Perecíveis e descartáveis

Correspondência

20.04.11

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Armando,

Talvez você não quei­ra saber do que te digo: ape­sar do rebar­ba­ti­vo Gullar ser bem mais velho que você, no meu ran­king pes­so­al você é o mais impor­tan­te poe­ta bra­si­lei­ro vivo. Mas, te dou razão: tal­vez jul­gar poe­sia seja mui­to mais difí­cil do que jul­gar pro­sa.  O que inclui o jul­ga­men­to de obras de arte entre uma das pro­fis­sões impos­sí­veis — as outras três seri­am, para Freud, psi­ca­ná­li­se, polí­ti­ca e peda­go­gia. Acrescentemos esta quar­ta à lis­ta. É fácil jul­gar a má poe­sia. A boa, não.

Queria que você me falas­se um pou­co de como você expe­ri­men­ta o tem­po. Falo da expe­ri­ên­cia sub­je­ti­va da tem­po­ra­li­da­de, esse sen­ti­do da vida a trans­cor­rer, que é tão nos­so — o que mais pos­suí­mos nes­se mun­do, a não ser um cor­po e uma fatia do tem­po? Mas nos esca­pa.  Como essa expe­ri­ên­cia do tem­po se inclui, ou não, na sua poe­sia?

Você me conhe­ce bem e sabe que nós dois, que vive­mos no mes­mo sécu­lo e nos mes­mos dias do calen­dá­rio, temos expe­ri­ên­ci­as tem­po­rais opos­tas. Minha tem­po­ra­li­da­de é a pres­sa, o ins­tan­te, os minu­tos con­ta­dos para cada coi­sa. Tento mudar isso. Defendo a cada dia meu direi­to à con­tem­pla­ção, luto con­tra com­pro­mis­sos, esva­zio a agen­da. Mas con­ti­nuo pre­en­chen­do a car­te­la dos meus dias, como você obser­vou. Já você, me pare­ce que con­se­guiu se con­ce­der o úni­co luxo que ver­da­dei­ra­men­te vale a pena na vida: ter um oce­a­no de horas dis­po­ní­veis dian­te de si, a cada dia. Condição da sua poe­sia?

Veja o que o Cildo Meirelles, meu artis­ta favo­ri­to, dis­se sobre o tem­po, no docu­men­tá­rio que fize­ram com ele e que fui ver duas vezes em 2010 — a segun­da com lápis e papel na mão, a ano­tar no escu­ro as coi­sas que ele dis­se.

O mala­ba­ris­ta equi­li­bra três obje­tos onde cabem dois. Isto intro­duz uma dimen­são tem­po­ral na arte deles. O tem­po é tudo. (…) Tudo é pere­cí­vel. Mas há uma dife­ren­ça entre o pere­cí­vel e o des­car­tá­vel. Somos fini­tos — isto é ser pere­cí­vel. Mas não vamos nos sui­ci­dar por cau­sa dis­so — isto seria ser­mos des­car­tá­veis.

Rita

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