Pickpocket

Cinema

20.01.11

No que nos con­ta, e prin­ci­pal­men­te no modo de con­tar, A rede soci­al (The Social Network, de David Fincher, 2010) dis­cu­te o con­fli­to entre uma aten­ção exclu­si­va, con­cen­tra­da num úni­co pon­to, e uma outra dis­per­sa, vol­ta­da para todos os lados sem se fixar em pon­to algum. Mais do que dis­cu­tir, o fil­me situa o espec­ta­dor no cen­tro des­te con­fli­to, ao mes­mo tem­po no cine­ma, na sala de pro­je­ção com os outros espec­ta­do­res, e na inter­net, com os per­so­na­gens.

Cena de "A rede social"

Cena de “A rede soci­al”

Talvez seja pos­sí­vel dizer que se tra­ta de uma aten­ção desa­ten­ta, de um olhar que não se dedi­ca a nenhum obje­to em par­ti­cu­lar por­que, diga­mos, não exis­te pro­pri­a­men­te um obje­to em que se pos­sa con­cen­trar o olhar. A rigor, nem mes­mo uma his­tó­ria, pelo menos não uma his­tó­ria que se refi­ra a algo real e con­cre­to (por isso mes­mo, Fincher, na cerimô­nia do Globo de Ouro, agra­de­ceu a Mark Zuckerberg por ter cedi­do seu nome e his­tó­ria para a inven­ção de uma metá­fo­ra). Portanto, nenhum obje­to como uma pin­tu­ra, uma foto ou uma escul­tu­ra, mas um pro­ces­so. Um pro­ces­so de esta­be­le­cer rela­ções entre obje­tos. Entre pes­so­as e obje­tos.

Talvez seja pos­sí­vel dizer que exis­te um per­ma­nen­te des­lo­ca­men­to, um per­ma­nen­te estar em lugar nenhum — como Mark: ao mes­mo tem­po na sala do jul­ga­men­to e na chu­va lá fora, per­ce­bi­da no vidro da jane­la.

Talvez seja pos­sí­vel dizer que na apa­ren­te dis­per­são, super­fi­ci­a­li­da­de, simul­ta­nei­da­de do tem­po cor­ri­do da inter­net quem con­ver­sa fala duas vezes antes de pen­sar — como Mark na cena ini­ci­al com Erica: no meio da fra­se ele sal­ta para um outro tema e logo para uma ter­cei­ra ques­tão para assim dis­cu­tir não exa­ta­men­te qual­quer des­tes temas mas a inven­ção de um modo de esta­be­le­cer uma rela­ção entre eles, que pare­cem não ter nada a ver um com o outro.

Talvez seja pos­sí­vel dizer que tudo isso seja de fato uma ques­tão cine­ma­to­grá­fi­ca, uma redu­ção (da tela de cine­ma para a do com­pu­ta­dor ou do celu­lar), uma ampli­a­ção (da tela de cine­ma para den­tro de casa para ser guar­da­da no bol­so). Uma exten­são do que cer­ta vez Robert Bresson defi­niu como o essen­ci­al­men­te cine­ma­to­grá­fi­co: pro­por rela­ções entre as ima­gens. Um fil­me, dis­se, é fei­to não de ima­gens mas da rela­ção entre as ima­gens.

Assim, A rede soci­al, a aten­ção mais vol­ta­da para a rede, nos diz que o cine­ma, não neces­sa­ri­a­men­te os fil­mes mas o pro­ces­so cri­a­ti­vo do cine­ma, ou per­mi­tiu esta­be­le­cer novas rela­ções soci­ais e com­pre­en­der um pou­co melhor a vida como ela é, ou nos acos­tu­mou a viver a vida como ele é.

A vida como ele é cor­re como um trai­ler de um pou­co menos de dois minu­tos com tudo o que um fil­me con­ta em pou­co menos de duas horas. A vida como ele é mos­tra na rela­ção que esta­be­le­ce entre as ima­gens algo que, sim, resul­ta do entre­la­ça­men­to das ima­gens mas não se encon­tra em nenhu­ma delas. A con­ver­sa entre Mark e Erica, fei­ta de diver­sos pla­nos, a câme­ra ora num pon­to de vis­ta per­to dele ora num outro per­to dela, pare­ce fei­ta de um pla­no só, con­tí­nuo, por­que a frag­men­ta­ção da ima­gem é simul­tâ­nea à frag­men­ta­ção da con­ver­sa. O que A rede soci­al faz então é um pla­no-sequên­cia da fala de Mark assim como ela é, fei­ta de mui­tos e simul­tâ­ne­os pon­tos de vis­ta.

Estar simul­ta­ne­a­men­te em dois ou mais pon­tos de vis­ta é uma sen­sa­ção fami­li­ar para o espec­ta­dor de cine­ma. É gra­ças a esta mobi­li­da­de que ele, obser­va­dor pri­vi­le­gi­a­do, den­tro e fora da situ­a­ção que obser­va, pode se ante­ci­par aos per­so­na­gens em cena e sal­tar emo­ci­o­nal­men­te para den­tro dela. Ele já viu algo que o herói não pode per­ce­ber do pon­to de vis­ta fixo em que se encon­tra na cena. Mas aqui os per­so­na­gens vivem nes­te mes­mo espa­ço des­con­cer­tan­te em que se encon­tra o espec­ta­dor de cine­ma no ins­tan­te da pro­je­ção.

O fil­me na tela, o espec­ta­dor ao mes­mo tem­po num pólo e nou­tro, aten­to (ao fil­me) e desa­ten­to (de si mes­mo), não vive uma coi­sa, a aten­ção con­cen­tra­da, como opo­si­ção da outra, a aten­ção dis­per­sa. Vive uma como se fos­se a outra. O que A rede soci­al suge­re é que des­de sem­pre dedi­ca­mos a tudo uma aten­ção ao mes­mo tem­po fecha­da e aber­ta, con­cen­tra­da e dis­per­sa, e se nos damos con­ta dis­to deve­mos apren­der a des­con­cen­trar-se sem per­der a con­cen­tra­ção, ou vice-ver­sa, dar aten­ção exclu­si­va à desa­ten­ção. Conversar duas con­ver­sas ao mes­mo tem­po, como Mark com Erica no bar. Estar em dois espa­ços ao mes­mo tem­po, como Mark na sala e na chu­va lá fora. Ser dois ao mes­mo tem­po, como o ator Armie Hammer em cena como os gême­os Cameron Winklevoss e Tyler Winklevoss.

Talvez, quan­do sur­giu, a foto­gra­fia tenha sido sen­ti­da como uma aten­ção dis­per­sa fren­te ao olhar exclu­si­vo soli­ci­ta­do pela pin­tu­ra. Assim como o fil­me, que quan­do sur­giu, pare­ceu diri­gi­do a uma aten­ção dis­per­sa, se com­pa­ra­da com a dedi­ca­ção exi­gi­da pela lei­tu­ra de um livro. E assim como a tele­vi­são, logo per­ce­bi­da como uma for­ça de dis­per­são do con­cen­tra­do espec­ta­dor de cine­ma. Assim tam­bém, a inter­net, ago­ra, é sen­ti­da como uma for­ça de dis­per­são fren­te ao olhar habi­tu­a­do com a tele­vi­são, o cine­ma, a foto­gra­fia, a pin­tu­ra e tudo o mais. Talvez a ques­tão, des­de antes da foto­gra­fia, seja mes­mo per­gun­tar-se se desen­vol­ver uma visão mul­ti­fo­cal sig­ni­fi­ca per­der o foco.

Deste modo, a ima­gem que abre o fil­me, Mark e Erica no bar, e a que encer­ra o fil­me, de novo Mark e Erica, ele no com­pu­ta­dor, ela na tela do Facebook, são essen­ci­ais para a his­tó­ria con­ta­da em A rede soci­al. Isto é, não exa­ta­men­te a his­tó­ria que pode ser resu­mi­da na ação dos per­so­na­gens — a his­tó­ria de como Zuckerberg cri­ou a rede, ou rou­bou a idéia da rede, de acor­do com os gême­os Winklevoss, ou o dinhei­ro de seu sócio, de acor­do com Saverin -, não a tra­ma que se esten­de ao lon­go de A rede soci­al, mas o que de fato impor­ta, o que as rela­ções entre as ima­gens reve­la para o espec­ta­dor, o con­fli­to entre uma for­ma de aten­ção dedi­ca­da e uma outra dis­per­sa. Entre inter­net e cine­ma, se pre­fe­ri­mos um olhar que não se fixa em pon­to algum; entre cine­ma e cine­ma, se pre­fe­rir­mos con­cen­trar o olhar num pon­to pre­ci­so.

Montar a ima­gem ini­ci­al (entra no meio de uma con­ver­sa per­ce­be­mos mais o tom da con­ver­sa do que pro­pri­a­men­te o que se fala, por­que a câme­ra muda de pon­to de vis­ta a cada nova fra­se de Mark ou de Erica) com a ima­gem final (Mark não diz pala­vra e a câme­ra pare­ce tão para­da quan­to ele que repe­te o ges­to mecâ­ni­co de pres­si­o­nar a tecla do com­pu­ta­dor), mon­tar as duas ima­gens é como apro­xi­mar o cine­ma de David Fincher do cine­ma de Robert Bresson. Certamente, nada a ver entre a agi­li­da­de da câme­ra e a inten­si­da­de dra­má­ti­ca das ações nos fil­mes de Fincher e a bus­ca de ima­gens vazi­as nos fil­mes de Bresson — aten­ção con­cen­tra­da num úni­co pon­to, às vezes as mãos ou nos pés de um per­so­na­gem, outras um can­to vazio do cená­rio. Mas Fincher, que joga para fren­te as pos­si­bi­li­da­des da ima­gem digi­tal, e Bresson, que joga­va para o futu­ro as inven­ções do tem­po do cine­ma mudo, encon­tram-se num comum enten­di­men­to do cine­ma como expres­são fei­ta não de ima­gens mas de rela­ções entre ima­gens.

Por isso mes­mo não deve sur­pre­en­der que a cena final de A rede soci­al seja igual à de Pickpocket, que Robert Bresson rea­li­zou em 1959. Mark, dian­te do com­pu­ta­dor com a ima­gem de Erica, é um refle­xo de Michel no ins­tan­te em que por trás das gra­des diz para Jeanne (“algo ilu­mi­na­va o ros­to dela”) que per­cor­reu estra­nhos cami­nhos para che­gar até ela:

Oh Jeanne, pour aller jusqu’a toi quel drô­le de che­min m’a fal­lut pren­dre”.

O Michel de Bresson, que com o olhar con­cen­tra­do na car­tei­ra que iria rou­bar pas­sou por Jeanne sem se dar con­ta dela, ensi­nou o Mark de Fincher a dis­per­sar o olhar sem per­der de vis­ta o real obje­ti­vo daque­le estra­nho cami­nho: pres­si­o­nar, uma, duas, três e outra e outra e outra vez o enter no tecla­do do com­pu­ta­dor ilu­mi­na­do pelo ros­to de Erica na pági­na da rede soci­al.

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