Pelo sim, pelo não

Colunistas

08.07.15

O que se escre­ve hoje sobre a Grécia não se repe­te ama­nhã. Ainda mais quan­do os ban­cos rea­bri­rem as por­tas. Muita gen­te se diz mani­pu­la­da pela mídia, mas eu nun­ca tinha vis­to a mídia mani­pu­la­da pelos fatos como na sema­na pas­sa­da, quan­do o pri­mei­ro-minis­tro gre­go, Aléxis Tsípras, jogou a toa­lha duran­te a nego­ci­a­ção da dívi­da de seu país com a União Europeia e o FMI e propôs um refe­ren­do aos gre­gos, para saber se esta­vam dis­pos­tos a aca­tar os ter­mos de mais um arro­cho econô­mi­co pro­pos­to por Bruxelas.

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Ninguém enten­deu nada. Nem a mídia. Entre a tro­ca de insul­tos, um lado pas­sou a acu­sar o outro de men­tir. E as notí­ci­as refle­ti­ram o desen­ten­di­men­to, osci­lan­do  de for­ma errá­ti­ca e impre­vi­sí­vel entre os dois polos e per­mi­tin­do até que um jor­nal de esquer­da, como o fran­cês Libération, acu­sas­se Tsípras de irres­pon­sá­vel, enquan­to outro, bem mais cen­tris­ta e libe­ral , como o The New York Times, con­de­nas­se a infle­xi­bi­li­da­de dra­co­ni­a­na dos tec­no­cra­tas euro­peus.

Em meio à bara­fun­da toda, o hila­ri­an­te ape­lo à lógi­ca fei­to por Jean-Luc Godard, em depoi­men­to ao The Guardian, veio dar um pou­co de humor e de luz ao impas­se: “Devemos a lógi­ca aos gre­gos. Aristóteles se saiu com esse gran­de ‘logo’, que usa­mos sem­pre que dize­mos ‘Você já não me ama, logo…’. (…)  Usamos isso milhões de vezes, para tomar as deci­sões mais impor­tan­tes. E está na hora de come­çar a pagar por isso. Se, a cada vez que usar­mos a pala­vra ‘logo’, pagar­mos dez euros à Grécia, a cri­se aca­ba­rá em um dia. (…) Cada vez que Angela Merkel dis­ser ‘Nós lhes empres­ta­mos todo esse dinhei­ro, logo vocês  devem nos pagar com juros,’ ela deve­rá pagar royal­ti­es pelo que está dizen­do”.

No domin­go, os gre­gos dis­se­ram “não” às intran­si­gen­tes exi­gên­ci­as euro­pei­as. Logo, seguin­do a lógi­ca de Aristóteles, o futu­ro a Deus per­ten­ce. Tudo indi­ca que o voto da inde­pen­dên­cia cau­sa­rá mais cri­se e depen­dên­cia aos gre­gos, se é que é pos­sí­vel deses­ta­bi­li­zar ain­da mais a eco­no­mia do país. É impro­vá­vel que mude a lógi­ca de aju­da pri­o­ri­tá­ria aos ban­cos em detri­men­to da popu­la­ção mais caren­te, uma vez que os ban­cos, que na sema­na pas­sa­da já esta­vam a um pas­so do colap­so, se tor­na­ram o esteio das nações no capi­ta­lis­mo tar­dio. Mas Tsípras não tinha opção. Os euro­peus o dei­xa­ram entre a cruz e a cal­dei­ri­nha. O refe­ren­do ser­viu como car­ta-bran­ca para que ele pudes­se pros­se­guir nego­ci­an­do em ter­ri­tó­rio des­co­nhe­ci­do e com con­sequên­ci­as impre­vi­sí­veis.

Se ain­da é cedo para vati­ci­nar o des­ti­no da Grécia e da Europa, uma coi­sa ficou cla­ra com o qui­proquó que pre­ce­deu o refe­ren­do: as coi­sas há mui­to já não estão no lugar que antes lhes atri­buía­mos. Que um jor­nal de esquer­da acu­se de irres­pon­sá­vel, em edi­to­ri­al, um gover­no de esquer­da, e tome o par­ti­do dos cre­do­res que por sua vez são asso­ci­a­dos por um jor­nal libe­ral, de cen­tro, a abu­tres tec­no­cra­tas, não é nada, em ter­mos de lógi­ca, se com­pa­ra­do ao fato de um par­ti­do da esquer­da radi­cal, como o Syriza, só con­se­guir gover­nar numa coa­li­zão com a extre­ma direi­ta naci­o­na­lis­ta. E que um país que nun­ca pagou suas dívi­das exter­nas – como lem­bra Thomas Piketty, refe­rin­do-se à Alemanha, em entre­vis­ta ao Die Zeit – tenha se tor­na­do a polí­cia da dívi­da dos outros.

Está cla­ro que não have­rá lugar para a Grécia den­tro da zona do euro sem algum per­dão da dívi­da e uma pro­fun­da refor­ma econô­mi­ca e fis­cal, como decla­rou o pró­prio FMI. O sis­te­ma fis­cal gre­go é esca­la­fo­bé­ti­co, para dizer o míni­mo. Para dar uma ideia: enquan­to cer­ca de um ter­ço da popu­la­ção vive em uma eco­no­mia infor­mal, bur­lan­do impos­tos, os arma­do­res gre­gos, que estão entre os homens mais ricos do país, não pagam impos­tos, ofi­ci­al e legal­men­te. Por que, então, outros paí­ses (afi­nal, as ver­da­dei­ros cre­do­res) que pena­ram para zerar suas con­tas e fazer suas refor­mas sob as ordens dos tec­no­cra­tas, como Portugal, Itália, Irlanda e Espanha (esta, para sur­pre­sa geral, bem mais dis­pos­ta a nego­ci­ar com a Grécia do que os ale­mães), teri­am que pagar para sal­var os apo­sen­ta­dos gre­gos?

Como diria uma ami­ga, des­ta vez Godard se con­fun­diu de Aristóteles: o pro­ble­ma da Grécia são os Onassis e tudo o que eles repre­sen­tam. Nada a ver com filo­so­fia. Entretanto, quan­do os gre­gos pro­pu­se­ram aos cre­do­res euro­peus aumen­tar os impos­tos sobre os ricos, bem antes do refe­ren­do, a pro­pos­ta foi ime­di­a­ta­men­te recu­sa­da, dan­do a enten­der que Bruxelas (sob a lide­ran­ça de Berlim) tal­vez não tenha mes­mo a inten­ção de sal­var a Grécia. Ou pelo menos não a Grécia de Tsípras.

Está cla­ro que os diri­gen­tes euro­peus, assus­ta­dos com o pos­sí­vel con­tá­gio de fenô­me­nos seme­lhan­tes em paí­ses bem mais impor­tan­tes do pon­to de vis­ta econô­mi­co e polí­ti­co – como a Espanha do Podemos –, gos­ta­ri­am de ver Tsípras e seu par­ti­do bem lon­ge do poder. Os soció­lo­gos Luc Boltanski e Arnaud Esquerre denun­ci­a­ram, no Libération, a má-fé de quem acu­sa Tsípras de ser­vir aos inte­res­ses e à ide­o­lo­gia fas­cis­ti­zan­te dos naci­o­na­lis­mos euro­peus, mas, ao mes­mo tem­po, igno­ra que há um con­fli­to insus­ten­tá­vel entre a eco­no­mia e a polí­ti­ca na Europa e que a cri­se gre­ga ape­nas abre a via para a vol­ta da polí­ti­ca (e da demo­cra­cia) à mesa de dis­cus­são. Eles têm razão. O refe­ren­do tão exe­cra­do pelos diri­gen­tes euro­peus seria, nes­se caso, ape­nas um meca­nis­mo da prá­ti­ca demo­crá­ti­ca há mui­to esque­ci­da. Mas, como diria um ami­go euro­peu, sob o ris­co do sofis­ma e de ser acu­sa­do de fler­tar com a hipo­cri­sia da direi­ta, quem defen­de­ria como demo­crá­ti­ca a con­sul­ta à popu­la­ção se, por hipó­te­se, Netanyahu pro­pu­ses­se aos isra­e­len­ses um refe­ren­do sobre os ter­ri­tó­ri­os ocu­pa­dos?

O que irri­ta meu ami­go euro­peu, homem da esquer­da tra­di­ci­o­nal, é o que os oti­mis­tas da esquer­da radi­cal aplau­dem como uma sub­ver­são decor­ren­te da cha­ma­da cri­se das repre­sen­ta­ções: que um che­fe de Estado já não tenha cora­gem ou auto­no­mia para deci­dir o que lhe cabe depois de ter sido elei­to por voto popu­lar e que pre­ci­se con­sul­tar a popu­la­ção a cada novo impas­se, como se com isso lavas­se as mãos de toda res­pon­sa­bi­li­da­de. Tsípras já sabia que qual­quer deci­são ape­nas o expo­ria a mais uma vol­ta do para­fu­so nes­sa nova lógi­ca tão pou­co aris­to­té­li­ca. Ao votar pela inde­pen­dên­cia, os gre­gos refor­ça­ram sua depen­dên­cia da Europa, espe­ran­do em con­tra­par­ti­da que a Europa com­pre­en­des­se que tam­bém é depen­den­te deles.

Torçamos para que os diri­gen­tes euro­peus rece­bam o reca­do. Em todo caso, a demis­são do minis­tro da eco­no­mia, Yanis Varoufakis, ime­di­a­ta­men­te após a vitó­ria do “não” (e depois de ter ame­a­ça­do se demi­tir no caso de o “sim” ven­cer), é um ges­to de boa von­ta­de (uma con­ces­são) aos cre­do­res, que con­fir­ma a sinu­o­si­da­de des­sa lógi­ca. No final das con­tas, o “não” que Tsípras pedia aos gre­gos tal­vez qui­ses­se dizer “sim”.

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