Pina: corpo e alma em três dimensões

No cinema

23.03.12

Eu ia escre­ver sobre o exce­len­te Shame, de Steve McQueen, mas fui ver Pina 3-D e me vie­ram à men­te os ver­sos de Camões: “Cesse tudo o que a Musa anti­ga canta,/ que outro valor mais alto se ale­van­ta”. O fil­me de Wim Wenders é tão arre­ba­ta­dor que, por algum tem­po, não sobra espa­ço para mais nada. Shame fica para outra oca­sião.

Chamar Pina de docu­men­tá­rio seria redu­zir mes­qui­nha­men­te sua gran­de­za e seu alcan­ce. É ensaio, poe­sia, decla­ra­ção de amor, mani­fes­to esté­ti­co, polí­ti­co e moral. Uma obra de ris­co e entre­ga, como era de ris­co e entre­ga a arte de Pina Bausch (1940–2009).

Mesmo para quem, como eu, não enten­de nada de dan­ça, Wenders con­se­gue mos­trar o que há de úni­co na coreó­gra­fa e dan­ça­ri­na ale­mã: o rigor mes­cla­do com a intui­ção; a capa­ci­da­de de extrair de cada bai­la­ri­no sua lin­gua­gem cor­po­ral pes­so­al e intrans­fe­rí­vel; o talen­to para cri­ar, medi­an­te o movi­men­to, uma repre­sen­ta­ção pre­ci­sa da vida tal como ela é e tal como deve­ria ser.

Se, em últi­ma ins­tân­cia, a dan­ça de Pina Bausch con­sis­te em colo­car o cor­po huma­no em inte­ra­ção, harmô­ni­ca ou con­fli­tu­o­sa, com as super­fí­ci­es e obje­tos do mun­do, Wenders, com o auxí­lio do 3-D, amplia a esca­la em que esse jogo se dá, lan­çan­do os bai­la­ri­nos de Pina em cam­po aber­to, a con­tra­ce­nar ora com a natu­re­za (bos­ques, lagos, pedrei­ras, deser­tos, cacho­ei­ras), ora com a maté­ria urba­na (ruas, bon­des, pra­ças, cães, pis­ci­nas, metrô).

Em todas as core­o­gra­fi­as ence­na­das no fil­me, do Café Müller à Sagração da pri­ma­ve­ra, pare­ce haver um moti­vo bási­co recor­ren­te: o cor­po como cam­po de bata­lha entre a liber­da­de e a cons­tri­ção, seja esta deter­mi­na­da pelo mun­do exter­no ou pelo uni­ver­so emo­ci­o­nal e ima­gi­ná­rio do sujei­to.

O cor­po como ins­tru­men­to

É como­ven­te ver cada bai­la­ri­no falar de sua rela­ção com Pina, e mais como­ven­te ain­da ver como cada um deles apren­deu com ela a conhe­cer, afi­ar e aper­fei­ço­ar à exaus­tão seu ins­tru­men­to, o pró­prio cor­po. O con­tro­le que eles pare­cem ter de cada mús­cu­lo, de cada ner­vo e de cada fibra de sua ana­to­mia é algo pro­di­gi­o­so.

Libérrima e exa­ta”, foi como Manuel Bandeira defi­niu a poe­sia de Cecília Meireles, e a mes­ma fra­se lapi­dar pode­ria ser apli­ca­da a Pina Bausch e a cada um de seus dan­ça­ri­nos. Sem qual­quer vai­da­de ou exi­bi­ci­o­nis­mo, Wenders põe sua sen­si­bi­li­da­de e sua exper­ti­se a ser­vi­ço des­sa gran­de arte.

Em Pina Bausch, como nos mos­tra o cine­as­ta, éti­ca e esté­ti­ca são sinô­ni­mos. Ao falar sobre Salvezza e cadu­ta nell’arte moder­no, o crí­ti­co ita­li­a­no Giulio Carlo Argan pare­cia estar falan­do dela: “Acima da exa­ti­dão téc­ni­ca, da qual nos­sos con­tem­po­râ­ne­os fazem um cul­to feti­chis­ta, exis­te uma exa­ti­dão moral, que eles geral­men­te igno­ram: uma exa­ti­dão no rea­li­zar não tan­to a pró­pria fun­ção quan­to o pró­prio dever, por­que há um dever, e é o meu dever que­rer ser algu­ma coi­sa dife­ren­te daqui­lo que de fato sou, o meu que­rer fazer-me com a mes­ma pre­ci­são com que a téc­ni­ca mecâ­ni­ca faz um obje­to”.

Para con­cluir, nada melhor do que dei­xar a pró­pria Pina Bausch dizer, com sua dan­ça, o que tem a dizer. Trata-se de um tre­cho de Café Müller incluí­do no fil­me de Wim Wenders.

* Na ima­gem que ilus­tra esse post: cena do fil­me Pina, de Wim Wenders

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