irmã.

Antes de a his­tó­ria se encer­rar com Palmiro des­ca­be­la­do pelas ruas de Bolonha em deses­pe­ro, numa cena notur­na com res­so­nân­ci­as bíbli­cas, o cara fechou o gibi e pen­sou: “Nessa o Pazienza pas­sou dos limi­tes”.

Não que o cara (que era eu) não esti­ves­se habi­tu­a­do ao con­teú­do regu­lar da Animal (VHD Diffusion), impor­tan­te revis­ta bra­si­lei­ra de qua­dri­nhos cujos vin­te e dois núme­ros cir­cu­la­ram entre o final dos anos 1980 e o iní­cio dos 1990. Em uma edi­ção ante­ri­or, o vio­len­tís­si­mo car­tu­nis­ta fran­cês Vullemin encer­ra­va sua his­tó­ria de guer­ra com o pro­ta­go­nis­ta, um sol­da­do raso, sen­do cur­ra­do pelo sar­gen­to numa trin­chei­ra. Tudo por­que o sol­da­do, feri­do de mor­te, recla­ma­ra que mor­re­ria vir­gem.

Mas “Cinderela 1987”, o qua­dri­nho do ita­li­a­no Andrea Pazienza (1956–1988), tra­zia naque­la cena pas­sa­da numa repú­bli­ca de estu­dan­tes um jogo de sub­mis­são e vio­lên­cia reco­nhe­cí­vel e bas­tan­te típi­co do com­por­ta­men­to ado­les­cen­te do perío­do em que o cara esti­ve­ra na esco­la secun­dá­ria, e por isto mes­mo mais poten­te. Não se tra­ta­va de algo dis­tan­te e mar­ca­do pelas dis­tor­ções gro­tes­cas do exa­ge­ro como o final da his­tó­ria de Vuillemin, mas de algo pos­sí­vel, real. Crível. Poderia se dizer até mes­mo pal­pá­vel, com per­dão pelo mau gos­to do tro­ca­di­lho, porém a ques­tão de gos­to é pre­ci­sa­men­te o que está em jogo aqui. Pazienza, cujo lema era “A paci­ên­cia tem limi­tes. Pazienza, não”, havia colo­ca­do à pro­va o gos­to de seus cli­en­tes, levan­do-os a outro pata­mar de dis­cus­são moral. Não era pou­co, em se tra­tan­do de um mero gibi.

O qua­dri­nhis­ta se tor­na­ra conhe­ci­do atra­vés da revis­ta bolo­nhe­sa Frigidaire, diri­gi­da por Vicenzo Sparagna, que reu­nia todo o gru­po egres­so da efê­me­ra Cannibale, gibi roma­no de ins­pi­ra­ção dadaís­ta de final dos anos 1970 (o nome foi sur­ru­pi­a­do da publi­ca­ção diri­gi­da por Francis Picabia nos anos 1920), com­pos­to por Stefano Tamburini, Massimo Mattioli, Filippo Scòzzari e Tanino Liberatore.

"História de Astarte", publicada na revista AnimalAndrea Pazienza

Primeira pági­na de “História de Astarte”, publi­ca­da na revis­ta Animal

Contudo, Pazienza tam­bém vinha do con­tur­ba­do cená­rio polí­ti­co de Bolonha, onde estu­da­ra na facul­da­de de artes da uni­ver­si­da­de e se envol­veu com a Autonomia Operaia, movi­men­to anti­au­to­ri­tá­rio e anti­par­la­men­ta­ris­ta que cul­mi­na­ria nas rebe­liões de 1977 na cida­de. Em sen­ti­do opos­to àque­le ori­gi­na­do por estu­dan­tes em 1968, o Movimento de 77 foi com­pe­li­do pela rejei­ção a qual­quer repre­sen­ta­ção de poder ou orga­ni­za­ção soci­al, do esta­do aos sin­di­ca­tos e à igre­ja, com pro­fun­da ins­pi­ra­ção anar­quis­ta e punk. A Itália de então (como de ago­ra e sem­pre) não admi­tia prin­ci­pan­tes: da com­bus­tão espon­tâ­nea das ruas no iní­cio, que pro­mo­via ações dire­tas a favor dos direi­tos huma­nos e da libe­ra­ção sexu­al e das dro­gas, pro­mo­ven­do a ocu­pa­ção das ruas e de pré­di­os aban­do­na­dos, além da luta femi­nis­ta, o movi­men­to uniu-se à esquer­da ins­ti­tu­ci­o­nal repre­sen­ta­da pelo Partido Comunista Italiano. Logo depois, even­tos dra­má­ti­cos como a expul­são de Luciano Lama, líder sin­di­ca­lis­ta liga­do ao PCI, ao dis­cur­sar na Universidade Sapienza, leva­ram a Autonomia Operaia a rom­per com a esquer­da par­ti­dá­ria e a “ele­var o nível do con­fli­to”. Ou seja, a pegar em armas.

A radi­ca­li­da­de des­se movi­men­to cul­mi­nou nos con­fron­tos san­gren­tos em mar­ço daque­le ano nas ruas de Bolonha. Policiais infil­tra­dos assas­si­na­ram o mili­tan­te Francesco Lorusso, cau­san­do reta­li­a­ção. Militantes lan­ça­ram coque­téis molo­tov em um bar de direi­ta, matan­do um estu­dan­te. Com seu pro­gres­si­vo afas­ta­men­to dos par­ti­dos esquer­dis­tas tra­di­ci­o­nais, o movi­men­to — sim­bo­li­za­do pelo lema “nem com o Estado, nem com a Brigada Vermelha” — atin­giu um melan­có­li­co oca­so.

Em um epi­só­dio auto­bi­o­grá­fi­co de Le stra­or­di­na­rie avven­tu­re di Pentothal, pri­mei­ra série de qua­dri­nhos publi­ca­da pelo qua­dri­nhis­ta (na revis­ta Alter Alter, 1977), um cien­tis­ta malu­co fas­cis­ta afir­ma: “Esse Andrea Pazienza é sinô­ni­mo de uma nova estra­té­gia. Devemos infil­trá-lo nas filei­ras  ini­mi­gas … bem ori­en­ta­do, ele vai espa­lhar rapi­da­men­te as seguin­tes carac­te­rís­ti­cas psi­co­ló­gi­cas na base de nos­sa ordem demo­crá­ti­ca: a pre­gui­ça, o egoís­mo, o medo, a igno­rân­cia, situ­a­ci­o­nis­mo, car­rei­ris­mo, fal­si­da­des, o des­cui­do, a pre­vi­si­bi­li­da­de, a neu­ro­se”.

A gera­ção de Pazienza foi mar­ca­da por essa der­ro­ta ide­o­ló­gi­ca, ade­rin­do ao nii­lis­mo de extra­ção punk como for­ma de rea­ção. O con­su­mo de heroí­na, com­ba­ti­do ante­ri­or­men­te pela Autonomia Operaia, alas­trou-se. O hedo­nis­mo deses­pe­ra­do da série de qua­dri­nhos pro­ta­go­ni­za­da por Zanardi, um machis­ta cíni­co e mani­pu­la­dor, inves­ti­gou a insi­nu­an­te pre­sen­ça do mal nas ações coti­di­a­nas, no sexo e na fal­ta de sen­ti­do das rela­ções com­ple­ta­men­te des­pro­vi­das de afe­to, a não ser aque­le ema­na­do pela asso­ci­a­ção mas­cu­li­na em prol da escu­lham­ba­ção mais sór­di­da. Além do avil­ta­men­to des­per­ta­do pela inten­ção cla­ra de Pazienza de ofen­der o públi­co com suas his­tó­ri­as, Zanardi equa­ci­o­na o final dos tem­pos à total fal­ta de espe­ran­ças que nos con­du­zi­ria ao está­gio seguin­te da vida nes­te pla­ne­ta tão paté­ti­co: o poli­ti­ca­men­te cor­re­to, a dis­co­te­ca, o yup­pis­mo, anos 1980, Reagan & Thatcher, AIDS.

Em 1988, Andrea Pazienza mor­reu em decor­rên­cia de uma over­do­se de heroi­na. Havia sido pre­ce­di­do pelo ami­go Stefano Tamburini em 1986, mor­to pelo mes­mo moti­vo. Pazienza tinha 32 anos.

A Editora Veneta aca­ba de publi­car Os últi­mos dias de Pompeo, nove­la grá­fi­ca pós­tu­ma que é con­si­de­ra­da o tes­ta­men­to do artis­ta.

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