Philomena ou o ator como autor

No cinema

10.02.14

Philomena, diga-se logo, é um fil­me extre­ma­men­te inte­res­san­te e agra­dá­vel como cos­tu­mam ser os tra­ba­lhos de Stephen Frears. Um tan­to impes­so­al, tam­bém, uma vez que Frears pare­ce ser daque­les dire­to­res empe­nha­dos menos em exi­bir um esti­lo pró­prio do que em “con­tar uma boa his­tó­ria” ou “abor­dar um assun­to rele­van­te” de modo cla­ro e inci­si­vo.

Se seus fil­mes rara­men­te apre­sen­tam gran­des voos cri­a­ti­vos e ousa­di­as de lin­gua­gem, por outro lado qua­se sem­pre ates­tam um arte­sa­na­to segu­ro, uma cla­re­za nar­ra­ti­va a toda pro­va, um con­tro­le abso­lu­to do tom e um cui­da­do espe­ci­al com a dire­ção de ato­res.

Com Philomena não é dife­ren­te. A “boa his­tó­ria” aqui é o dra­ma de uma senho­ra irlan­de­sa sep­tu­a­ge­ná­ria (Judi Dench, a Philomena do títu­lo) em bus­ca do filho que lhe foi tira­do quan­do tinha dois ou três anos de ida­de. E o “assun­to rele­van­te” é a opres­são e explo­ra­ção de mães sol­tei­ras ado­les­cen­tes pela Igreja Católica na Irlanda do Norte. Quer dizer, esse é o assun­to prin­ci­pal, mas há outros, como o jor­na­lis­mo, o con­ser­va­do­ris­mo da era Reagan, a Aids etc.

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Mas o que inte­res­sa a Frears, antes de tudo, são os per­so­na­gens, suas nuan­ces e trans­for­ma­ções ao lon­go da nar­ra­ti­va. Se a Philomena cri­a­da por Judi Bench domi­na tudo com seu caris­ma e sua huma­ni­da­de trans­bor­dan­te, a figu­ra que con­duz a tra­ma — e com quem o públi­co ten­de a se iden­ti­fi­car — é a do jor­na­lis­ta Martin Sixsmith (Steve Coogan, tam­bém cor­ro­tei­ris­ta e copro­du­tor do fil­me), demi­ti­do de um car­go no gover­no Blair e desi­lu­di­do da pro­fis­são, que acei­ta meio a con­tra­gos­to fazer uma gran­de maté­ria “de inte­res­se huma­no” sobre o dra­ma de Philomena.

Relação fili­al

É do con­tra­pon­to entre a calo­ro­sa e cré­du­la Philomena e o céti­co e reser­va­do Sixmith que o fil­me extrai seu encan­to e seu humor. Juntos, os dois cru­zam o oce­a­no, vas­cu­lham o pas­sa­do e, cla­ro, des­co­brem um ao outro e a si mes­mos. A evi­den­te rela­ção fili­al que se esta­be­le­ce entre eles é expli­ci­ta­da num momen­to cômi­co do fil­me, em que o jor­na­lis­ta, para entrar no quar­to de Philomena, diz ao cama­rei­ro do hotel que ela é sua mãe. Há uma ame­a­ça de tra­gé­dia no ar, neu­tra­li­za­da pelo humor — como cos­tu­ma acon­te­cer com Frears, um rea­li­za­dor mui­to bri­tâ­ni­co nes­se aspec­to.

Pouco impor­ta, no final das con­tas, que se tra­te de uma “his­tó­ria real” e que fique­mos conhe­cen­do o des­ti­no pos­te­ri­or dos per­so­na­gens naque­les inde­fec­tí­veis letrei­ros finais. Uma das saga­ci­da­des de Philomena, aliás, é o emba­ra­lha­men­to de regis­tros na cons­ti­tui­ção dos flash­backs em super-8 ou em vídeo: algu­mas ima­gens são ence­na­das, outras são de home movi­es ver­da­dei­ros dos per­so­na­gens.

Além da engre­na­gem

Mas nun­ca é demais lem­brar que os fatos foram fil­tra­dos pri­mei­ro pelo pró­prio Sixsmith, no livro que escre­veu a res­pei­to, The lost child of Philomena Lee, depois pelos rotei­ris­tas, pela ence­na­ção de Frears e pela mon­ta­gem final. De tal manei­ra que, ao cabo de todo esse pro­ces­so, tem-se uma espé­cie de dra­ma exem­plar, em que todas as ares­tas foram poda­das e mes­mo as sur­pre­sas e ambi­gui­da­des pare­cem estar sob con­tro­le.

Se há algo que esca­pa des­sa engre­na­gem per­fei­ta­men­te azei­ta­da, é, para­do­xal­men­te, a pre­sen­ça de Judi Dench. Sua atu­a­ção é tão mati­za­da e impre­vi­sí­vel que trans­mi­te a cada pla­no, a cada olhar, a sen­sa­ção de que todo ser huma­no é de uma rique­za ina­pre­en­sí­vel e inex­pli­cá­vel, “um estra­nho ímpar”, como diz o ver­so de Drummond. O “autor” de Philomena, se exis­te algum, não é Martin Sixsmith, nem Steve Coogan, nem Stephen Frears: é Judi Dench.

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